Otan vê risco de conflito na Ucrânia após nova reunião fracassada com a Rússia

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A crise de segurança na Europa ganhou mais tintas sombrias nesta quarta (12), após o fracasso nas conversas entre uma delegação russa e a Otan (aliança militar liderada pelos EUA).

Coube ao secretário-geral do clube, o norueguês Jens Stoltenberg, fazer o anúncio de resto previsível. "Há diferenças significativas entre a Otan e a Rússia, que não serão fáceis de acomodar. Mas é um sinal positivo que todos sentaram à mesas e conversaram sobre os tópicos.".

Por outro lado, disse a repórteres, "há um risco real de conflito armado na Europa". A negociadora americana, Wendy Sherman, afirmou que "se os russos deixaram a mesa de negociação, ficará claro que eles nunca foram sérios nas suas intenções".

De fato, desde 2019 não havia um encontro do chamado Conselho Otan-Rússia, e ambos os lados romperarm relações diplomáticas no ano passado. Para o problema mais urgente, a crise na Ucrânia, ainda há mais névoa do que claridade.

A reunião ocorre depois de conversa no mesmo tom, mas com alguma abertura, ocorrida em Genebra entre russos e americanos na segunda (10). E antecede um encontro final, nesta quinta (13), no fórum da Organização de Segurança e Cooperação na Europa, em Viena --enfim com a presença dos ucranianos

O fato de o encontro em Bruxelas, que durou quatro horas enquanto a reunião de Genebra estendeu-se por sete, ter ocorrido com os russos fazendo exercícios militares com munição real na fronteira com a Ucrânia deu o tom geral.

A atual crise remonta a 2014, quando o governo de Vladimir Putin interveio no vizinho após o governo pró-Moscou ser derrubado e a nova gestão prometer integração militar com o Ocidente --algo inaceitável ao Kremlin, que já viu a Otan ganhar 16 membros ex-comunistas desde o fim da Guerra Fria, aproximando-se de suas fronteiras.

O Ocidente acusa o risco de invasão por parte de Putin, que posicionou mais de 100 mil homens em áreas próximas da Ucrânia, onde o leste tem dois territórios dominados há quase oito anos por separatistas pró-Rússia. Em 2014, a Crimeia foi anexada integralmente pela Rússia, gerando sanções que duram até hoje.

O Kremlin nega a ideia de invadir, até porque o custo humano e econômico talvez seja impagável, mas a movimentação militar é sinal inequívoco de pressão --que já havia ocorrido da mesma forma em abril passado.

Stoltenberg reafirmou o caminho de negociação que a secretária-adjunta de Estado Sherman havia estabelecido na segunda: abrir canais diplomáticos e discutir o controle de armamentos, mísseis de alcance intermediário à frente, e mecanismos de escrutínio de exercícios militares.

Os russos disseram que iriam estudar o caso. "A Otan está pronta", afirmou o secretário-geral. O chefe da delegação russa, o chanceler-adjunto Alexander Gruchko, ainda não se pronunciou.

No mais, russos colocaram novamente as linhas vermelhas estabelecidas por Putin em um ultimato: querem garantia para que a Ucrânia e outros países, como a Geórgia, nunca sejam admitidas na Otan, e a retirada de tropas dos membros ex-comunistas a seu redor.

Isso não vai acontecer. A Otan, assim como o próprio presidente americano Joe Biden disse anteriormente, foi peremptória em negar a hipótese --o que era previsível.

Agora é uma questão de saber se os russos se contentarão com a reabertura de negociações pontuais para cantar vitória ou se a deixa dada pelo presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, de querer fazer uma cúpula com Putin e os líderes da França e da Alemanha para tentar resolver o assunto será acatada.

Zelenski, um presidente impopular, tem se reforçado com o discurso de defesa da pátria, mas a situação precária no Donbass (o leste ucraniano) e a flexão de musculatura militar russa o pressionam a talvez aceitar termos que eram inconcebíveis antes --como manter a autonomia das áreas rebeldes.

Se esse for o destino, o Ocidente terá entregue uma vitória geopolítica a Putin, dado que países fraturados territorialmente não podem ser aceitos nos clubes a oeste --Otan e União Europeia, para começar.

Na prática, se isso ocorrer, a Ucrânia seguirá sendo um tampão estratégico contra o Ocidente. Putin já o tem na Belarus, onde apoiou decisivamente a a ditadura local contra protestos da oposição e firmou-se como líder político.

Não só lá. O apoio dado ao autocrata do Cazaquistão para derrotar a revolta contra si semana passada colocou a Rússia em outro patamar de influência na na Ásia Central. Isso, assim como na Ucrânia, com apoio explícito da China de Xi Jinping, interessada em enfraquecer o Ocidente.

Mesmo que isso ocorra, e não o cenário mais pavoroso de um conflito que possa escalar a um embate entre russos e a Otan, ainda há instrumentos ocidentais para pressionar Putin.

Já há um novo pacote de sanções sendo cozido no Congresso dos EUA contra a Rússia, e o status inconcluso do gasoduto Nord Stream 2 é uma dor de cabeça para o Kremlin.

O duto, que liga Rússia à Alemanha e tira fluxo de gás natural via Ucrânia, privando o país de bilhões de dólares em taxas, está pronto, mas enfrenta questionamentos burocráticos vistos como políticos.

O russo tem ainda outros ganhos no momento. Pouco se fala neste momento da repressão aumentada à oposição e a entidades de sociedade civil na Rússia, que ganhou uma escala inaudita em 2021.

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