Pacaembu troca emoção do gol por aplausos a doentes recuperados após coronavírus

ARTUR RODRIGUES, LALO DE ALMEIDA E MARIANA GOULART
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 07.05.2020 - Ala com pacientes em situação mais grave no hospital de campanha do Estádio do Pacaembu, em São Paulo. (Foto: Lalo de Almeida/folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A arquibancada vazia do Pacaembu é a primeira coisa que o operador de máquinas António Cândido Dias, 77, vê ao sair do hospital de campanha, montado no estádio há um mês para pacientes com coronavírus.

"Pensei que não ia sair mais", diz Antônio pouco antes de sair do hospital de cadeira de rodas. Um dos filhos o aguarda. Quando revê o pai, não aguenta seguir o protocolo médico e dá um abraço.

Assim que a cadeira de rodas de Antônio aparece na praça Charles Miller, do lado de fora do estádio, passantes desconhecidos começam a aplaudir. A torcida, agora de um tipo distinto daquela à qual o estádio se acostumou, está sempre presente ali. São pessoas que estão passando; espontaneamente, gritam e batem palmas para quem sai.

O Pacaembu tem apenas três anos a mais que Antônio. Em seu tempo de vida, já recebeu uma Copa do Mundo e o rei Pelé em seus gramados. Agora, octagenário, o estádio sedia partidas de vida e morte todos os dias. Na última quinta-feira (7), Antônio levou a melhor.

O hospital municipal no Pacaembu foi a primeira unidade de campanha criada pela gestão Bruno Covas (PSDB), que depois montou outra no Anhembi. O objetivo é ter leitos de baixa e média complexidade para aliviar a rede pública hospitalar.

O espaço é gerenciado pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Por isso, tem entre seus 520 profissionais muitos acostumados a atender políticos e celebridades na unidade do Morumbi (zona oeste de SP). Em meio à pandemia, eles se voluntariaram para trabalhar ali, algumas vezes ao custo de ter de se afastar de familiares para protegê-los de contaminação.

Quem entra para trabalhar no hospital de campanha faz o mesmo caminho dos jogadores até o campo. Troca de roupa no vestiário e segue pelo túnel com chão de grama sintética, na direção de onde costumava ficar o gramado, agora um hospital com capacidade de atender mais de 200 pessoas.

"Toda vez quando eu estou entrando naquele corredor, parece a sensação de estar entrando num jogo, entrando para lutar", diz o infectologista Vinicius Ponzio. "Nós fomos treinados para este momento, e todos nós achamos um propósito." Ponzio leva a reportagem para a área interna do hospital, que exige um demorado processo de paramentação. A cada equipamento que se coloca -luva, avental, touca, protetor de rosto- é necessário limpar as mãos com álcool em gel.

A tenda de 6.300 m² onde fica o hospital foi montada em apenas 10 dias, por 80 funcionários. O hospital toma toda a área do campo, com acesso por onde seria um dos gols. Há alas separadas para pacientes com Covid-19, outra para aqueles sob suspeita de ter a doença e uma terceira para pessoas cujo resultado deu negativo. Há ainda um setor de estabilização, para casos mais graves, com 16 leitos.

Na sexta-feira (8), havia 148 pessoas na unidade, sendo quatro delas na estabilização. Como se trata de uma unidade de porta fechada, os pacientes que chegam ali vêm de outros equipamentos e, geralmente, não apresentam quadro grave da doença.

Independentemente da fase em que se encontram, os infectados por coronavírus não podem ter acompanhantes. Por isso, entre os pacientes, a solidão se soma ao medo de jamais sair dali vivo, sem conseguir ver os parentes de novo.

"Os pacientes chegam assustados. Eles têm bastante receio de serem intubados e não acordar mais. Então, o papel da equipe é esclarecer que uma das fases do tratamento, se necessário, é a intubação, e que isso não quer dizer que vai levar à morte", diz a enfermeira Adriana Lario, que, antes de se voluntariar para o hospital de campanha, atuava como coordenadora no centro cirúrgico do Albert Einstein no Morumbi.

"Acho que a transparência, sinceridade, o acolhimento fazem muita diferença para o paciente".

Apesar dos protocolos de distanciamento, há uma relação muito calorosa entre funcionários e pacientes. As equipes conversam com frequência com os familiares e também promovem videoconferências em um tablet entre os internados e seus parentes.

Na quinta passada (7), os funcionários realizaram uma festa de aniversário para o paciente Humberto de Oliveira, 62, com direito a "parabéns para você" e um kit de presente, montado com doações que chegaram ao hospital.

"Para mim, estou fazendo um ano de vida", diz Oliveira, que, antes do Pacaembu, conta ter sido vítima de preconceito devido ao coronavírus.

