Após corte russo, UE recomenda que países europeus reduzam consumo do gás em 15%

A Comissão Europeia, órgão Executivo da União Europeia, pediu nesta quarta-feira aos países do bloco que reduzam seu consumo de gás em 15% nos próximos oito meses para compensar a queda na oferta russa do combustível, e quer que os cortes sejam obrigatórios em caso de emergência.

O plano divulgado pela Comissão Europeia, que será debatido pelos 27 países-membros, estabelece que cada país deve "fazer todo o possível" para reduzir seu consumo nacional de gás em pelo menos 15% entre agosto de 2022 e março de 2023, o que incluiria todo o próximo inverno europeu. Nesta época, o consumo do combustível tradicionalmente aumenta porque é usado para o aquecimento das casas.

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A Comissão também propôs um mecanismo que estabelece "metas vinculantes de redução da demanda" para os 27 países em caso de "risco substancial de desabastecimento".

— A Rússia está nos chantageando, usando o gás como arma — disse a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, apresentando o plano de Bruxelas. — E, se houver uma grande redução ou mesmo uma interrupção completa no fornecimento de gás (russo), a Europa terá que estar preparada.

Se os países do bloco concordarem em adotar o plano e a nova lei que o acompanha, isso solidificará a sensação de que a economia da Europa está em pé de guerra devido à invasão russa da Ucrânia. A proposta concederia à Comissão Europeia poderes para forçar os países-membros a seguirem um plano rígido de cortes no consumo de energia a partir deste verão.

A opinião pública dos países europeus está dividida sobre se vale a pena o sacrifício de apoiar a Ucrânia, com algumas pessoas dizendo que estão prontas para pagar um preço mais alto para manter a resistência à Rússia, enquanto outras afirmam que a guerra os prejudicaria mais do que estão dispostos a aceitar.

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Os europeus, especialmente aqueles que vivem nas regiões mais ricas do bloco, nos países do Norte e Oeste, estão entre as populações mais afluentes do mundo, e não estão acostumados a enfrentar dificuldades como ter casas frias durante o inverno.

Ainda assim, a fadiga europeia com a guerra pode ser superestimada. Uma pesquisa na Alemanha na semana passada descobriu que apenas 22% queriam que seu governo reduzisse o apoio à Ucrânia com o objetivo de reduzir os preços da energia; 70% dos entrevistados disseram que queriam que o governo alemão continuasse apoiando fortemente a Ucrânia, apesar das consequências econômicas.

A Comissão Europeia precisa do apoio dos governos nacionais para avançar com o plano, e os ministros de energia do bloco devem se reunir em Bruxelas na próxima terça-feira para debater e aprimorar as medidas.

— Sei que este é um grande pedido para toda a União Europeia, mas é necessário para nos proteger — disse von der Leyen.

Rússia sugere que gás pode fluir

A Rússia, que até o início da guerra, em fevereiro, era responsável por fornecer 40% do gás consumido pela UE, já reduziu ou cortou completamente o fornecimento de gás para uma dúzia de países do bloco. Também ameaça não retomar completamente o fluxo do produto pelo Nord Stream 1, um gasoduto importante que liga a Rússia à Alemanha pelo Mar Báltico e que está em manutenção neste mês.

Na terça-feira, o presidente russo, Vladimir Putin, sinalizou que gás natural voltará a ser fornecido para a Europa por meio do gasoduto quando a manutenção acabar, nesta quinta, mas alertou que o abastecimento pode ser severamente reduzido.

Putin deu o sinal mais claro até agora de que Moscou planeja retomar pelo menos parte do fluxo, mas advertiu que, se uma turbina do gasoduto que foi apreendida devido a sanções não for devolvida à Rússia, ele funcionará apenas com 20% da capacidade já na próxima semana — pois é então que outra parte que está agora na Rússia precisará de manutenção, disse Putin.

— Se a outra [turbina] vier, duas vão operar. Se não, apenas uma, então 30 milhões de metros cúbicos serão bombeados por dia — disse ele a repórteres após uma cúpula no Irã na terça-feira.

Após frenéticos esforços diplomáticos da Alemanha, a turbina está voltando do Canadá, para onde havia sido enviada para consertos. A Ucrânia protestou contra esta decisão, dizendo que ela viola as sanções aplicadas pela UE contra a Rússia por causa da invasão da Ucrânia.

Sem o gás russo, as alternativas do bloco são escassas. Especialistas dizem que, juntamente com os esforços da UE para alinhar novos fornecedores, cortar o consumo gás é a única maneira de sobreviver com poucos sacrifícios durante o inverno.

Simone Tagliapietra, especialista do centro de estudos Bruegel em Bruxelas, disse que o plano da Comissão Europeia “vai na direção certa”, mas alertou que muito depende de uma comunicação clara e honesta entre os governos e europeus.

— Isso requer uma comunicação séria e direta com o público — disse ele. — Os governos devem pedir às pessoas que consumam menos, e devem ter a coragem de dizer aos seus cidadãos que a Europa está no meio do que possivelmente representa a maior crise energética da sua história.

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