País ganha banco genético privado com foco na diversidade da população

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 06.09.2022 - Retrato da geneticista Lygia da Veiga Pereira, pesquisadora da USP e coordenadora do laboratório da gen-t, uma startup que estão montando o primeiro banco de genoma humano do país. (Foto: Karime Xavier/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 06.09.2022 - Retrato da geneticista Lygia da Veiga Pereira, pesquisadora da USP e coordenadora do laboratório da gen-t, uma startup que estão montando o primeiro banco de genoma humano do país. (Foto: Karime Xavier/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O pontapé inicial para a criação do primeiro banco genético privado com foco na diversidade brasileira foi dado nesta segunda (12), com o anúncio da construção da maior plataforma de dados de saúde e genômica do país, que tem a meta de reunir informações de 200 mil pessoas.

O projeto nasce com a ambição de diversificar o perfil dos bancos genômicos do mundo. Hoje, cerca de 80% desses dados são de populações brancas da Europa e dos Estados Unidos.

Com isso, as pesquisas sobre riscos genéticos para doenças diversas são realizadas basicamente com pessoas de ancestralidade europeia, e os resultados, quando aplicados a outras populações (multiétnicas e miscigenadas, por exemplo), não são tão precisos.

Esse é um ponto crucial para a chamada medicina de precisão, que alia dados já usados para diagnóstico e tratamento (sinais, sintomas, exames, história pessoal/familiar) ao perfil genético da pessoa. No Brasil, porém, ela ainda é para poucos. No câncer, por exemplo, a estimativa é que apenas 10% dos pacientes sejam tratados com as novas técnicas e medicamentos.

"A comunidade científica se deu conta de que ela estava desenvolvendo uma medicina de precisão só com pessoas brancas. É natural porque são esses países mais ricos, de populações brancas, que estão investindo nas pesquisas, mas isso não é mais aceitável", explica Lygia da Veiga Pereira, professora e pesquisadora da USP e CEO da biotech gen-t, responsável pelo biobanco.

Segundo ela, a ideia é que, no futuro, a plataforma de pesquisa ajude no desenvolvimento de medicamentos e testes diagnósticos mais precisos para a população brasileira.

A startup recebeu um investimento inicial de cerca de R$ 10 milhões e conta com investidores de peso, como Eduardo Mufarej, fundador do RenovaBR, Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, Daniel Gold, investidor americano especializado em biotecnologia, a farmatech norte-americana Roivant Sciences, entre outros.

Além de tentar mudar esse cenário de desigualdade étnica nos estudos, uma plataforma com dados genômicos de populações não caucasianas também aumenta a possibilidade de descobertas inéditas no campo da inovação. "Trata-se de um território pouco explorado", diz Pereira.

O Brasil deu um passo importante nessa direção em 2020, quando foi lançado o projeto Genomas Brasil (Programa Nacional de Genômica e Saúde de Precisão), coordenado pelo Ministério da Saúde. Entre outros objetivos, o projeto prevê o sequenciamento de genes de portadores de doenças raras, cardíacas, infectocontagiosas, câncer entre outras, recrutados diretamente pelos serviços da rede pública.

Lygia Pereira, que participa do braço populacional do programa, diz que a partir dessa experiência enxergou a possibilidade de criar uma empresa para montar uma plataforma de dados genômicos e de saúde da população, mas agora de pessoas atendidas por sistemas populares privados de saúde.

"É onde vamos encontrar a nossa diversidade. Se eu for para os hospitais tops eu só vou incluir mais DNA branco na nossa amostra."

Para a empreitada como empreendedora, Pereira abdicou do regime de dedicação exclusiva que tinha na USP e optou pelo tempo parcial. O projeto já tem aval dos comitês de ética em pesquisa.

A startup fez parceria com a rede de clínicas populares Dr. Consulta no recrutamento de pacientes. Para fazer parte da pesquisa, é necessário ter mais de 45 anos, concordar com o termo de consentimento, permitir o acesso ao seu histórico clínico, disponível nos prontuários eletrônicos da rede.

Os pacientes recrutados também responderão a questionários sobre sua saúde, histórico de doenças e estilo de vida, farão uma série de exames laboratoriais e doarão dois tubos de sangue ao biobanco para sequenciamento do DNA e armazenamento do plasma para futuras pesquisas.

Em troca, os participantes receberão os resultados dos exames e orientações sobre riscos aumentados para doenças e eventuais medidas de prevenção. "A ideia é abrir um canal com essas pessoas e ir alimentando a nossa plataforma, saber o que acontecerá com a saúde delas ao longo dos anos."

Segundo a pesquisadora, as coletas já foram iniciadas em quatro clínicas na região metropolitana de São Paulo e a expectativa é chegar a 20 mil participantes até fevereiro de 2023 e a 200 mil em cinco anos. A ampliação para mais localidades do Brasil depende de novas parcerias com outras empresas de saúde.

E o que a startup ganhará com isso? A curto prazo, a proposta é colaborar na aceleração de inovação da indústria a partir de respostas que serão buscadas no biobanco.

Por exemplo, se o cliente estiver interessado em dados sobre fibrose pulmonar, os pesquisadores podem direcionar o recrutamento de pacientes com esse perfil de paciente e fornecer as respostas que a indústria necessita. Há três empresas interessadas na contratação de projetos-pilotos.

A médio prazo, a ideia é desenvolver linhas de pesquisa próprias que leve ao desenvolvimento de novos produtos. "É uma empresa, com fins lucrativos, porém, o lucro será consequência de uma coisa bacana que vem antes. Não é vender ketchup, vai ter impacto, gerar inovação, novas descobertas para o país", diz a pesquisadora.