País tem recorde de mortes no início da semana de reaberturas em Rio e São Paulo: 'Não é hora de afrouxar', diz epidemiologista

Rafael Garcia
Reabertura do Rio teve BRT cheio

RIO - No dia em que as mortes por Covid-19 no Brasil ultrapassaram a marca das 30 mil, especialistas se dizem consternados por testemunhar um cenário de reabertura descontrolada no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Com a notificação de 1.262 mortes em um único dia, um recorde, o Ministério da Saúde informou que o novo coronavírus matou até agora 31.199 pessoas. No mesmo dia foram notificados 28.936 casos da doença. Até agora já são mais de 555.383 ocorrências.

O número põe em xeque alegações de que o país estaria chegando a um pico ou patamar estável na epidemia, justificando relaxar medidas de isolamento.

— Quem tem pressa come cru. Ainda não está na hora de afrouxar — afirma o epidemiologista Alexandre Kalache, do Centro Internacional da Longevidade. — Isso vai prolongar a agonia. Essa pandemia, que poderia estar muito mais sob controle a esta altura, vai ficar se estendendo, o que terá um preço econômico muito alto na frente.

Quando se avaliam médias semanais de morte (que eliminam a flutuação natural do fim de semana) o Brasil é, ao lado da Índia, o país com crescimento mais intenso. A Índia, porém, está registrando em média 7 mil casos de Covid-19 por dia, enquanto o Brasil está na faixa dos 20 mil.

Rio e São Paulo

São Paulo é onde os dados sobre mortes apontam tendência mais preocupante no país, atingindo uma média semanal agora de 225 óbitos diários. No Rio, a tendência parece esboçar uma estabilização em torno de 190 óbitos diários, até caindo um pouco. Por ser uma marca muito recente, porém, com menos de uma semana, especialistas vêm com ceticismo a possibilidade de pico no estado.

E ainda que dados de morte permitam ver um cenário menos pessimista, nos dados de casos registrados, Rio e São Paulo mostram tendência de alta. Desde o dia 27 de maio a média semanal só cresce, e chegou a mais de 4.600 casos por dia em São Paulo. No Rio, são 2.400.

O cenário é grave na média nacional também, e levou infectologistas a criticar medidas de reabertura, já abrindo algumas áreas de lazer e comércio logo na primeira etapa do plano.

— Achei arriscado a gente abrir tantas frentes ao mesmo tempo — diz Tânia Vergara, presidente da Sociedade de Infectologia do Estado do Rio de Janeiro. — Vamos ver daqui a 15 dias o que vai acontecer por causa disso.

Na opinião da médica, era previsível que o Rio seria uma cidade difícil de implementar um plano controlado de reabertura que depende de tantas categorias e monitoramento.

— A gente já esperava que não conseguiriam fiscalizar isso tudo. Outros países que tentaram reabrir dessa forma contaram com uma disciplina maior do povo — afirma.

Outros estados onde a epidemia ainda tem bastante impulso, como Ceará, já tem planos de reabertura.

Vazio de liderança

Na opinião de Mauro Schechter, professor de infectologia na UFRJ, a maneira descoordenada com que estados parecem planejar a retomada de suas atividades econômicas é reflexo de falta de lideranças.

— A pandemia aqui no Brasil é uma situação surreal — diz o médico. — Há três ou quatro meses, ninguém imaginaria que nós estaríamos vivendo uma pandemia dessa dimensão num país em que as decisões estão sendo tomadas sem que a gente tenha uma liderança nacional, sem a gente ter um ministro da Saúde.

O Brasil tem o segundo maior número de casos de Covd-19 do mundo, atrás dos EUA, que registram 1.831.435 de casos. No ranking de mortes, o Brasil está em quarto, atrás de Itália (33.530), Reino Unido (39.452) e EUA (106.180).