Outdoors críticos a Bolsonaro são depredados em Mogi das Cruzes

Louise Queiroga

RIO — Dois outdoors contendo críticas à forma como o presidente Jair Bolsonaro lida com a pandemia no país foram depredados em Mogi das Cruzes (SP) no início deste mês. Segundo o movimento Acredito, que é responsável pela instalação destes anúncios, ambos foram vandalizados em menos de 24 horas após o início da exibição.

A iniciativa de espalhar outdoors com críticas ao presidente por cidades de São Paulo e Minas Gerais foi tomada pelo grupo #ForaBolsonaro, parte do movimento Acredito, que se descreve como um "coletivo suprapartidário de renovação política". Em breve, a ação deve ser realizada também no Rio de Janeiro e no Ceará.

Um dos outdoors vandalizados foi posicionado a 15 metros de altura numa base de ferro. Aliás, de acordo com o Acredito, a empresa que o posicionou só aceitou veicular a peça se ela fosse colocada nestas circunstâncias, com o objetivo de não ser derrubada, justamente por já saber que a cidade é hostil às críticas ao governo. Além disso, pediu que o grupo assinasse um documento de responsabilização caso acontecesse alguma depredação.

"Eles já tinham feito uma campanha política antes em que tinha acontecido uma depredação", afirma o movimento em nota.

Em um comunicado publicado no Instagram, a organização lamentou e repudiou o episódio de vandalismo em Mogi das Cruzes.

"Sempre soubemos do risco que o Bolsonaro representa à democracia, mas durante esse projeto dos #OutdoorsContraBolsonaro ficou muito claro o quanto o autoritarismo já avançou: da mesma maneira que temos cientistas exilados não por ordem explícita do governo, mas por ameaças constantes vindas de uma massa radicalizada de apoiadores, temos uma grande dificuldade de veicular críticas e pressões ao governo federal fora das redes sociais", afirma a postagem.

As mensagens impressas nos outdoors trazem frases como "Cemitérios cheios, geladeiras vazias. Bolsonaro é culpado!" ou "Esse governo é uma zona, e ninguém aguenta mais", e ainda "Se tivesse vacina o comércio estaria aberto. Mas não teve".

Entre os dizeres em São Paulo, estão a atribuição da falta de vacinas à negação do presidente em comprá-las e à desorganização do governo federal, com o slogan “Jair, pede pra sair!”. Já em Minas Gerais, o grupo preferiu expor cobranças ao presidente do Senado Federal, mineiro, Rodrigo Pacheco, a instalar a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia.

O movimento informou que foi difícil encontrar empresas dispostas a aceitar exibir as críticas a Bolsonaro. Muitas alegaram, conforme disse o grupo num comunicado, temer "represália comercial".

"Há medo que depredem as estruturas, há donos de outdoor que já foram ameaçadas de morte por veicular outdoors similares", acrescenta o Acredito, citando as cidades Bauru, Marília, Campinas, Sorocaba, Osasco e Guarulhos como onde mais houve rejeição.

Representantes do movimento contataram 80 empresas no estado de São Paulo, mas tiveram retorno positivo em imprimir e veicular os anúncios de apenas três. Entre as justificativas dadas pelos profissionais, predominaram o medo de represálias físicas nos cartazes e até das empresas serem processadas pela veiculação dos anúncios. Uma delas, que tem o governo como cliente em outro estado, tinha receio da quebra de contrato.

Para o líder do Acredito em São Paulo, Marco Martins, os ataques que o governo federal tem feito a opositores usando como argumento a Lei de Segurança Nacional, a exemplo do Felipe Neto, é o que provoca esse clima de medo nas pessoas e a razão para muitos dos doadores da vaquinha não quiserem se identificar publicamente. Marco relatou que uma das empresas de outdoor disse que citar o presidente seria violento demais e negou.

“Violento é o medo que o Bolsonaro conseguiu instaurar no Brasil a ponto das pessoas terem medo de criticá-lo e sofrerem represálias”, afirmou ele.

Para arcar com as despesas das peças publicitárias, foi criada uma vaquinha online que conseguiu arrecadar R$ 50 mil.

Em São Paulo, uma semana de campanha foi capaz de arrecadar R$12.049 que se transformaram em 8 outdoors em 5 cidades do estado. Já em Minas Gerais, duas semanas de arrecadação moveram R$36.000 que se transformaram em 25 outdoors na região metropolitana.

Até o momento, foram instalados 33 anúncios, sendo oito em SP (nas cidades de Mogi das Cruzes, São Bernardo do Campo, Santo André, Diadema e São Vicente) e 25 em MG (Belo Horizonte, Contagem, Betim e Nova Lima).

A escolha pelo protesto via outdoors é vista pelo movimento Acredito como essencial para “furar a bolha” e atingir um público mais amplo, que não tem contato com o conteúdo crítico ao presidente via redes sociais. Dado o agravamento da pandemia e o colapso dos sistemas de saúde, o grupo também preferiu não organizar carreatas ou qualquer outro tipo de atividade presencial.

"O objetivo era que pudéssemos comunicar com as pessoas que estão fora da bolha antibolsonarista, que ainda tem dificuldade de associar a culpa do presidente Jair Bolsonaro ao momento da pandemia que estamos vivenciando", explica o grupo.