Otto Glória, o brasileiro que fez história na Copa Africana de Nações

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Brazilian football coach Otto Gloria (1917 - 1986), manager of SL Benfica, UK, 7th June 1970. (Photo by Evening Standard/Hulton Archive/Getty Images)
Otto Gloria (Foto: Evening Standard/Hulton Archive/Getty Images)

É quase meia-noite. Segun Odegbami está extremamente ansioso. Faltam menos de 24 horas para a decisão da Copa Africana das Nações (CAN) de 1980. Será a primeira final da história da Nigéria no torneio, iniciado em 1957. Essa é também a primeira vez em que o país é o anfitrião. O atacante, de 27 anos, não consegue dormir. Decide então dar uma volta pelo hotel onde a seleção nigeriana está concentrada. Encontra no jardim um companheiro de equipe, Christian Chukwu, que tinha o olhar vago. Vai até ele para chamá-lo para dar uma volta e conversar um pouco.

Eles passam pelo quarto do treinador da seleção e veem que a porta está entreaberta. Dentro está o carioca Otto Glória, sempre vestido elegantemente, o cabelo penteado com esmero e o bigode fino impecável. “O homem está acordado, curvado sobre sua mesa, trabalhando em alguma coisa”, lembra Odegbami num artigo escrito no The Guardian. A dupla entra, cumprimenta o professor e lhe explica a causa da insônia. Otto, do alto dos seus 63 anos e com uma carreira repleta de glórias, os escuta e lhes diz que entende por que não conseguem dormir. “Ele nos aconselha a tomar um copo de cerveja cada um, para relaxar”, recorda o ex-atacante da seleção. “Um copo de cerveja? Isso é tabu no futebol. Mas ele está falando muito sério”.

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Estupefatos, os jogadores ficam sem resposta. Perguntam então ao brasileiro o que ele está fazendo. “Observamos nossos nomes em diferentes posições marcadas por setas em todo o traçado à sua frente”. Glória responde que está jogando a partida do dia seguinte no seu quadro, pensando em como o time deve atuar, as táticas que vai usar, e prevendo como jogará a Argélia.

“Eu e Chukwu estamos impressionados. O professor estava realmente jogando a partida no papel um dia antes do jogo! Deixamos seu quarto com educação. São provavelmente os melhores 15 minutos de uma aula de futebol que eu já tive. Eu quase consigo ler a mente de Otto Glória”.

Otaviano Martins Glória nasceu em 1917, no Rio de Janeiro. Tentou a carreira como jogador de futebol e passou por clubes cariocas como Botafogo, Olaria e Vasco da Gama. Sem sucesso, pendurou as chuteiras ainda jovem, aos 25 anos. Fascinado pelo mundo das táticas, começou a jogar basquete. Estudou muito o esporte e chegou até a ser treinador. Na década de 1940, voltou ao futebol, para treinar nas categorias inferiores no Vasco, a convite do amigo Flávio Costa. Foi auxiliar-técnico dos profissionais no time de São Januário e no Botafogo, antes de chegar no América, em 1954, como treinador principal. O bom desempenho da equipe numa excursão em terras portuguesas no mesmo ano lhe rendeu um convite para treinar o Benfica, que ansiava por ser a maior potência do país na época.

“O caráter do Otto Glória como figura chave no futebol português é a forma como ele revoluciona completamente a história do Benfica”, explica o escritor português Miguel L. Pereira, autor de “Noites Europeias”. “Até os anos 50 o Benfica era o terceiro clube português atrás do Sporting - que na altura era o clube com mais êxitos e vinha de uma sequência histórica de quatro títulos - e está mais ou menos no nível do Porto”, afirma. “O que o Otto Glória faz ao chegar ao Benfica é revolucionar o futebol do Benfica por completo a vários níveis”.

O brasileiro fez em Portugal em 1954 o que Jorge Jesus faria ao chegar no Brasil 65 anos depois. Mudaria a mentalidade futebolística de todo um país, tanto dentro como fora de campo. “Essa inovação tática chega depois do futebol português ter sido um futebol muito apoiado na ideia húngara de jogo durante os anos 20, 30 e 40, mas que tinha ficado bastante estancada no tempo por falta de preparação física e porque os jogadores ainda - apesar de terem contratos profissionais alguns deles - tinham uma atitude semiamateur. Muitos deles tinham negócios próprios, viviam dos seus negócios, tinham acordos com os clubes que lhes arranjavam contratos em empresas às quais não iam necessariamente trabalhar, mas não tinham uma vida exclusiva dedicada para o futebol. Quando o Otto Glória chega ao Benfica isso muda; é o primeiro a impor o profissionalismo no Benfica. Ajuda a construir uma “Casa do Jogador” onde iam viver todos os jogadores que não tivessem família e onde os casados congregavam com a equipa em vésperas de jogos para fomentar o espírito do grupo. Isso é uma coisa que em Portugal não existia na altura”, aclara Miguel. “Foi o primeiro a estar a atendo à dieta dos futebolistas em Portugal. E foi também sobretudo o primeiro treinador do futebol português que olhou para o mercado africano. Na altura Portugal tinha o mercado colonial ainda bastante grande, com Angola, Moçambique e Guiné na África, e foi o primeiro treinador que entendeu o potencial físico e técnico dos jogadores africanos”.

