Os recados de Lula em cinco pontos

Guilherme Caetano
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SÃO PAULO — Durante discurso no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, o ex-presidente Lula adotou um tom diferente daquele visto três anos atrás, às vésperas de sua prisão pela Lava-Jato.

Agora, com os direitos políticos restabelecidos, após decisão do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), o petista falou por quase duas horas e deixou alguns recados — e pistas de como deve se comportar caso venha a concorrer novamente ao Palácio do Planalto.

Apesar dos ataques aos procuradores da Lava-Jato, a quem chamou de "quadrilha", Lula excluiu o Ministério Público das críticas e disse estar "muito tranquilo" em relação aos processos contra si que ainda devem voltar a tramitar na justiça do Distrito Federal, dos quais se diz inocente. No entanto, mostrou estar disposto a brigar pela suspeição de Sergio Moro na operação.

— Nunca teve envolvimento meu com a Petrobras, e todo o sofrimento que eu passei acabou. Estou muito tranquilo. O processo vai continuar. Já fui absolvido em todos os processos fora da Curitiba. Mas nós vamos continuar brigando para o Moro ser considerado suspeito, porque ele não tem o direito de se transformar no maior mentiroso da história do brasil e ser considerado herói por aqueles que queriam me culpar.

O ex-presidente marcou posição contra Jair Bolsonaro na questão da pandemia ao defender a vacinar e criticar os negacionistas do coronavírus. Diferentemente do presidente, que critica o uso de máscara e o distanciamento social e tem feito campanha contra as medidas restritivas dos governadores e prefeitos, além de desacreditar as vacinas, Lula fez campanha pelo imunizante.

— Semana que vem, se Deus quiser, eu vou tomar a minha vacina. Vou tomar a minha vacina. Não me importa de que país, não me importa se é duas ou uma só, sabe? Eu vou tomar minha vacina e quero fazer propaganda pro povo brasileiro: não siga nenhuma decisão imbecil do presidente da república ou do ministro da saúde. Tome vacina.

Discursando na frente de um grande painel com as frases "vacina para todos e auxílio emergencial já" e "saúde, emprego e justiça para o Brasil", Lula defendeu o pagamento de R$ 600 do programa para a população que perdeu a renda durante a pandemia.

Entre recuos e apoios ao pagamento do auxílio, o governo federal deve pagar mais três parcelas do programa nos próximos meses, com um valor médio de R$ 250.

— Não há possibilidade de investimento se não houver demanda. Para ter demanda tem que ter emprego. Porque vocês acham que o PT está brigando por um salário emergencial de R$ 600? Não é porque a gente acha que o Estado tem que pagar R$ 600 a vida inteira. É porque o Estado só pode deixar de pagar quando o Estado estiver gerando emprego e as pessoas estiverem gerando renda às custas de seu trabalho, aí não precisa de salário emergencial. Mas enquanto o governo não cuida de emprego, não cuida de salário, não cuida de renda, você tem que ter o salário emergencial para que as pessoas não morram de fome.

O petista também se colocou contra as privatizações prometidas pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, mas que ainda não foram entregues. Ele defendeu, principalmente, a atuação da Petrobras enquanto empresa estatal.

— Vocês nunca ouviram da minha boca falar em privatização. Quem é que acha que só a iniciativa privada é boa? Uma empresa pública como o Banco do Brasil, a Petrobras... bem dirigida como foi no nosso governo, se transformou na quarta empresa de energia do mundo.

Na coletiva, o ex-presidente voltou a comentar o assunto:

— Se o mercado quiser ver, às minhas custas a entrega da soberania nacional, vendendo o patrimônio nacional, não vote em mim. Tenha medo mesmo, porque nós não vamos privatizar.

— Não tenham medo de mim. Eu sou radical porque quero ir à raiz dos problemas — disse Lula.

O discurso de Lula foi cheio de acenos à moderação. Além dos elogios à imprensa com a repercussão da decisão de Fachin que devolveu seus direitos políticos, ele mencionou com elogios a aliança entre PT e PL para a eleição de 2002, na qual o partido fez um movimento ao centro para conquistar o eleitorado fora da esquerda.

— Em 2002 eu tive como vice o companheiro José de Alencar. Ele era do PMDB. Como o PMDB não me apoiava, nós articulamos a entrada do Alencar no PL, e foi a primeira vez neste país que nós fizemos uma aliança entre o capital e o trabalho. O Zé Alencar era um grande empresário, e eu um modesto dirigente sindical, para governar este país. E, sinceramente, acho que foi o momento mais promissor da história democrática deste país.

Durante o discurso do petista, o ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM) respondeu ao aceno no Twitter. "Você não precisa gostar do Lula para entender a diferença dele para o Bolsonaro (...) Tenho grandes diferenças para o Lula, principalmente na economia, mas não precisa ser petista fanático para reconhecer a diferença entre o ex-presidente e o atual", escreveu Maia.

O tuíte foi lido ao vivo para Lula, que se disse "lisonjeado" e que "se for preciso conversar com Rodrigo Maia, eu converso".

— Se o Rodrigo Maia (...) quiser conversar, não tenha dúvida. Eu estou aberto a conversar com qualquer pessoa sobre democracia, sobre "vacina já", auxílio emergencial e emprego neste país. E se quiser dar um passo a mais e conversar sobre tirar o Bolsonaro, eu estou mais feliz ainda.