Os problemas táticos do Manchester United vão além de Mourinho. É uma crise de valores

Mourinho durante a vitória do United contra o Burnley (James Williamson – AMA/Getty Images)

Por Leonardo Miranda (@leoffmiranda)

Respeito. Foi assim que José Mourinho encerrou a coletiva de imprensa após a vexatória derrota de 3 a 0 para o Tottenham, em pleno Old Trafford, na última semana. A interpretação do futebol mal jogado pelos Red Devils é que o trabalho de Mourinho não é bom, o que fortalece uma possível saída. Na última sexta, ele citou o filósofo Friedrich Hegel e disse que a verdade de seu trabalho mora no todo.

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Analisar esse todo é ir a fundo no trabalho do próprio treinador. Mourinho é um personagem, e como todo, é capaz de inflamar fãs e detratores. Mas no seu dia-a-dia, o que ele faz? Logo na chegada ao clube, Mourinho diagnosticou que o United tinha carências no elenco. Havia apenas um criador – Juan Mata, nenhum meio-campista capaz de propor um jogo de forma mais efetiva e uma defesa instável, capitaneada por Smalling e Jones. Mourinho foi buscar Bailly e montou uma equipe essencialmente física: fecha a área, ganha duelos aéreos e ataca a partir desses momentos de transição, com a defesa do oponente desorganizada. A chegada de Ibrahimovic era tudo o que Mourinho queria: um finalizador nato, capaz de fazer pivôs e segurar zagueiros.

O contexto favorecia a ideia tática de Mourinho e a ambição de Ed Woodward, magnata do clube, que queria títulos, mais títulos e nada mais. Foram três na primeira temporada, incluindo a Liga Europa, único torneio que o United não havia conquistado em sua história. Naquele jogo em específico, Mourinho provou ser treinador de noites europeias e deu um “xeque” no Ajax ao posicionar Fellaini por dentro do 4-2-3-1, mas com a função de ir para a área e atrapalhar o volante. Deu muito certo.

Uso de Fellaini na final da Liga Europa 2016-17 (Leonardo Miranda)

O que um técnico faz quando tem uma boa temporada e enfrentará um nível maior de exigência? Busca aprimorar. Mourinho foi cirúrgico em duas peças na janela 2017/18: Matic e Lukaku. O primeiro dava a segurança fundamental nos duelos físicos e poderia liberar mais Pogba e Herrera, e o segundo era o herdeiro fundamental de Ibra. Não é por acaso que foram os melhores jogadores na última temporada, ao lado de Pogba, que fez Copa do Mundo exuberante.

A questão é que nenhum deles resolvia problemas específicos do United, o que expôs uma ferida imensa no próprio Mourinho: sua incapacidade de aprimorar um elenco. Se você espera que Mourinho aja como Pochettino, Guardiola e Sarri e dê ao jogador novos paradigmas e aprimore o jogo, esqueça. Ele não irá entregar isso. Mourinho quer jogadores que cheguem e joguem. Está mais para Ancelotti, Benitez e Scolari: aposta em ideias mais simples e vai agindo estrategicamente nos jogos.

Essa fórmula não está ultrapassada ou é moderna. É mais uma fórmula dentre tantas no futebol. Mas quando Mou não tem esses jogadores prontos, seu time simplesmente rui. A Premier League feita pelo United não fui ruim, mas leva essa impressão pelo êxtase que foi o Manchester City. Num daqueles duelos memoráveis, Mourinho conseguiu enxergar com perfeição os pontos fortes e anular o City na virada de 3 a 2 que adiou o título.

O técnico também viu que não iria receber mais ninguém e montou uma equipe com o que tinha. A entrada de Matic foi perfeita para formar um tripé no meio-campo com ele, Pogba e Herrera. Lukaku era a referência perfeita para o 4-1-4-1. O problema morava justamente pelos flancos. Mourinho testou à exaustão a ideia de ter Juan Mata aberto pela direita, atuando como um armador de jogo: recuava, recebia a bola dos volantes e liberava Pogba e o ponta do lado oposto para a área. Nesta Premier League, Mourinho até testou Mata como falso-nove num 4-1-4-1, logo na estreia.

Mata chegou a atuar de falso nove com Mourinho (Leonardo Miranda)

E quem seria esse ponta? Rashford, Lingard, Martial…Mourinho se irritou com Mkhitaryan e o trocou por Alexis Sánchez, do Arsenal. Jogador que tem o drible e a vitória pessoal para realizar esse movimento de “pisar a área” e traduzir o ataque em gols. Deu certo? Sim. Foi o suficiente? Não.

