Os três 'Ds' sobre os quais não falamos nos cursos de ESG

A educação executiva foi recentemente inundada de cursos dos mais variados sobre ESG (sigla em inglês para aspectos ambiental, social e de governança). Curta, média, longa duração, virtual ou presencial, um mar vermelho de ofertas. Uma boa notícia, seguida de outra: as carreiras em ESG estão entre as mais promissoras em 2023 e o mercado busca mais profissionais com formação no tema.

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Um curso razoável abordará as três letrinhas, falando por exemplo sobre mudanças climáticas, diversidade, transparência e combate à corrupção. O básico, mas insuficiente face à situação crítica de um mundo mais quente, plano e lotado, como diria Thomas Friedman.

Há uma pluralidade de assuntos e perguntas inconvenientes que uma formação consistente em Sustentabilidade — ou sua popular sigla de ideia reducionista ESG — deveria abordar. Falaremos de três deles, temas espinhosos que passam ao largo das salas de aulas. Nossos três Ds: decrescimento, decolonialidade e democracia.

Comecemos por DEcrescimento. É provável que a palavra cause arrepios, já que nos habituamos com o crescimento econômico baseado no produtivismo e consumismo como sinônimo do desenvolvimento e bem-estar.

Porém, a ideia de decrescimento parte de uma constatação óbvia e inegável em termos físicos: é impossível crescer indefinidamente em sistemas finitos como a Terra. Decrescer significa desvincular o crescimento de recursos materiais e energéticos do progresso humano, portanto, da melhoria da nossa qualidade de vida. Significa rejeitar a acumulação contínua e ilimitada de capital e riqueza, questionar a lógica de dominação e espoliação da natureza.

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Isso nos leva ao segundo D: DEcolonialidade. Libertar nosso pensamento de imaginários arraigados há mais de 200 anos de uma visão eurocêntrica e capitalista de mundo. Desde constatações falaciosas como o homo economicus ou a ideia de um parâmetro único de bem viver idealizado pelo American Way of Life, à fixação com eficiência, velocidade e disponibilidade ininterrupta de negócios e pessoas.

Repensar a vida que definimos como boa, reconhecer as especificidades da história de cada lugar e de todos os sistemas lá presentes, extrapolando — mas incluindo — o olhar econômico e de negócios. Aprender com base local, ainda que com consciência cosmopolita, toda pluralidade humana, sem ordená-las da melhor para a pior, uma prática colonial, injusta e irresponsável.

Sem um olhar decolonial, a diversidade não será promovida de fato: será mero instrumento para bater metas e aparecer nos relatórios ESG.

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Por último, e não sem motivo, a DEmocracia. Face à recente tentativa de golpe de Estado em Brasília, é impossível falarmos de ESG sem falarmos de democracia. Vimos não bastar um processo eleitoral probo. É preciso um sistema que guarde as minorias, ordene as divergências para escutar ativamente a pluralidade; assegure o direito a voto à toda população, sem coação de nenhum tipo; liberdade de imprensa; acesso à justiça; transparência nos processos e nos dados.

Sem um ambiente democrático, os negócios são prejudicados. Por isso, cabe às empresas também um compromisso público com a democracia. Afinal, ela não está dada, ainda mais num Brasil tão desigual. Também cabe a elas uma governança corporativa exemplar: transparente, inclusiva, com participação informada e cultivo do valor democrático na cultura organizacional.

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A formação executiva deve ensinar mais do que estratégias, ferramentas e relatos que operam na mesma lógica que causou o problema. Soluções que precifiquem natureza ou criem mercado para externalidades negativas dos negócios e modos de vida consumistas são insuficientes. É preciso uma formação crítica que coloque no centro as raízes da insustentabilidade, nutridas pela tônica da produção, consumo e acumulação. Sem isso, continuaremos no metaverso colorido do ESG, enquanto no mundo real, o planeta esquenta, a fome aumenta e a democracia corrói.

* Luis Felipe Bismarchi, pós-doutor em Administração, pesquisador-visitante e professor de Sustentabilidade e Alternativas Sistêmicas na FGV e de Sustentabilidade e Estratégia na Faculdade FIPECAFI.

* Gabriela Alem Appugliese, pesquisadora e gestora de projetos do Programa de Formação Integrada do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV (FGVces).

* Fernanda Carreira, coordenadora do Programa de Formação Integrada do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV (FGVces), doutoranda em estudos organizacionais na FGV EAESP.