País mais influente no Haiti, EUA chamam assassinato do presidente de 'crime horrível'

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O assassinato do presidente do Haiti, Jovenel Moïse, na madrugada desta quarta-feira foi recebido com choque e preocupação ao redor do mundo, diante do cenário de crise social e política no país caribenho. O governo do Brasil, que entre 2004 e 2017 chefiou a missão de intervenção da ONU no Haiti, ainda não se pronunciou.

Representante da potência mais influente no Haiti, o presidente dos EUA, Joe Biden, ofereceu condolências aos haitianos e se colocou à disposição para trabalhar por um país mais seguro. O presidente declarou ainda que a situação é "muito preocupante" e que são necessárias mais informações sobre a morte de Moïse.

"Ficamos chocados e entristecidos ao ouvir do horrível assassinato do presidente Jovenel Moïse e o ataque contra a primeira-dama Martine Moïse do Haiti. Condenamos este ato horrendo e envio meus votos mais sinceros pela recuperação da primeira-dama", diz o texto divulgado pela Casa Branca.

Mais cedo, a secretária de Imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, chamou o episódio de um “crime horrível”, e indicou que o crime pegou o governo americano de surpresa.

— É um crime horrível, e nós sentimos pela perda que todos estão sofrendo e vivenciando quando acordam de manhã e ouvem as notícias. Estamos prontos para oferecer qualquer tipo de assistência necessária — afirmou Psaki à CNN. — Ainda estamos juntando os detalhes e, claro, a embaixada [em Porto Príncipe] e o Departamento de Estado estarão em contato.

A embaixada americana em Porto Príncipe anunciou, ainda pela manhã, que passaria a restringir o acesso ao prédio, permitindo a entrada apenas de funcionários, e que suspenderia todos os serviços consulares até segunda ordem. “Por favor evitem viagens desnecessárias até esta área neste momento”, diz o alerta.

Considerados o "coração da política haitiana" por analistas e lar de mais de um milhão de imigrantes vindos do país caribenho — e que compunham um poderoso lobby de oposição a Moïse em Washington — os EUA são vistos como cruciais na resolução da atual crise política e social no país, que ocuparam militarmente entre 1915 e 1943.

Apesar de ter apoiado inicialmente o governo de Moïse, a Casa Branca via com preocupação as recentes ações do presidente, e passou a se opor à realização de um referendo constitucional, como queria o chefe de Estado assassinado. Ao mesmo tempo, defendia a realização de eleições legislativas e presidenciais ainda este ano, mesmo reconhecendo que o caminho até as urnas não seria simples ou estável. Resta saber se, com a morte de Moïse, haverá mudanças de curso na política do governo Biden.

Antiga potência colonial no Haiti, onde uma revolta de escravos levou à independência em 1804, a França chamou o incidente de "assassinato covarde" e pediu calma aos haitianos. "Toda luz precisa ser posta sobre este crime que ocorreu em meio a um clima de deterioração política e de segurança. Peço que todos atores da vida política haitiana mantenham a calma e restrinjam suas ações", declarou o primeiro-ministro, Jean-Yves Le Drian, em comunicado.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, através de seu porta-voz, pediu calma e defendeu que os responsáveis sejam punidos.

— O secretário-geral pede que todos haitianos mantenham a ordem constitucional, permaneçam unidos diante deste ato abominável e rejeitem a violência. As Nações UNidas continuarão ao lado do governo e do povo do Haiti — declarou Stephane Dujarric.

O Conselho de Segurança da ONU, através do embaixador francês, Nicolas de Rivière, se disse "profundamente consternado" com o assassinato, e diplomatas sinalizam que uma reunião de emergência poderia ser organizada já na quinta-feira. Após o fim da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), em 2019, a ONU reduziu sua presença no país, e hoje só mantém uma representação de apoio político, responsável por "assessorar" e "apoiar" as autoridades para fortalecer a estabilidade e a governabilidade.

