Otan acusa China de buscar controle de infraestruturas cruciais do Ocidente

***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 14.11.2019 - O líder chinês, Xi Jinping, durante reunião do Brics, no Palácio do Itamaraty, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 14.11.2019 - O líder chinês, Xi Jinping, durante reunião do Brics, no Palácio do Itamaraty, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

GUARULHOS, SP (FOLHAPRESS) - Países do Ocidente devem ter cuidado para não criar novas dependências da China enquanto se afastam da Rússia devido à Guerra da Ucrânia, afirmou nesta segunda (21), Jens Stoltenberg, secretário-geral da Otan, a aliança militar ocidental, durante visita à Espanha.

A fala do norueguês expressa o discurso que vem sendo adotado por nações europeias em relação a Pequim. Em outubro, líderes da União Europeia (UE) subiram o tom e pediram que a relação com o regime liderado por Xi Jinping seja urgentemente recalculada.

Stoltenberg afirmou que há crescentes esforços chineses para controlar as infraestruturas cruciais, as cadeiras de suprimentos e setores industriais importantes do Ocidente. "Não podemos dar aos regimes autoritários chances de explorar nossas vulnerabilidades."

O discurso incisivo contra a ditadura de partido único chinesa, de certo modo, ecoa aprendizados da Europa com Moscou. A guerra no Leste Europeu, afinal, expressou a dependência europeia do gás russo que, quando deixou de ser fornecido nas mesmas quantidades de antes, abriu uma crise energética e econômica na região.

O fator complicador é que a China é a principal parceira comercial da UE desde 2020, quando desbancou os Estados Unidos. Em 2019, a potência asiática foi descrita pelo bloco como uma "parceira para objetivos comuns", uma "rival sistêmica que propaga outro tipo de regime" e uma "concorrente econômica".

Um dos primeiros líderes europeus a lidar com o imbróglio foi o premiê da Alemanha, Olaf Scholz, que esteve com Xi no início de novembro. O encontro teve na pauta questões da geopolítica mundial, como Ucrânia e Taiwan, mas também a agenda econômica, com Scholz sendo criticado inclusive por alguns de seus ministros.

Ainda assim, poucos dias após a conversa entre os dois líderes, Berlim bloqueou a venda de uma fábrica de semicondutores para uma empresa chinesa devido a possíveis ameaças de segurança. O grupo sueco Silex, do conclomerado chinês Sai Micro Electronics, queria comprar a alemã Elmos, que produz wafers, material semicondutor.

O ministro da Economia alemão, Robert Habeck, afirmou na ocasião que a China deve continuar sendo uma importante parceira comercial. "Mas não devemos ser ingênuos e temos de ver se os interesses comerciais e de mercado correm o risco de serem usados par apolíticas de poder contra os interesses da Alemanha", seguiu.

Os serviços de inteligência alemães, ligados ao Ministério do Interior, desaconselharam a compra, que o governo, inicialmente, era favorável a aprovar. Depois, porém, Scholz aprovou a recomendação para cancelar a negociação junto a seu Conselho de Ministros.

Durante entrevista coletiva na última quarta (16), Jens Stoltenberg foi questionadosobre a possibilidade de a China desempenhar um papel maior na mediação da Guerra da Ucrânia -o país, afinal, tem fortalecido laços econômicos com Moscou em meio ao conflito.

Stoltenberg, então, criticou o país por não ter condenado publicamente a invasão russa, ainda que reiteradamente diga que defende o diálogo e a paz. "A China, na verdade, compartilha de parte da narrativa russa sobre a guerra, e essa narrativa não é correta. A Rússia e o presidente Vladimir Putin são os responsáveis pela guerra."

Pequim já despendeu críticas à Otan. Em abril, a chancelaria chinesa acusou a aliança militar de "bagunçar a Europa" e tentar criar conflitos na região da Ásia-Pacífico, onde os EUA disputam influência militar e econômica com o regime liderado por Xi.

O próprio Xi chegou a criticar a aliança durante reunião virtual do Brics, bloco que o Brasil também integra, em junho, quando disse que "países acabarão em dificuldades se depositarem fé cega na expansão de alianças militares e na busca de sua segurança às custas dos outros".