Os recados de Obama para o Brasil e Bolsonaro

Pedro Doria
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Há um recado explícito e outro sutil ao Brasil na entrevista concedida pelo ex-presidente americano Barack Obama aos jornalistas Flávia Barbosa, editora executiva do GLOBO, e Pedro Bial, da TV Globo.

O explícito é para o presidente Jair Bolsonaro. O tipo de parceria que o Brasil terá com os EUA, no governo Joe Biden, não está definido e pode ser promissor. Basta que Bolsonaro governe tomando decisões baseadas em conhecimento científico.

Evidentemente, isto exigiria uma adaptação ideológica do presidente brasileiro. Mas chefes de Estado fazem isto a toda hora. Bill Clinton e o britânico Tony Blair eram irmãos ideológicos em seu liberalismo progressista. George W. Bush assumiu a Casa Branca com um novo estilo de conservadorismo e um olhar belicista para o Iraque. Blair considerou que os interesses do Reino Unido exigiam sua adaptação — para bem ou mal, adaptou-se. A decisão de se o Brasil se isolará ou não do mundo é de Bolsonaro e apenas dele. Mas é uma escolha.

O recado implícito está na visão de Brasil que Obama transparece, possivelmente compartilhada por quem pensa diplomacia no Partido Democrata. Quando ele se refere ao ex-presidente Lula como alguém com os escrúpulos de “um chefe de Tammany Hall”, não está falando apenas de política corrupta e mafiosa. Ele está falando da política corrupta e mafiosa praticada por seu próprio partido na Nova York de até princípios do século XX. Quando diz que enxerga líderes como reflexos do país de onde vêm, e quando compara EUA e Brasil na dificuldade de lidar com a questão racial pelo passado de escravidão, Obama desenha uma visão sofisticada de nosso país. Ele vê o Brasil como aquilo que os EUA foram num passado não tão distante assim. E, na lida com Donald Trump e Bolsonaro, com dificuldades não tão distintas assim.