Pac-Man faz 40 anos: lembre histórias desse comilão que foi devorado pela cultura pop

Silvio Essinger

A pizza faltando uma fatia torna-se um agitado bichinho, voraz comedor de pílulas, em um labirinto assombrado por fantasmas. As assombrações querem comê-lo vivo, mas, se ele consegue ingerir uma das pílulas especiais distribuídas pelo caminho, o jogo vira: por alguns segundos, o bichinho passa a ser, ele, um comedor dos fantasmas. O sentido da existência da criatura está simplesmente em sobreviver até deixar o labirinto limpo de pílulas. Surrealismo de Salvador Dalí ou Luis Buñuel? Não: isso é Pac-Man, um ícone da cultura pop que completa 40 anos nesta sexta-feira.

O nascimento do revolucionário e clássico game, em 22 de maio de 1980, é lembrado pelo dia em que a empresa japonesa Namco instalou a primeira máquina de Pac-Man — um fliperama, como se conhece no Brasil —, num cinema em Shibuya, área comercial e financeira de Tóquio. De lá para cá, ele tomou as casas de família em consoles de videogame como o Atari 2600, virou tema de lancheiras infantis e livros respeitáveis (como “Invasion of the Space Invaders”, do inglês Martin Amis), além de ter sido homenageado na tela grande (em “Pixels”, filme de 2015 estrelado por Adam Sandler) e revivido em tempos de isolamento em um vídeo em prol do combate da Covid-19.

Como muitas das grandes criações do pop, Pac-Man surgiu sem qualquer pretensão artística. Ele foi a solução que o designer e programador Toru Iwatani encontrou para atrair aos arcades um público feminino que não se sentia representado nos joguinhos masculinos de aventura espacial. “Quando você pensa em coisas como as mulheres gostam, pensa em moda, cartomantes, comida ou namorados. Então eu decidi tema o jogo em torno de ‘comer’ — depois de jantar, as mulheres gostam de comer a sobremesa”, disse candidamente Toru à revista “Wired” em 2010.

Um design bonito e colorido, uma trilha sonora eletrônica viciante, uma jogabilidade atraente para quem não era exatamente um fissurado por videogames e todo o universo surreal criado pelo japonês fizeram com que Pac-Man conquistasse os Estados Unidos logo que foi lançado por lá, em outubro de 1980. Ele deu origem ao primeiro mascote comercializável surgido entre os games, com muitos produtos licenciados, de lancheiras, livros de piadas, camisetas, jogos de tabuleiro e pijamas a cartões de Dia dos Namorados para os jogadores mais românticos.

Inovações, como a da movimentação dos fantasmas (que se vale de um tipo rudimentar de inteligência artificial, programada por Toru Iwatani com os poucos bytes de memória que os games da época permitiam), ajudaram Pac-Man a ganhar um sentimento de realidade que o aproximou cada vez mais do universo dos seres vivos – meio como um Pinóquio que deixasse de ser boneco para virar menino.

É mais um desses milagres periódicos do pop: o mesmo que poucos anos depois faria de “Masters of the Universe”, animação de baixo orçamento produzida pela empresa de brinquedos Mattel para vender bonecos encalhados, fosse imortalizar He-Man, She-Ra e outros personagens.