Paciente de Manaus que chegou a ter 90% do pulmão comprometidos relata os 101 dias de luta para sobreviver à Covid-19 em Niterói

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Recuperada da Covid-19 e de volta a Manaus, quando um pneumologista analisou os exames de Danielle Crispim, de 43 anos, disse, perplexo: “Tudo que vejo aqui é incompatível com a vida. É um milagre”. Tinham sido 101 dias internada em Niterói, cidade à que chegou em janeiro, para tentar salvar a mãe, também infectada pelo vírus, mas onde ela própria enfrentou uma odisseia. Intubada, foram 18 dias. Sedada, em coma induzido, 45. Infecções graves e um histórico prévio de cinco tromboses pioraram seu estado. Ao sair da UTI, Danielle precisou reaprender a comer, escrever e andar. E se, no dia 5 de maio, voltou ao Amazonas reabilitada, a ponto de trabalhar na vacinação contra a doença, atribui a dádiva às equipes do Rio.

— Minha vitória foi deles. Às vezes me pergunto. “Por que sou um milagre? Por que comigo?” Talvez eu nunca tenha resposta. O que eu posso fazer é me tornar uma pessoa melhor e dar valor a cada detalhe da vida — diz Danielle.

Prestes a se formar em Enfermagem pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), ela deixou Manaus no auge da segunda onda da pandemia, quando a falta de oxigênio nos hospitais fez centenas de vítimas. A primeira a adoecer foi a mãe de Danielle, a aposentada Ana Moraes, de 69 anos. O quadro se complicava, e a família deu de cara com hospitais fechados, lotados, ou, se abertos, com pacientes morrendo na porta. O que ajudou a manter Ana viva foi o oxigênio que sobrou no cilindro de um senhor que morreu em casa, à espera de atendimento.

Sair de Manaus custaria R$ 160 mil numa UTI aérea, com fila de espera de 4 dias. A família também se inscreveu para uma vaga nos aviões da Força Aérea Brasileira que levavam pacientes para outros estados. Mas o desespero fez com que, como tantos outros, fossem para o aeroporto. Ao desembarcar no Rio, a idosa, Danielle e sua irmã foram numa ambulância para o Hospital Estadual Alberto Torres, em São Gonçalo. Ana ficou na UTI, e a filha, que começava a apresentar sintomas, foi atendida e liberada.

Danielle piorou rapidamente. Em 17 de janeiro, chegou ao Complexo Hospitalar de Niterói (CHN) com 90% do pulmão comprometidos. Horas após fazer videochamada com o marido, que estava em Manaus, foi intubada. Só nesse primeiro hospital, foram 60 dias. E enquanto os profissionais de saúde lutavam para resgatá-la, Danielle lembra os delírios que tinha no período de sedação.

— Eu me via dentro de um outro hospital. Chegou ao meu subconsciente que minha mãe tinha recebido alta, sem sequelas. Mas, ali, vi minha família preparar meu sepultamento e me enterrar. Tanto que, quando acordei, eu tinha certeza de que minhas córneas tinham sido doadas — conta.

De volta à realidade, os desafios não cessaram. Com espécies de cavidades no pulmão, a fisioterapia respiratória será para a vida toda, e ela precisará evitar fumaça e poeira. Após a UTI, estava tão debilitada que os médicos a encaminharam para a Clínica de Reabilitação Placi, também em Niterói, onde ficou mais 41 dias sob os cuidados de uma equipe multidisciplinar especializada em desinternação de pacientes graves.

— Fizeram tudo para eu voltar à minha vida. Eu sempre dizia: “Até a próxima sexta, eu volto a andar”. Mas eu dava dois passos e não conseguia. Eu chorava. Logo, no entanto, os dois passos viraram seis e, quando vi, já subia escada. Esperavam que eu saísse só em junho ou julho. No fim de abril, estava pronta para a alta — conta.

No aeroporto de Manaus, parentes a esperaram cantando o louvor “Meu barquinho”, o mesmo que entoavam no Placi para acalmá-la quando a falta de ar parecia insuportável. No dia 12 de maio, Dia do Enfermeiro, ela voltou à Ufam para o último mês antes de concluir o curso de Enfermagem:

— Desde então, cumpro horas na vacinação contra a Covid-19 no posto da universidade. É recompensador, ao final de cada dia, ver que ajudei a proteger tantas vidas — diz Danielle, que nos próximos meses quer iniciar uma pós-graduação em São Paulo.

Guardiões para sempre lembrados

A primeira lembrança que Danielle Crispim tem de quando acordou no Complexo Hospitalar de Niterói (CHN) é do médico Mozart Rodrigues a acalmando. São muitos os momentos que ela recorda ainda com o fisioterapeuta Marcelo Fonseca, no CHN. Um dia, conta a manauara, ele lhe disse: “Você foi ao vale da morte e voltou”. Da Clínica de Reabilitação Placi Cuidados Extensivos, ela também guarda histórias sobre como cada um a ajudou a se recuperar. São como anjos da guarda que ela afirma que levará para a vida. E que serão inspiração para sua carreira de enfermeira, profissão que escolheu depois de já formada em Direito e Moda.

No CHN, a coordenadora da Unidade de Terapia Intensiva, Simone Vinhas, conta que, para equipe, também foi uma felicidade quando Danielle conseguiu se sentar pela primeira vez, após semanas sedada.

— Foi um grande desafio tirá-la do respirador. Todo dia dizíamos ainda que precisávamos que ela saísse do bloqueio muscular. Mas ela não conseguia respirar sozinha. Ela também teve várias infecções, inclusive respiratória. Achávamos pouco provável que se recuperasse da forma como conseguiu — diz a médica.

Quando a paciente saiu do isolamento, Simone lembra que entrou em cena outro fator fundamental: a presença da família, que pôde visitá-la como parte do tratamento humanizado proposto. Parentes esses, aliás, que praticamente se mudaram para o Rio durante os 101 dias de internação, com a mobilização de amigos em Manaus, que fizeram uma vaquinha para ajudar a pagar despesas.