Otan testa sua unidade em cúpula de aniversário

Por Toni CERDÀ y Anna CUENCA
O secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg (E), e o primeiro-ministro britânico Boris Johnson (D) cumprimentam o presidente de Portugal Marcelo Rebelo de Sousa ao chegar à cúpula da OTAN no hotel Grove em Watford, nordeste de Londres

A Otan enfrenta nesta quarta-feira a cúpula de seu 70º aniversário com críticas da França, as exigências dos Estados Unidos e a ameaça de bloqueio da Turquia, três frentes que testam sua unidade estratégica.

"Não é a primeira vez que a Aliança enfrenta suas diferenças e sempre soube superá-las", declarou otimista o secretário-geral Jens Stoltenberg, ao chegar para a cúpula de Watford, nos arredores de Londres.

A Turquia aparece como o principal obstáculo. "Os turcos estão em uma posição de bloqueio. Não podem fazer a cúpula refém", disse uma fonte diplomática, referindo-se a um eventual veto da declaração conjunta final e dos acordos de defesa com os países bálticos.

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, quer que os aliados reconheçam a milícia curda YPG, contra a qual lançou uma ofensiva no norte da Síria em outubro, como organização "terrorista". Caso contrário, ameaça vetar as decisões na cúpula.

Mas o presidente francês Emmanuel Macron, muito crítico da ofensiva turca, já alertou que as organizações não devem ser misturadas, especialmente quando a YPG foi aliada dos países ocidentais na luta contra o Estado Islâmico (EI).

Os países bálticos, que temem uma Rússia mais assertiva por seu papel no conflito na Ucrânia desde 2014, reclamaram da possibilidade de se alcançar um compromisso, nas palavras do presidente lituano Gitanas Nauseda.

Stoltenberg expressou sua confiança em conseguir uma "solução" com Erdogan e reiterou que a Otan tem "planos" e "forças" para protegê-los da Rússia de Vladimir Putin, que ontem disse estar disposto a "cooperar" em questões como "terrorismo".

A Turquia, que também está na mira dos aliados após a compra de um sistema de mísseis da Rússia, foi o principal alvo do presidente francês em uma entrevista polêmica na qual afirmou que a Otan está em estado de "morte cerebral".

Na quarta, Macron voltou a defender seu posicionamento, afirmando que deveriam abrir um debate sobre a estratégia da Aliança e não apenas sobre "dinheiro".

A exigência de Washington para que os outros membros da Aliança aumentem seus gastos militares, constantes desde a presidência de Barack Obama, protagonizou as cúpulas em Bruxelas em 2017 e 2018 com Donald Trump.

Stoltenberg tem se esforçado nos últimos dias para convencer Trump de que o Canadá e os aliados europeus cumprem seu compromisso de atingir 2% do PIB nacional em gastos militares até 2024, como prometeram na cúpula de Gales em 2014.

O presidente dos Estados Unidos, primeira potência da Otan e cujas despesas militares nacionais atingiram 3,30% do PIB em 2018, elogiou esses esforços em uma reunião com o secretário-geral da Aliança.

Mas, em sua opinião, os processos para aumento nos investimentos estão "morosos". Segundo dados da Aliança, apenas nove de seus 29 membros atingiram 2% do PIB este ano em gastos militares, meta prometida para até 2024.