PMs presos por morte de jovem escreveram: "Tem que aparecer, de preferência, vivo"

PMs foram presos após morte de jovem - Foto: Getty Images
PMs foram presos após morte de jovem - Foto: Getty Images
  • PMs foram presos por envolvimento na morte do jovem Gabriel em abordagem policial

  • Mensagens recuperadas pelo MP mostram um grupo em que os agentes conversaram sobre o caso

  • Os policiais mostram apreensão, mas fazem piada sobre o caso

Presos por envolvimento na morte do jovem Gabriel Marques Cavalheiro, de apenas 18 anos, após abordagem em São Gabriel, Rio Grande do Sul, três policiais militares trocaram mensagens sobre o desaparecimento do rapaz.

O conteúdo foi exibido pela RBS TV e mostra os agentes preocupados com as buscas pelo corpo, ainda que brincando sobre o desaparecimento.

Parte das mensagens foi apagada do grupo em que os policiais conversavam, mas o Ministério Público conseguiu recuperá-la. Os textos traçam uma linha do tempo do episódio desde o desaparecimento de Gabriel, em 12 de agosto, até a localização do corpo, uma semana depois.

Tudo começou quando o soldado Cléber Renato Ramos de Lima enviou o link de uma matéria sobre o sumiço do rapaz no grupo. Um dos integrantes chega a dizer que "a culpa é do gordinho, com a barriga cheia de bauru", referindo-se a outro policial que estava na viatura, o soldado Raul Veras Pedroso.

De acordo com os relatos, foi Raul o responsável por algemar, dar tapas e desferir três golpes de cassetete na cabeça de Gabriel na abordagem do dia 12.

Os agentes admitem que não sabem se o jovem está vivo ou morto. Passados os dias, Pedroso afirma que a vítima "tem que aparecer, de preferência, viva".

O tom de preocupação vai crescendo a cada dia, até que, no dia 19, as últimas mensagens do grupo sobre o caso acontecem momentos antes da localização do corpo.

Entenda o caso

Três policiais foram presos na noite do último dia 19 por envolvimento na morte de Gabriel. A prisão temporária foi expedida por decisão da juíza Viviane de Freitas Pereira, da Auditoria Militar de Santa Maria, na Região Central do estado.

A vítima desapareceu na noite de sexta-feira (12) quando estava na casa de um tio em São Gabriel, município que fica a 300 km de distância da capital gaúcha.

O tio do rapaz contou à polícia que foi dormir e só se deu conta do sumiço do sobrinho no dia seguinte, quando acionou os pais dele, que moram em Guaíba, na região metropolitana de Porto Alegre (RS). A família de Gabriel fez um boletim de ocorrência e passou a procurá-lo.

Uma vizinha da casa do tio prestou depoimento para a polícia contando que Gabriel esteve em sua casa na noite de sexta, gritando o seu nome e balançando o portão. Paula Beatriz Lima da Silva alegou que não conhecia Gabriel, se assustou por estar tarde da noite e, por isso, chamou a Brigada Militar.

Em entrevista para a RBS TV, ela afirmou que ligou para a BM para que eles retirassem o garoto dali, mas que passou a filmar os agentes pela maneira como eles agiam com Gabriel, que foi imobilizado e algemado.

As fotos e imagens feitas por Silva mostram que três policiais conduziram Gabriel até a viatura. Os agentes envolvidos na ação dizem que levaram o rapaz em direção a uma região conhecida como Lava Pés, que fica a 6 km de onde aconteceu a abordagem. Eles teriam então tirado as algemas do rapaz, que teria dito que pediria carona até um chalé nesta estrada vicinal

Entretanto, a família de Gabriel refuta essa afirmação e diz que ele não conhecia a região por não morar no município.

Além disso, de acordo com a advogada da família, a câmera de segurança de uma escola e o trajeto apontado pelo GPS do carro da polícia indicam que a viatura seguiu por uma estrada de chão às 0h05, retornando em torno de 0h12. No entanto, a qualidade das imagens registradas impossibilita identificar quem estava dentro do automóvel.