Países pró-Guaidó discutem solução para Venezuela após sanções de Trump

Por Francisco JARA
(Arquivo) Videoconferência do oponente venezuelano Juan Guaidó, em uma reunião do Grupo Lima em 23 de julho de 2019 em Buenos Aires, Argentina

Os países que apóiam o líder da oposição, Juan Guaidó, como presidente interino da Venezuela, esperam que o bloqueio anunciado pelos Estados Unidos contra Caracas "permita o mais rápido possível a saída" de Nicolás Maduro.

Convocada pelo Grupo de Lima, a "Conferência Internacional pela Democracia na Venezuela" começou depois de uma reunião de quase três horas das nações que reconhecem Guaidó, já que os países que seguem ao lado de Maduro, como México e Uruguai, ficaram de fora do encontro.

"No último minuto eles não participaram, seria necessário perguntar a eles (México e Uruguai) por que desistiram", disse o ministro das Relações Exteriores do Peru, Néstor Popolizio, anfitrião da reunião, ao entregar as conclusões da conferência.

Aliados de Caracas, como Cuba, Rússia, China ou Turquia, que foram convidados porque poderiam construir pontes com Maduro, também não compareceram, embora Popolizio tenha enfatizado que "não prejudica a reunião".

"Todos os países ouviram as medidas tomadas pelos Estados Unidos na noite de ontem (segunda-feira). Eles as levantaram na reunião e o que fizemos foi tomar nota delas, porque sabemos que elas terão um impacto real dentro do regime de Maduro, e esperamos que para permitir que o regime parta mais cedo do que tarde ", disse o ministro das Relações Exteriores à imprensa.

Houve uma reunião anterior com a participação do enviado dos Estados Unidos, o assessor de segurança nacional da Casa Branca, John Bolton, que falou sobre o bloqueio dos ativos do regime Maduro.

- Bloqueio e sanções a terceiros -

Garantiu também que o bloqueio "não é contra o povo da Venezuela", em um aparente esforço para evitar uma reação de rejeição, como a que Washington enfrenta há décadas por causa de seu embargo a Cuba.

Bolton chamou a atenção em Lima depois que o presidente Donald Trump bloqueou na noite de segunda-feira todos os bens do governo venezuelano nos Estados Unidos, uma medida que Washington não aplicava há três décadas contra uma nação americana.

A decisão de Trump impõe restrições semelhantes às aplicadas a Cuba, Coreia do Norte, Irã e Síria, determinando assim que agora os ativos venezuelanos "estão bloqueados e não podem ser transferidos, pagos, exportados, retirados, ou manejados".

Washington não aplicava uma medida deste tipo contra um país do continente americano há três décadas, algo semelhante às sanções impostas à Coreia do Norte, ao Irã e à Síria.

Anteriormente, o governo dos Estados Unidos adotou tal medida contra a Cuba de Fidel Castro, em 1962; a Nicarágua no primeiro governo de Daniel Ortega, em 1985; e o Panamá, em 1988, no período do general Manuel Antonio Noriega. Apenas as sanções contra Havana permanecem vigentes.

- Crueldade brutal -

O bloqueio foi considerado nesta terça-feira como "terrorismo econômico" pelo governo de Maduro, que está conduzindo um diálogo com delegados de Guaidó em Barbados, sob a mediação da Noruega, um processo visto com ceticismo por Washington.

Cuba descreveu a ordem de Trump como "ato de covardia", e a Rússia, como uma ação de "terrorismo econômico".

"Ninguém tem o direito de impor sua vontade ao outro mediante a repressão econômica", afirmou o Ministério russo das Relações Exteriores, citado pela agência de notícias Ria Novosti.

"É um despojo, um roubo, uma crueldade brutal" contra a Venezuela, disse o presidente cubano, Miguel Diaz-Canel.

Bolton advertiu que o bloqueio do governo de Maduro autoriza Washington a sancionar terceiros que fizerem negócios com seu regime.

- Sanções a terceiros

Depois do anúncio de sanções, Bolton afirmou que, quem fizer negócios com Maduro, também poderá ser punido por Washington. "Este bloqueio não é contra o povo da Venezuela, mas contra o regime de Maduro", frisou o conselheiro de Segurança Nacional.

"Gostaria de deixar claro que este decreto executivo, com amplos efeitos, autoriza o governo americano a identificar e converter em alvo de sanções pessoas que continuem dando apoio ao ilegítimo regime de Nicolás Maduro", declarou Bolton.

"Dissemos à Rússia e à China que o apoio que dão ao regime de Maduro é intolerável, em particular, para o regime democrático que substituirá Maduro. À Rússia e, sobretudo, àqueles que controlam suas finanças, voltamos a dizer o seguinte: 'Não redobrem uma aposta equivocada'", frisou.

"Para a China, que já se mostra desesperada para recuperar as perdas financeiras, a via mais rápida para recuperar seu dinheiro, é apoiar um novo governo legítimo", acrescentou.

As medidas e sanções são tomadas para que Maduro pare de matar", justificou o representante da Guaidó perante o Grupo Lima, Julio Borges.

- Oito chanceleres -

Participaram da reunião, entre outros, representantes do Vaticano, França, Espanha, Alemanha, Reino Unido, Austrália, Coreia do Sul, Japão, Israel, Emirados Árabes Unidos, África do Sul e 16 nações latino-americanas.

O Grupo Lima convocou cem países, mas cerca de 40 desistiram de participar.

Nesta terça, o governo venezuelano acusou Washington de praticar "terrorismo econômico" e de buscar uma ruptura no diálogo com a oposição, após novas sanções que congelam todos os seus bens nos Estados Unidos.

O governo de Nicolás Maduro "denuncia perante a comunidade internacional uma nova e séria agressão do governo Trump por meio de ações arbitrárias de terrorismo econômico contra o povo da Venezuela", afirma o Ministério das Relações Exteriores em um comunicado.

Além disso, a reunião foi citada "em nível de chanceleres", apenas oito ministros das Relações Exteriores chegaram, incluindo Ernesto Araújo, do Brasil; Carlos Holmes Trujillo, da Colômbia; Jorge Faurie, da Argentina; e Pekka Olavi Havisto, da Finlândia.

O Grupo Lima, criado em 2017 para definir uma posição comum contra a crise venezuelana, é formado por uma dezena de países latino-americanos e Canadá.