Na América Latina, a reação mais imediata e contundente veio da República Dominicana, país que divide com o Haiti a Ilha de São Domingos: todas as fronteiras terrestres foram fechadas, e o presidente, Luis Abinador, convocou uma reunião de urgência dos comandos militares para analisar a situação. Cerca de meio milhão de haitianos vivem na República Dominicana, em uma relação marcada por relatos de violência e discriminação.

Em março, o presidente Abinador chegou a anunciar planos para construir um muro ao longo dos quase 400 km de fronteira, uma ação que foi criticada por analistas na época e comparada ao muro proposto pelo ex-presidente dos EUA, Donald Trump, na divisa com o México.

Já a Colômbia defendeu o envio urgente de uma missão da Organização dos Estados Americanos (OEA) ao Haiti para, nas palavras do presidente Iván Duque, “proteger a ordem democrática”.

“Nós rechaçamos o vil assassinato do presidente do Haiti, Jovenel Moïse. É um ato covarde e cheio de barbárie contra todo povo haitiano. Nossa solidariedade com a nação irmã e a família de um grande amigo da Colômbia”, escreveu Duque, no Twitter.

Em comunicado, a OEA diz que "assassinatos políticos não têm lugar na democracia", mas não faz comentários sobre o pedido de uma missão ao Haiti, como sugeriu a Colômbia.

"Nós condenamos nos mais fortes termos este ato criminal ocorrido esta manhã, o assassinato do presidente Jovenel Moïse. Esse ataque é uma afronta a toda comunidade de nações democráticas representadas na OEA. Deploramos a tentativa de minar a estabilidade institucional do país de forma veemente" diz o texto. "Pedomos o fim desta política irresponsável que coloca em risco os ganhos democráticos e o futuro do país."

Na mesma linha, o governo do México expressou suas condolências ao povo haitiano e condenou a violência no país.

— Primeiro quero enviar um abraço ao povo do Haiti pelo lamentável assassinato do presidente do país, algo que lamentamos muito — declarou o presidente Andrés Manuel Lopez Obrador, em coletiva de imprensa. Antes, o chanceler, Marcelo Ebrard, também enviou condolências aos haitianos através do Twitter.

A chancelaria da Argentina, em declaração nas redes sociais, rejeitou o uso de violência no contexto político.

"A Argentina espera que a paz e a tranquilidade possam ser retomadas no país e pede o respeito às instituições democráticas. O governo pede que os autores do crime possam ser rapidamente identificados para que possam ser responsabilidzados por suas ações", diz o texto.

No Twitter, o presidente da Bolívia, Luis Arce, também condenou o assassinato.

"Lamentamos profundamente o assassinato do presidente da república irmã do Haiti, Jovenel Moïse, e sua esposa, Martine Marie Étienne Joseph [ela está internada, segundo informações do governo haitiano]. Condenamos os atos de violência que devem ser esclarecidos. Nossas condolências ao povo haitiano", disse o líder boliviano.

Ainda na Europa, o premier britânico, Boris Johnson, chamou o incidente de “ato odioso”. “Estou chocado e entristecido com a morte do presidente Moïse. Nossas condolências estão com sua família e o povo do Haiti. Esse é um ato abominável e eu faço um pedido de calma neste momento”, escreveu no Twitter.

O premier espanhol, Pedro Sánchez, pediu, no Twitter, a “união de todas as forças políticas para encontrar um caminho para sair da séria crise vivida pelo país”, além de condenar “vigorosamente” o assassinato e expressou “condolências à família e solidariedade ao povo haitiano”.

O chefe da diplomacia da União Europeia, Josep Borrell, disse se sentir "comovido" com o assassinato de Moïse, com quem conversou há menos de um mês. "Este crime representa um risco de instabilidade e uma espiral de violência. Os autores deste assassinato devem ser levados à Justiça", escreveu no Twitter.

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