A outra

Uma amiga de infância do marido — aquela —, com quem ele ainda tem uma intimidade absurda. Uma colega do trabalho, com quem ele troca olhares em tom além do insuportável. Ou simplesmente aquela atriz que ele segue nas redes sociais sem sequer jamais ter assistido a uma única novela. Ela ficou pensando: quem seria “a outra” no seu casamento?

Afinal, todo relacionamento tem a “outra”, aquele fantasma que tira qualquer um do sério. Como seria bom se o parceiro viesse com ficha limpa, sem ex, sem vícios, sem manias ou fotos de viagens maravilhosas em que o futuro sorria para ele. Só que, para encontrar um cara assim, é preciso ter, no máximo, cinco anos de idade — e olha que uma amiga outro dia ficou passada, quando o filho de sete anos terminou o “namoro” com a coleguinha de turma porque ela era “muito pegajosa”. Ah, os homens.

Mas existem outras armadilhas: quantas vezes ela não se pegou assistindo à televisão sábado à noite ao lado do maridão, quando tudo o que queria era colocar um bom vestido vermelho decotado, um salto altíssimo e dançar até cair numa boate, como fazia quando tinha seus 22 anos?

Examinou-se, de moletom folgadão e cabelo preso, e viu que há muito tempo não dava aquelas boas risadas sem-vergonha. Virou finalmente uma esposa, um estereótipo que jurou que nunca se tornaria, que não sai do prumo nem hesita em murmurar “Piranha”, quando vê a cena do filme em que uma gostosa se atira para cima do ator. E o marido concorda, porque não é trouxa.

Enquanto prepara o almoço dos filhos, que, aliás, ama de paixão, pergunta à própria cabeça se eles não poderiam sumir de vez em quando, só para ela poder dar uma de louca e passar um dia inteiro na praia, besuntada de óleo até as unhas, terminando a tarde de glória encostada num boteco e atracada a um chope bem gelado.

Depois de um dia exaustivo de trabalho, vê-se numa fila de supermercado quilométrica, escutando o barulho insuportável do tilintar dos carrinhos. Esperando sua vez (que não chega nunca), não pensa nos preços absurdos dos mantimentos, mas em como gostaria de largar tudo e sair pelo mundo que nem uma cigana, vivendo de bico de cidade em cidade, arrumando um amor a cada porto. E se alguém se empolgasse em patrociná-la como influenciadora de viagens, desbravando paraísos, descobrindo lugares maravilhosos? Mas lembrou que suas redes sociais são de uma monotonia só, que há séculos não postava nem um pôr do sol, no qual nem presta mais atenção — que marca vai querer se engajar com aquilo.

Talvez seja tarde demais para certas liberdades: preocupada em não dar o mau exemplo em casa — abrir, digamos, precedentes —, ela ficou presa àquele papel insuportável policial de cada gesto, de cada palavra, de cada olhar. Enfim, por medo da traição, tentando afastar “a outra” que assombrava sua imaginação, até conseguiu evitar os cornos (pelo menos é o que acha), mas acabou mesmo foi se traindo.

Então ela se olha no espelho e depara com a terrível verdade: a verdadeira “outra”, que perigo, é ela mesma.

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