Otto Alencar diz que se expressou mal sobre cuidados paliativos após reação de entidades

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*ARQUIVO* BRASILIA, DF,  BRASIL,  27-04-2021, 12h00: O senador Otto Alencar (PSB-BA). CPI da Covid. Movimentação de senadores na abertura da CPI da Covid, no Senado Federal. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*ARQUIVO* BRASILIA, DF, BRASIL, 27-04-2021, 12h00: O senador Otto Alencar (PSB-BA). CPI da Covid. Movimentação de senadores na abertura da CPI da Covid, no Senado Federal. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O senador Otto Alencar (PSD-BA) afirma que se expressou mal ao criticar o uso de cuidados paliativos para pacientes graves durante sessão da CPI da Covid na quarta-feira (22). Diz, ainda, que se referia exclusivamente a casos da rede Prevent Senior e que conhece bons hospitais especializados na área.

"Na minha opinião, um doente que está em UTI e tem chance de vida, o corpo médico deve ir até o fim para salvar a vida dele. Ele só deve sair da UTI se estiver morto. Se um paciente entra com Covid-19 e suas complicações, ele não deve ser retirado [da UTI] porque não tem mais chance", afirma à reportagem.

"O que acontecia na Prevent: o paciente estava internado, intubado, tinha condições de tratamento e de resolver o problema, mas eles desintubavam e mandavam para 'paliatizar'. Essa frase estava na boca de todos os médicos com quem conversei aqui", segue.

Um documento produzido pela CPI, com base em dossiê assinado por 15 médicos da Prevent Senior, indica que teria sido adotado o "uso de morfina para pacientes que não recebiam todos os tratamentos para a reversão do estado clínico". "Segundo os médicos, esta era uma prática comum para os pacientes que iriam morrer no tal 'paliativo'", diz o relatório.

"Se o paciente tem chances, tirar o tubo e botar na enfermaria é eutanásia", afirma Otto Alencar. "Eu não sou contra [cuidados paliativos], conheço profissionais do meu estado. Eu talvez tenha colocado mal, aí fizeram essa questão. Eles [da Prevent Senior] tiravam da UTI e mandavam para a bomba de morfina", afirma.

Os cuidados paliativos consistem em uma abordagem que não tem o objetivo de curar uma doença irreversível, mas de atingir o bem-estar controlando sintomas físicos e emocionais em casos da pacientes que não têm mais perspectiva de vida. O processo é interdisciplinar e inclui diversas especialidades, como médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais.

Na quarta-feira, durante a oitiva do diretor-executivo da Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior, o senador do PSD comparou a prática à eutanásia, e entidades de profissionais que atuam na área de cuidados paliativos reagiram à fala.

"Se criou a figura do 'paliatista' (sic), é uma nova especialidade macabra. E outra coisa: isso acontece, senador Humberto [Costa], e todos sabem aqui, com os olhos complacentes do presidente do Conselho Federal de Medicina, que nunca tomou providências nesse sentido. Nós denunciamos várias vezes esses episódios contra a vida das pessoas", disse Alencar.

Após a repercussão dos fatos trazidos à tona pela CPI, tanto a abordagem do senador Otto Alencar quanto o suposta prática da Prevent Senior foram contestadas por profissionais da área.

Em nota, a Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP) reiterou que os cuidados paliativos buscam fornecer a elaboração de um plano de cuidados alinhados aos desejos de um paciente com doença irreversível e um sistema de apoio para ajudar sua família a lidar com a doença, entre outros pontos.

"É uma atividade que merece respeito não só aos seus profissionais como, principalmente, aos pacientes que, ao serem atendidos por equipes comprometidas, são os maiores beneficiados, conforme apontam diversos estudos nacionais e internacionais", disse a ANCP.

O psicólogo Nichollas Martins Areco, que trabalha com cuidados paliativos voltados a crianças e adolescentes no serviço de oncologia pediátrica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, afirma que a repercussão da fala do senador pode causar temor na população.

"Os cuidados paliativos são globais, envolvendo questões biológicas, psíquicas e sociais, para que a pessoa viva bem mesmo em face de um diagnóstico de restrição de vida. Eles diminuem sintomas, ajudam a família", diz Areco.

"Nós pensamos em um projeto terapêutico personalizado que contemple as necessidades de cada caso, para diminuir dor e sofrimento", afirma ainda o psicólogo. Ele explica que as fontes de sofrimento podem ser variadas e incluir desde depressão a rotina familiar e até mesmo a distância entre a casa do paciente e o hospital —fatores esses que buscam ser contornados pela equipe multidisciplnar de cuidados paliativos.

"[Os cuidados servem] para que as pessoas possam viver sua vida mesmo em face da morte. Para que a criança usufrua sua vida, que possa expressar seu medo da morte, e que a gente possa ajudar ela a entender os caminhos que a vida dela está tomando", segue Areco, citando seu trabalho no hospital com pacientes infantis e adolescentes.

O Instituto de Estudos em Saúde Coletiva (Inesco) também publicou nota repudiando as declarações de Otto Alencar. "Esforços para ampliar o conhecimento e o acesso aos Cuidados Paliativos, são necessários em todas as frentes da sociedade, pautando-se sempre na saúde, no cuidado e na ciência", disse em nota.

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