Pérsio diz que inclusão social exige também solução de longo prazo via educação de qualidade

Um dos quatro nomes designados para o grupo responsável pela área econômica na equipe de transição do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, o economista Pérsio Arida, um dos pais do Plano Real, afirmou nesta quarta-feira que a previsibilidade será um dos pilares do novo governo.

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Ao participar de um webinar na Câmara de Comércio França-Brasil, e deixando claro que não falava pelo governo – e, por isso não trataria de temas como política fiscal de longo prazo, membros da equipe econômica e Orçamento para 2023 – Arida disse que é preciso voltar a máquina pública para a população.

Ele defende reformas que tragam mais eficiência para o Estado, com digitalização. E disse que o país gasta com programas sociais, mas nem sempre sabe se eles estão dando certo. Afirmou que a agenda da inclusão social, que vem ganhando destaque, depende de uma educação pública de qualidade - e que essa mudança leva tempo e a sociedade precisa ter paciência.

- De forma emergencial, respondemos a essa necessidade de dar condições de vida mais decentes com os auxílios dados, mas eles foram desfocados, indo para quem não precisa. Mas a solução de longo prazo não é assistencial, é a educação pública. Por isso, eu apelo para a paciência da sociedade. A melhor forma de inclusão é fazer avanços na educação pública. Temos que criar as mesmas condições de acesso a todos. Os resultados dependem da capacidade, da dedicação de cada indivíduo, mas as condições de partida têm que ser iguais - afirmou.

Reforma tributária

O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva tem repetido que seu governo terá "credibilidade, previsibilidade e estabilidade", e Arida destacou o peso que tem a fala de um governante no sistema presidencialista. Ele lembrou que o país viu “desastradamente” o que aconteceu no governo do presidente Jair Bolsonaro e que espera que agora "isso (ou seja, a posição do governante) seja positivo".

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Disse que existe um amadurecimento para assegurar um quadro institucional mais previsível. E afirmou que tem esperança de que o Brasil saia do “atoleiro” do baixo crescimento e sejam criadas as bases para uma expansão sustentável da economia.

- É natural que haja ansiedade diante de coisas que aconteceram no Brasil nos últimos anos, como o confisco da poupança (no governo do presidente Fernando Collor). Mas fazer uma política econômica que seja previsível é um dos pilares do governo (eleito) - declarou Arida.

No campo tributário, Arida defendeu que a reforma que prevê o Imposto sobre Valor Agregado (IVA), com a unificação de impostos federais, pode avançar porque é um tema cuja discussão está mais amadurecida. Ele repetiu as palavras de Geraldo Alckmin, vice-presidente eleito, de que a reforma tributária deverá ser uma prioridade desse governo.

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Redução de encargos

Ele disse que o IVA trará mais produtividade para a economia e observou que a reindustrialização brasileira passa por uma estrutura tributária mais eficiente. Mas lembrou que o prazo para a transição para o IVA é de dez anos, segundo as propostas que estão no Congresso. Ele disse que a reforma do IVA não avançou no atual governo porque o ministro da Economia Paulo Guedes não gosta do projeto de reforma tributária que foi apresentado ao Congresso.

- Mas esse tema (reforma tributária) é amplo. A taxação da riqueza, outro aspecto da reforma que reduz a desigualdade social, está longe de ter algum acordo no Brasil. E temos a redução dos encargos da folha de pagamento para gerar emprego - disse Arida.

De acordo com as ideias liberais que sempre defendeu, Arida observou que o país precisa se abrir mais ao comércio internacional. Ele acredita que com isso - e uma reforma do IVA - o país terá ganhos de produtividade e atrairá mais capital internacional.

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- O que não podemos é ter um PIB potencial de 1,5%. Isso é uma tragédia e está longe do que ambicionamos. Se o PIB potencial será de 3,5% ou 4% com essas reformas (IVA e abertura comercial) não sei, mas hoje estamos claramente crescendo aquém do que podemos - afirmou.

BC independente

Arida disse não ver possibilidade de retrocesso na independência do Banco Central (que já existia de fato, mas ainda não estava juridicamente sacramentada). Ele defendeu o recente trabalho do BC no combate à inflação, com o aumento de juros, e também promovendo mais competição no sistema financeiro, com novidades como o PIX e Open Banking.

- O BC brasileiro saiu na frente no combate à inflação e isso é uma virtude. Mas a queda de juros que o mercado espera no próximo ano depende de uma política fiscal responsável e da trajetória de juros nos EUA - afirmou.