Pão com linguiça e picanha: ato antidemocrático em Brasília é apoiado por fazendeiro e doadores de campanha de Bolsonaro

Em uma tenda de aproximadamente 30 metros quadrados montada na frente do Quartel-General do Exército, em Brasília, a apenas nove quilômetros de distância do Palácio do Planalto, uma churrasqueira exalava fumaça para assar linguiça e picanha dispostas em grelhas na terça-feira passada. Pessoas vestidas com as cores da bandeira do Brasil organizavam o preparo das carnes. Duas delas eram responsáveis pelo preparo e a entrega de pães recheados com as carnes aos manifestantes que se aglomeravam em filas. Aos que se aproximavam perguntando o valor da refeição, a resposta era a mesma: "É tudo de graça". Além de quatro refeições diárias, os manifestantes, que há dez dias se concentram no local, contam ainda com a distribuição de água à vontade, banheiros químicos, um trio elétrico e um carro de som onde organizadores se revezam em discursos. Esse tipo de estrutura está na mira do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Ministério Público, que investigam se há financiadores por trás desse e de outros acampamentos em outros estados no país.

O ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou no início da semana que as polícias Civil, Militar e a Rodoviária Federal encaminhem à Corte informações sobre a identificação de todos os veículos que participaram de manifestações em frente aos quartéis das Forças Armadas e de líderes, organizadores ou financiadores dos "atos antidemocráticos". Após reunião com Moraes, o procurador-geral de Justiça de São Paulo, Márcio Sarrubo, apontou indícios de “uma grande organização criminosa” por trás dos movimentos antidemocráticos.

— Na nossa visão há uma grande organização criminosa, com funções definidas, tem várias mensagens com números de Pix para que as pessoas possam abastecer financeiramente, e nós temos que definir quem está alimentando. Tudo isso está sendo objeto de investigação para derrubarmos essa organização criminosa — afirmou Sarrubo.

No caso da concentração em Brasília, manifestantes ouvidos pelo GLOBO apontaram um empresário ligado ao agronegócio como um dos responsáveis pelo fornecimento de alimentação. Em uma das tendas onde eram servidas picanha e linguiça, uma pessoa afirmou que a carne havia sido distribuída pela fazenda Toca da Raposa, localizada em Planaltina (DF) e que produz gado, soja e outros produtos agropecuários. Enquanto manuseava as grelhas, o churrasqueiro confirmou que um boi da fazenda havia sido abatido no dia anterior para alimentar as pessoas que estavam ali concentradas.

O dono da propriedade é Mário Zinato Santos. Ao GLOBO, ele confirmou que a carne foi levada ao acampamento por um gerente de sua fazenda, mas, na sua versão, não foi por ordem sua porque seus funcionários são "independentes". O empresário disse ter participado do ato no dia 2 de novembro, o primeiro dia de protestos, e que iria mais vezes nesta semana com a família.

— Ele (gerente de sua fazenda) que pegou um pedaço (de carne) para levar para lá (manifestação) porque as minhas filhas e meu genro iam e falaram que ia ter churrasquinho. Aí ele levou — afirmou Zinato, que é apoiador de Bolsonaro e participou de outros atos em favor do presidente, como o de 7 de Setembro.

O apoio do agronegócio ao ato também fica evidenciado na presença de caminhões estacionados em uma das avenidas próximas ao quartel-general em Brasília. No início desta semana, eram cerca de 120 veículos. Um deles levava o adesivo da Dimiagro, empresa do ramo de fertilizantes, que também estampava uma das tendas onde havia fornecimento de comida aos manifestantes. A reportagem entrou em contato com a firma e com o sócio da empresa, Gregori Bolignon Vieira, mas não houve resposta.

Outras cinco carretas enfileiradas estampavam o logotipo do grupo agrícola Denardin, do oeste da Bahia. A proprietária da empresa, Erci Denardin, disse que enviou os caminhões a Brasília “para fazer parte do movimento”.