Até hoje, ninguém ganhou mais títulos do que o carioca em Portugal: são seis Campeonatos Portugueses e seis Taças de Portugal. Otto foi também o primeiro e único a treinar os quatro grandes portugueses na época: Benfica, Porto, Sporting e Belenenses. E ele ainda fez história levando a seleção de Portugal às semifinais da Copa do Mundo de 1966, tendo batido o Brasil de Pelé na fase de grupos. Depois do feito, recebeu a Medalha de Prata da Ordem do Infante D. Henrique, distinção honorífica portuguesa pelos serviços prestados ao país.

Enquanto não parava de levantar troféus em Portugal, Otto teve uma breve passagem pelo Atlético de Madrid, em 1966, sem muito sucesso, e outra pelo Olympique de Marseille, que estava afundado na segunda divisão francesa, em 1962. Glória assumiu o comando da equipe no meio da temporada e a conduziu de volta à primeira divisão. “Durante muito tempo, quando o time estava mal, víamos cartazes em homenagem a Glória. Ele deixou uma memória inesquecível na cidade”, diz o site do gigante francês.

Passou a década de 1970 quase toda no Brasil. Conquistou o histórico Campeonato Paulista de 1973 com a Portuguesa e foi vice-campeão brasileiro de 1979 com o Vasco. Até hoje não é recordado como deveria no seu país. “Treinador quando vence é bestial e quando perde é uma besta”, costumava dizer. Em 1980, partiria para a aventura mais inusitada da sua carreira, após passar pelo Monterrey do México: assumiria a seleção da Nigéria, que iria sediar a CAN pela primeira vez. Tinha como objetivo conquistar o primeiro título de expressão da seleção. A expectativa era enorme. “Minha geração, conforme fomos ficando mais velhos e descobrimos o quão bem-sucedido Glória era antes de ele aceitar o emprego na Nigéria, ficamos chocados com o fato de termos conseguido um homem de sua estatura no futebol na época”, afirma Calvin ‘Emeka Onwuka, jornalista nigeriano.

Preocupado com todos os detalhes, Otto preparou o período prévio à competição minuciosamente: levou toda a delegação da Nigéria para o Brasil, onde passariam três meses treinando e absorvendo toda a informação que o velho treinador lhes passava. “O nível do futebol e a qualidade dos jogadores que vimos fizeram com que nos sentíssemos humilhados e nos fizeram trabalhar duplamente para alçar o nosso nível”, lembra Odegbami, que seria o artilheiro da CAN. “Eu percebi pela primeira vez o abismo que existia entre o futebol na América do Sul e o resto do mundo, especialmente na África. Tivemos a rara oportunidade de estudar os brasileiros de perto, de observar seus métodos de treinamento, de jogar contra muitos de seus times e de assistir a muitos de seus jogos do campeonato”, recorda o ex-atacante. “Muitos de nós que fomos ao Brasil voltamos à Nigéria como pessoas totalmente diferentes. O Brasil foi uma educação futebolística para mim”.

O resultado foi magnífico.

“A seleção que venceu a CAN em 1980 é sem dúvida a melhor equipe da história do futebol nigeriano", afirma o jornalista Segun Adenuga. “Ganhar aquela CAN é uma contribuição enorme para a herança futebolística da Nigéria e as pessoas da minha geração serão eternamente gratas a ele”, diz Onkuwa. “Foi nossa primeira CAN e por isso foi extremamente comemorada por todo o país”. “Sua façanha abriu um novo capítulo na história do futebol nigeriano e inspirou gerações de jogadores mais jovens a se destacarem nos campos”, disse recentemente o Ministro dos Esportes do país, Sunday Dare.

“Seguimos a dica de Otto Gloria e vamos para o bar”, recorda Odegbami ao se referir à véspera da final. “Bebemos só um copo de cerveja. Quando voltamos aos nossos quartos, já estou em outro mundo, transportado pela genialidade de Otto Glória. Pela primeira vez naquele dia, eu relaxo completamente”.

No dia seguinte, Segun Odegbami marca dois gols na final e a Nigéria bate a Argélia por 3 a 0 num estádio nacional de Lagos abarrotado, com quase 100.000 pessoas. Otto Glória morreria seis anos depois, no Rio de Janeiro, aos 69 anos. Décadas mais tarde, porém, o seu legado segue vivo por onde passou.

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