Do outro lado das filas da Caixa: bancários sofrem exaustão, temem se contaminar e recebem até ameaças

Letycia Cardoso e Patricia Valle
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Fila e aglomeração nas agências da Caixa: funcionários do banco relatam dificuldades em jornadas extensivas de trabalho

O pagamento do auxílio emergencial de R$ 600 pelo governo federal há dias tem feito milhares de pessoas dormirem em filas diante de agências da Caixa Econômica Federal para conseguir sacar o benefício. Mas quem está do outro lado da porta-giratória também tem seus limites testados todos os dias. Funcionários do banco relatam cansaço e medo por conta da jornada de até 14 horas diárias, da demora no recebimento de equipamentos de proteção individual (EPIs) e das ameaças de clientes.

O caixa Leonardo Lima, de 43 anos, conta que, inicialmente, o banco liberou verba para que as próprias agências comprassem máscaras e álcool em gel para os funcionários. Mas, como os itens estavam em falta no mercado, muitos colaboradores continuaram a trabalhar sem proteção. Segundo ele, apenas no início de abril a instituição financeira mandou entregar em cada agência os EPIs e, em seguida, instalar divisórias de acrílico nos caixas. O bancário ainda reclama da extensa jornada e do pouco tempo que os empregados têm para comer:

— Temos trabalhado cerca de 14 horas por dia e tirado apenas 15 minutos para almoçar, porque não tem quem supra aquele atendimento — disse Lima: — A Caixa já tinha um quadro insuficiente de funcionários. Agora, com vários afastados, é pior.

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Um gerente geral que não quis se identificar relatou estar exausto. Por ser o responsável por abrir e fechar a agência, ele chega às 6h30 e sai após as 20h. Isso porque, às 14h, todo trabalhador que está na fila recebe uma senha, e o expediente só acaba após o último atendimento.

— Não vejo mais meu filho acordado — desabafou o gerente: — Ainda tenho que participar de conferências no tempo de descanso para falar sobre as mudanças. Trabalho muito e, por ter um cargo de confiança, não recebo horas extras.

O diretor do Sindicato dos Bancários do Rio, José Ferreira, conta que, para evitar as longas jornadas, tentou negociar com o governo e a Federação Nacional de Bancos (Fenaban) para que o pagamento fosse distribuído entre instituições privadas e públicas, sem sucesso. Outra demanda era fechar agências para desinfecção caso um bancário fosse diagnosticadocom Covid-19:

— Isso tem sido feito. A equipe inteira entra em quarentena, e uma outra assume.

O EXTRA conversou com alguns profissionais que preferiram não se identificar para contarem a sua rotina. Veja abaixo:

— Tivemos um volume absurdo de cadastros. Várias pessoas que não tinham o direito se inscreveram para ver se conseguiriam receber na malandragem. Isso torna ainda mais lenta a análise feita pela Dataprev (empresa de processamento de dados do governo federal). Outro problema é que o cidadão, que precisa receber de verdade, é simples e não tem acesso à internet. Ou, então, não sabe como acompanhar o andamento da solicitação online. Aí vai todo mundo para a fila e sobra para o bancário, que está na linha de frente, explicar como funciona o aplicativo ou se a pessoa tem direito ou não. Apesar de eu estar em home office por integrar o grupo de risco, acompanho relatos dos colegas. Acho que o governo deveria ajudar mais: a prefeitura, controlando as filas do lado de fora das agências, e o governo, disseminando amplamente como acompanhar o pedido sem precisar sair de casa.

Quando começou essa operação, eu trabalhava das 9h às 16h, sem parar para comer nem para ir ao banheiro. E só piorou. Foram pedindo para chegar cada vez mais cedo. Agora, tenho que chegar às 7h para tentar reduzir a fila. Percebo que a maioria das pessoas não deveria estar lá, mas está porque não consegue usar o aplicativo ou não entende como utilizá-lo. Não acho que seja um problema de comunicação. É que as pessoas não acreditam, querem ir à agência e falar com alguém. Depois que eu explico, dizem: “Ah, bem que me falaram que era só isso”. E controlar essa fila de várias pessoas nervosas é muito complicado. E não é nossa função evitar essa aglomeração. A polícia quase nunca está no local para nos ajudar. Outro problema é juntarem a liberação do auxílio com outros pagamentos. Tenho atendido muitos casos de FGTS, por demissão. E, na maioria das vezes, não e preciso, porque se pode sacar até R$ 10 mil pelo aplicativo do FGTS, que não está com nenhum problema.

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Nós estamos em uma situação muito complicada, porque quem está na fila não entende que nós, bancários, não temos culpa de o cadastro não ter sido aprovado ou da lentidão na análise. Outro dia, em uma agência aqui do Rio, invadiram a sala de atendimento com um pedaço de madeira. Também já aconteceram agressões: vi um colega ser pego pela camisa porque não liberou um pagamento para uma pessoa que estava sem documento de identificação. Não podemos ser massacrados dessa forma. Também temos família e estamos fazendo nosso melhor para ajudar essas pessoas. Além disso, estamos com muito medo. Não sabemos se vamos pegar coronavírus hoje ou amanhã. Já perdemos colegas, e há alguns no hospital. Apesar de usarmos máscaras, a agência é um local fechado. A estafa mental é absurda.

Estamos trabalhando com um número reduzido de funcionários porque as pessoas do grupo de risco foram poupadas. Além disso, algumas pessoas ficaram doentes. Primeiro, fechavam a agência que teve algum caso de Covid-19. Agora, estão chamando os gerentes-gerais porque não ganhamos hora extra. A jornada de trabalho é exaustiva, às vezes de 12 horas. O normal era trabalharmos oito horas. Fazemos o nosso melhor, mas parece que ninguém vê isso. Chegamos a atender mil pessoas por dia na agência. Além disso, trabalhamos com medo do vírus e da violência. Graças a Deus não aconteceu comigo, mas soube de relatos de pessoas sendo ameaçadas na fila, casos de clientes dizendo que tinham facas. Espero que, para o pagamento da segunda parcela do auxílio, as pessoas tenham entendido que não é preciso ir à agência.

 

Os funcionários da Caixa esperam que o pior já tenha passado, e que os próximos pagamentos sejam mais tranquilos. O banco prometeu espaçar mais as datas de recebimento no próximo calendário, que ainda não foi divulgado. No entanto, para os bancários, é preciso que todos colaborem, desde os clientes, entendendo melhor o que é preciso ser feito, até as autoridades, atuando para dar segurança a eles no dia a dia do trabalho.

Em nota, a Polícia Militar do Rio afirmou que tem realizado policiamento ostensivo com ações para conscientizar a população sobre as normas para conter o avanço do novo coronavírus, e que os oficiais estão instruídos a usar o diálogo.

 

A Prefeitura do Rio informou que os bancos têm protocolos de segurança próprios que devem ser acionados no controle das filas e do atendimento, e que não pode legislar sobre a questão. Disse ainda que determinou a interdição de dez vias urbanas, após um entendimento com a direção da Caixa. Os bloqueios de trânsito estarão em vigor até 16 de maio, das 6h às 16h.

A Caixa afirmou que abasteceu as agências com 646 mil litros de álcool em gel, 761 mil máscaras de proteção e cerca de 15 mil protetores faciais e informou que está reforçando o atendimento com mais três mil funcionários, além de alocar 4.800 vigilantes e cerca de 900 recepcionistas para organizar as filas.

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