O elenco não combina com o tipo de futebol sem a bola que Mourinho acredita

Mourinho mudou tudo no jogo mais importante da temporada: o duelo contra o Sevilla, pelas oitavas-de-final da Liga dos Campeões. Mourinho optou por Matic e Fellaini junto a Herrera. A ideia seria marcar por encaixes individuais o meio-campo: Matic com Vazquez, Fellaini com N’Zonzi e Lingard com Banega. Um fiasco que deu ao Sevilla a posse e a chance de atacar em pleno Old Trafford.

O tipo de marcação é um dos traços mais reveladores sobre a filosofia tática de um treinador. É bom reiterar que não há melhor ou pior, apenas ideias diferentes. Mourinho acredita que quanto menos tempo e espaço  um adversário tiver, melhor. Por isso, o United concebe seus momentos sem a bola a partir desses encaixes, que acontecem por setor: adversário entrou no setor, quem está lá precisa automaticamente cercar e impedir a progressão.

A lógica desse encaixe pressupõe um poder físico muito grande para acompanhar os deslocamentos adversários e uma concentração absurda. Não se pode desligar em nenhum momento. É um contexto que provoca uma divisão muito grande no elenco, pois favorece Pogba, Matic e Fellaini, mas não maximiza o futebol de Herrera, Lingard, Mata e Sánchez.

Marcação individual com Fellaini em campo (Leonardo Miranda)

Trata-se de um dilema que nunca tem uma resposta fácil. Mourinho pode muito bem se livrar de meio elenco do United, contratar zagueiros de boa imposição como Mina – que foi ventilado, mas foi para o Everton – e formar um time com o físico e o mental que tanto quer. Ou pode contradizer o que acredita e posicionar jogadores numa marcação mais espaçada, o que nem ele quer.

O jogo contra o Tottenham mostrou bem esse dilema entre o que o elenco dá e o que Mourinho quer. Talvez cansado do pouco futebol de Ander Herrera, Mou o posicionou como um zagueiro pela direita, e o United aplicou um 5-3-2 que buscava esses encaixes mais curtos. O bom primeiro tempo foi destruído numa falha de entendimento do sistema, e bom, o resto já conhecemos: 3 a 0 para a equipe londrina.

Ander Herrera como zagueiro contra o Tottenham (Leonardo Miranda)

Algo que ficou evidente no United é a forma que Mourinho escolhe para gerir seu grupo: a gestão da zona de conforto. Mourinho enxerga jogadores como seres que precisam de motivação e doação máxima. Está errado? Não. A forma que ele escolhe para lidar com isso é promover pequenos jogos mentais, em especial na titularidade.  Se acha que Pogba está relaxando, o coloca no banco. Ou o critica na imprensa.

“Mourinho gosta de trabalhar o lado psicológico do atleta. Quer sempre que o jogador esteja feliz para jogar. Quando você acha que não vai jogar, você joga. Quando você acha que está bem, ele te poupa de alguma partida. Ele gosta de deixar o jogador bem focado mesmo no jogo e querendo mostrar o melhor futebol. Às vezes parece ser difícil trabalhar com ele, mas ele faz isso porque cobra ao máximo. Ele te tira da zona de conforto” – Oscar, que trabalhou com Mourinho no Chelsea.

Pode dar certo quando o elenco aceita a ideia, mas não parece ser o caso do United. E o desgaste gerado pode ser muito maior.

A crise também é de valores

O cenário mostra uma base que falhou em seus principais testes e que precisa de adaptação. A resposta lógica seria buscar no mercado essa adaptação, o que o United não fez. A única contratação de peso foi Fred, meio-campista capaz de fazer o que Mou deseja: atacar e defender com eficiência e segurar o tranco dos encaixes individuais. Os dados comprovam como ele é o melhor reforço que o técnico poderia ter.

Desempenho de Fred na atual temporada (Leonardo Miranda)

Num mundo ideal, Ed Woodward daria os exatos reforços que o técnico planeja para seu jogo. No mundo real, o técnico leva toda a culpa pelo desentendimento entre ele e a direção do clube. A saída de Alex Ferguson representou o fim do modelo de “manager”: um técnico-mestre que chefiava o intercâmbio entre base e mercado e comandava o processo de treinamento junto a uma extensa comissão. David Moyes se mostrou um fracasso, e Louis Van Gaal tem um perfil semelhante a Ferguson, mas costuma levar mais tempo que o necessário para impor essa filosofia.

Ao Manchester United falta um norte. Com ou sem Mourinho. Se Mourinho ficar, precisa do tipo de jogador que necessita para entregar o que promete: títulos. Pela impaciência com Van Gaal, o United parece estar em sintonia com o treinador nos objetivos, mas tira dele o que necessita. É uma crise de valores de um clube sem rumo após a saída de seu manager, que até pelo bom senso, não se mete. E não se queima. Ao torcedor, fica o recado: só resta a paciência. Com ou sem o “Special One”.