Ouça a música que o compositor da Bossa Nova Roberto Menescal fez para o Bondinho do Pão de Açúcar

Formada em serviço social, Anna Caroline Boyd, de 39 anos, tinha pânico de altura até ir trabalhar no bondinho do Pão de Açúcar. Primeiro, nas estações, recebendo público. Só que, há um ano, ela se tornou operadora no teleférico: a única mulher na função dentro de uma equipe de 40. Acabou virando atração entre os visitantes, por seu pioneirismo. Nos seus 110 anos, completados ontem, o teleférico — o segundo ponto turístico mais visitado do país, perdendo somente para o Cristo Redentor — passa por uma renovação, buscando maior diversidade nos seus quadros e público e também o máximo de sustentabilidade. Em 2022, conseguiu zerar suas emissões de carbono e ganhou uma nova marca, a de Parque Bondinho Pão de Açúcar, além do lema “felicidade lá em cima”. De presente, recebeu uma canção de Roberto Menescal, Cris Delanno e Alex Moreira, chamada “O bondinho” e com a cara da bossa nova.

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Diz um trecho: “Vamos seguir viagem/nesse caminho que não tem fim/Para olhar em volta/e ver o Rio tão lindo assim”. A música é um retrato da vida diária de Anna Caroline. Por dia, ela faz cem viagens subindo e descendo nas duas linhas. Além da paisagem de cartão-postal como cenário, o mais gratificante da profissão é conhecer o mundo pendurada no céu do Rio. Ela derramou lágrimas e muito suor para conquistar o posto de operadora. Nos testes e treinamentos, enfrentou idas e vindas até do lado de fora do bonde.

— Há três anos, participei de uma seleção no bondinho e passei a trabalhar recepcionando as pessoas nas estações. Eles queriam contratar uma mulher, mas no começo eu não sabia disso — recorda-se ela. — Tempos depois, tive a oportunidade de fazer o curso de operação do teleférico e consegui passar. A empresa mudou bastante, e hoje é muito mais inclusiva. Sou muito comunicativa, converso com todos e, para quem tem medo, conto a minha história. No bondinho, via não só uma oportunidade de emprego, como de superar um medo que me limitava.

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A atração carioca é inovadora desde sempre. Na sua criação, em 1912, o bondinho do Pão de Açúcar era visto como uma ideia louca. Mesmo na Europa os teleféricos eram coisa rara. Numa tarefa hercúlea, dezenas de alpinistas liderados pelo engenheiro Augusto Ramos, idealizador da ligação aérea, escalaram os morros para implantar guinchos manuais, que ajudariam a levar os sistemas de engrenagens. Equipamentos também foram carregados a pé.

Em 27 de outubro de 1912, o “camarote carril” (que lembrava os bondes das ruas), feito de madeira na Alemanha, deslizou pela primeira vez, entre a Praia Vermelha e o Morro da Urca. As tecnologias evoluíram de lá para cá. Em 1960, o bonde ganhou estrutura de metal. E, 12 anos depois, o design italiano exclusivo visto até hoje, que lembra uma bolha ou as formas de um diamante. Quatro operam simultaneamente nos 528 metros da Praia Vermelha ao Morro da Urca e nos 735 metros até o Pão de Açúcar, num total de seis minutos de viagem. Cada cabine comporta 65 pessoas.

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Mais de 50 milhões de pessoas já passaram por elas. Durante 57 anos funcionário da companhia, o engenheiro Giuseppe Pellegrini, hoje com 84 anos, lembra que até vacas nelore já subiram morro acima pelos cabos de aço.

— Há mais 30 anos, fizemos no Morro da Urca um leilão de vacas nelore. Subimos quatro vacas em gaiolas especiais embaixo do bonde — conta Pellegrini, cuja história se confunde com a do Pão de Açúcar.

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Em 1962, nos dos 50 anos do bondinho, ele, que já tinha como esporte a escalada, pediu para participar das festividades. A ideia de usar escaladores virou o ponto alto da comemoração, e o rapaz acabou convidado a trabalhar lá. Pellegrini é uma espécie de James Bond do bondinho da vida real — vale ressaltar que foi o responsável por dar todo o suporte à equipe de “007”, no filme de 1979 em que o ator Roger Moore aparece numa cena de luta sobre o bonde.

— Modestamente, escalei 3.500 vezes o Pão de Açúcar, uma quantidade recorde. Meu escritório ficava no Morro da Urca, mas eu escalava todo dia o Pão de Açúcar. Num dia, cheguei a escalar quatro vezes. E, mais de uma vez, levei nove minutos da base até o cume — revela ele, que já viveu experiências radicais no trabalho. — Num treinamento de resgate, desci de rapel do bonde cargueiro, entre a Praia Vermelha e o Morro da Urca, até o meio da Praça General Tibúrcio.

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O engenheiro, que chama o bondinho de indestrutível — é o mais antigo teleférico do mundo e sem registros de acidentes graves —, não escala mais, mas promete uma nova aventura: atravessar na tirolesa de 755 metros entre o Pão de Açúcar e o Morro da Urca, um trajeto que será feito em menos de 50 segundos a 100km/h.

— Vamos entregar em março do ano que vem a tirolesa. Não será a maior do mundo, nem a mais rápida, mas vai ser a mais linda. Imagina só descer o Morro da Urca descortinando o Rio? — empolga-se o CEO do Parque Bondinho do Pão de Açúcar, Sandro Fernandes.

Os morros da Urca e do Pão de Açúcar compõem um monumento natural municipal e integram conjunto tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Além disso, foram importantes para que o Rio ganhasse o título da Unesco de Patrimônio Mundial como paisagem cultural, em 2016. Neste mesmo ano, o bondinho adotou as trilhas da área, incluindo a do Morro da Urca, a mais visitada do Brasil.

— Cuidamos hoje de mais de 40 mil metros quadrados do monumento natural, incluindo a Pista Cláudio Coutinho e a trilha do Morro da Urca. Agrega muito valor mostrar para toda a sociedade que é possível interagir, sim, com a natureza preservando e educando — destaca Fernandes. — Ter uma marca e uma história de 110 anos no Brasil é para pouquíssimos!

Os festejos continuam. Hoje, tem show de Maria Rita no Morro da Urca (R$ 110), antigo palco do Noites Cariocas. Em novembro, será aberta a exposição Cápsula do Tempo, sobre a história do bondinho.