"Eu vim para cá destruído, porque quando eu estava na UPA da minha cidade [Rio Grande da Serra] as pessoas me menosprezaram, me isolaram, não podia nem falar com as pessoas. Deu até vontade de pular da ambulância. Graças a Deus, quando eu cheguei aqui, encontrei um pessoal diferente, que me deu ânimo, porque doença se cura com amor também".

Apesar de ser municipal, o hospital do Pacaembu atende também pessoas de outras cidades. Até o início deste mês, 33 pacientes de fora da capital haviam sido internadas na unidade. No total, quase 600 pessoas já passaram por ali, e mais da metade já teve alta.

A reportagem encontrou Antônio Dias, citado no início desta reportagem, se vestindo para sair. Ele deu entrada no dia 21, após sentir o corpo "todo quebrado" e falta de apetite. Chegou a recusar uma ambulância achando que iria melhorar, mas isso não aconteceu.

"Agora, a primeira coisa eu vou fazer é beijar o chão do meu sobradinho, ver a minha velhinha, meus filhos, agradecer a todos que me trataram como gente. Um velho, que chega todo quebrado, ser atendido, e sai ainda cheio de saúde. Me trataram como gente, eu não sabia que eu era gente", diz, emocionado, segurando a mão de uma enfermeira.

Apesar de aposentado, como muitos moradores de São Paulo, ele continuou a trabalhar como operador de máquina. A unidade hospitalar tem muitos idosos, moradores de rua e também pessoas que continuaram a trabalhar, os chamados essenciais. Entre eles estão jovens também.

É o caso de Caíque Bezerra da Silva, 24, que atua como motorista de aplicativo. "Eu fiquei na rua trabalhando, mas eu não trabalhava direto, somente durante alguns dias, apenas. Sempre me protegendo, mas acontece [a contaminação], né?", diz o rapaz, morador de Sapopemba, na zona leste.

"Vejo que a sociedade está certa em ficar em casa, porque as ruas estão perigosas. Eu me arrisquei", diz. "O pessoal deveria se conscientizar mais."

Todos os dias, há uma reunião, em que os responsáveis por cada área discutem os dilemas do hospital.

A coordenadora da unidade de campanha do Pacaembu, Rose Miranda, diz que atuar em um hospital erguido rapidamente no meio de um campo de futebol é um aprendizado diário. Ela participou de tudo desde o começo, quando havia apenas a grama e as traves ali.

"Nós não tínhamos ideia do que seria montar um hospital de campanha. A gente nunca imaginou fazer um hospital em um estádio.Tínhamos que pensar em tudo. Como entrar, como sair, como acolher a família do paciente", diz ela.

Os pacientes são atendidos por uma equipe multidisciplinar, que envolve psicólogos, nutricionistas, infectologistas e fisioterapeutas, entre outros.

A fisioterapia pulmonar é uma das etapas mais importantes para a recuperação, uma vez que muitos precisam de suporte de oxigênio.

"Normalmente, o paciente quando chega aqui não está com o caso tão avançado, com aquela imagem do vidro fosco [no pulmão], aquela pneumonia localizada. Ele chega muitas vezes num estado para ser cuidado, às vezes é tratado dessa pneumonia, esse problema localizado, e normalmente ele vai para casa", diz a fisioterapeuta Andréia Ferreira Nunes.

"Existe um outro cenário também que ele pode descompensar, que é quando ele precisa de um suporte de oxigênio maior e transferimos para a sala de estabilização."

Até o momento, um paciente morreu no hospital de campanha do Pacaembu, um morador de rua, com várias comorbidades. Alguns saem de lá em situação pior, transferidos para UTIs em outros hospitais. A maioria, porém, sai bem, pela porta da frente.

Quietinha, em sua cadeira de rodas, Ruth Yolanda Pessoa, 84, via a luz do dia pela primeira vez em semanas. Quando chegou no hospital, sem esperança de sobreviver, se desligou de tudo. "Depois que fui vendo que tinha recuperação, fui me sentindo otimista. Acho que fui uma batalhadora", diz, sorrindo, com a voz fraca.

Uma das partes mais difíceis da internação foi ficar longe do marido de 90 anos, de quem nunca se separou em 67 anos de casamento.

Durante a internação, falou algumas vezes com ele em um tablet providenciado pela equipe do hospital. "Ele chorava muito e falava que me amava muito. E eu também. Não vivo sem o meu velhinho", diz.

Na quinta, Ruth voltou para casa. Passaria o dia das mães com a família, que inclui três filhos, quatro netos e quatro bisnetos. "É a a sensação melhor da vida, porque eu vim para cá sem chances."