Paciente com câncer reclama de abandono após incêndio no Hospital de Bonsucesso

André Coelho
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Foto: Arquivo pessoal
Foto: Arquivo pessoal

Apenas um dia depois de realizar uma biópsia de um câncer no intestino, parte dos procedimentos para avaliar a necessidade de uma cirurgia, o paciente Marcus Aurélio Rodrigues, de 61 anos, precisou se arrastar às pressas para fora do Hospital Federal de Bonsucesso, onde estava internado desde o dia 20 de outubro, por conta do incêndio que atingiu a unidade no dia 27. Já no pátio externo, perdendo sangue e sentindo dores, Marcus conta que recebeu um documento de alta hospitalar sem ter sido examinado e retornou para casa, em São Gonçalo, onde permaneceu sem qualquer contato do hospital ou outra unidade pública de saúde.

— O hospital estava fazendo todos os procedimentos corretamente, mas depois que pegou fogo ninguém falou mais nada, ninguém procurou saber. Eu vim pra casa já com quase todos os exames prontos, mas se passaram vários dias e ninguém fez contato — relata.

O aposentado conta que fez uma ressonância, exame que faltava para a avaliação da cirurgia, por conta própria. Segundo Marcus, apenas na sexta-feira (dia 6), após a Rádio CBN contar sua história, uma consulta ambulatorial foi marcada, para a próxima quinta-feira. Ele diz que continua sentindo dores e está preocupado com a evolução da doença no período que ficou em casa.

— Sou um homem que fica deitado, de fralda, debilitado psicologicamente. Tomara Deus que eu consiga sair de lá dia 12 com a cirurgia marcada — conta.

Em nota, o Ministério da Saúde, responsável pela unidade, afirmou que o atendimento ambulatorial a pacientes oncológicos foi normalizado desde a última quarta-feira: “Os pacientes que tiveram suas consultas suspensas devido ao incêndio estão sendo chamados pela equipe assistencial do Hospital Federal de Bonsucesso (HFB) para remarcação dos atendimentos”.

Segundo o Ministério, os casos estão sendo avaliados individualmente para a definição da unidade hospitalar mais adequada para o encaminhamento. “É importante ressaltar que no dia do ocorrido todos os pacientes que se encontravam internados na unidade de saúde de Bonsucesso foram prontamente encaminhados e atendidos na rede hospitalar federal do Rio de Janeiro, conforme suas necessidades. Os pacientes com alta prevista seguiram o mesmo protocolo”, diz a nota.

Testemunhas serão ouvidas nesta terça

As testemunhas do incêndio no Hospital federal de Bonsucesso, na Zona Norte do Rio, vão começar a ser ouvidas pela Polícia Federal hoje, quase duas semanas depois da tragédia que já deixou 14 pessoas mortas. De acordo com a PF, as primeiras pessoas que serão ouvidas são as que estavam envolvidas diretamente no pronto-atendimento. O delegado responsável pela investigação vai interrogar a primeira pessoa que se deparou com o início do incêndio na unidade de saúde, na manhã de 27 de outubro.

As testemunhas serão chamadas por ordem de hierarquia, assim, o diretor da unidade federal, o ortopedista Edson Joaquim Santana, deve ser um dos primeiros a depor. Ele já havia prestado um depoimento à PF de maneira informal. Funcionários como seguranças, médicos e enfermeiros também estão sendo chamados.

A PF já analisa imagens de câmeras de segurança do prédio 1 para descobrir a causa do incêncio no Hospital de Bonsucesso. No dia 30 de outubro, três dias após o incêndio, os peritos do órgão conseguiram entrar no almoxarifado. A planta do hospital foi entregue pela direção do HFB. Naquele mesmo dia, um delegado da Polícia Federal se reuniu com o diretor da unidade de saúde na sede do centro médico. Santana entregou vários documentos para a PF sobre a atual situação estrutural do complexo formado por seis prédios.

Os peritos querem saber o que causou o incêndio, que teria começado no almoxarifado do prédio 1. Especula-se que material inflamável teria feito com que o fogo se alastrasse rapidamente por todo o subsolo. Tudo que estava ali foi consumido, como equipamentos de raios-x e de tomografia.

A Polícia Federal não tem data para concluir o inquérito. Em nota, a instituição disse que “foi instaurado inquérito policial para apurar as circunstâncias do fato”. Ainda de acordo com a PF, o órgão não vai comentar o andamento da investigação.