Otávio Müller quer ouvir e falar mal de si em monólogo de humor

Gustavo Cunha
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Otávio Müller está pronto para falar mal de si mesmo. “E não é falar mal entre aspas ou com algum tipo de cuidado”, o ator avisa. No monólogo “Questão de falha”, que ele apresenta ao público pela primeira vez neste fim de semana, o carioca de 55 anos põe sob questionamento uma série de atitudes que ele entende, hoje, como parte de um comportamento machista.

O espetáculo ainda se desenha como um “rascunho”, o artista frisa, e o texto só ganhará um formato definitivo “quando todos estiverem vacinados e for possível levá-lo aos teatros com segurança”, ele acrescenta. Enquanto isso não acontece, Müller abre as próprias ideias em ensaios abertos e despretensiosos seguidos de bate-papo com os espectadores — as sessões rolam nesta sexta-feira e neste sábado, às 21h30, e domingo, às 19h, por meio do Sympla, com ingressos a partir de R$ 20 (também haverá outras apresentações, nos mesmos horários, entre os dias 19 e 21 de fevereiro).

— Quero fazer uma desconstrução desse macho branco, heterossexual e de classe média que eu sou. Precisamos nos repensar para sair desse mundo patriarcal e chinfrim — ele opina. — Nos ensaios virtuais para o público, quero levar porrada. Ao fim das apresentações, vamos permitir que as pessoas abram seus vídeos para comentar o que viram.

Com texto assinado por Daniel Belmonte e Fabrício Branco, a narrativa dirigida por Gabriel Fontes Paiva (de “A Golondrina”) é tocada de maneira bem-humorada, sempre pautada por referências a episódios reais vividos por Otávio, que se desdobra em personagens e situações diversas. Estão lá lembranças importantes de sua formação masculina, como os maus conselhos que ele que ouvia para atrair garotas na adolescência, a dificuldade em abordar assuntos acerca de sexo com o pai durante a juventude e a primeira transa com uma prostituta.

— São recordações em que me debruço, aumentando determinados aspectos, é claro, e puxando reflexões. O tom é absolutamente crítico, mas com humor — explica. — Acho vital e fundamental falar de nosso machismo. Tudo hoje no mundo me leva a pensar nisso. Não houve um clique na minha cabeça, inspirado numa situação específica, que me fizesse atentar a esse tema. Foi todo o conjunto da realidade em que vivemos que me pôs aí. Escuto a geração mais nova, sou pai de um menino e duas meninas, além de ser casado com uma mulher (a arquiteta Adriana Junqueira), e eles sempre me apontam determinados comportamentos errados, coisas corriqueiras. Essa autocrítica precisava ser feita.

Filme e novela à vista

Às voltas com as gravações da novela “Um lugar ao sol”, que substituirá “Amor de mãe” na faixa das 21h da TV Globo, Müller viu um projeto que lhe é caro ser temporariamente suspenso devido à pandemia. Não fosse a atual crise sanitária, ele já estaria rodando “A vida sexual da mulher feia”, adaptação cinematográfica do solo de comédia que o artista estreou em 2014 e manteve em cartaz por cinco anos.

Aliás, uma referência a esse trabalho deve ser incluída em “Questão de falha”. É que, ao olhar para o passado, Müller enxerga com cautela determinadas passagens da montagem de sucesso inspirada no livro de Cláudia Tajes.

— O que falávamos em “A vida sexual da mulher feia” já soa velho e preconceituoso. A própria coisa do deboche com a mulher feia é escroto. O roteiro do filme (que terá direção de Caio Cobra) consegue mudar isso — adianta. — E vamos ver se o título resistirá ao tempo...