Paciente que morreu à espera de leito de UTI seria vacinada contra a Covid nesta semana no Rio. ‘Nem teve a chance’, lamenta filho

Flavio Trindade
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Eunice Teles de Souza, de 68 anos, já contava os dias para receber a primeira dose da vacina contra a Covid-19. De acordo com o calendário de imunização da Prefeitura do Rio, a vez da moradora de Vista Alegre estava muito perto de chegar: seria nesta quinta-feira (1º). Mas a dona de casa morreu 72 horas antes do tão esperado dia, vítima do novo coronavírus e da falta de vagas em UTIs para pacientes com a doença na Rede SUS no estado.

— Minha mãe estava na fila para ser vacinada. Ela tinha 68 anos, era essa semana. A coitada nem teve a chance. Não desejo que ninguém tenha um sofrimento desse — afirma o motorista Eduardo Teles, um dos três filhos de Eunice, que ele descreve como uma guerreira. — Minha mãe foi uma mulher muito guerreira, trabalhou a vida inteira, sustentou três filhos sozinha. Era uma mulher muito sofrida, nunca abandonou a gente. Eu moro ao lado da casa dela, estive com ela todos os dias, tentei cuidar dela quando começaram os sintomas. A gente se dava muito bem, conversávamos sobre tudo. Conversei com a minha mãe no WhatsApp e agora não vou mais vê-la.

“Preciso de você, mãe”. Foi essa a frase que Eduardo escreveu na manhã de domingo (28), em frente à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Beira-Mar, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, na esperança de poder abraçar mais uma vez Eunice. A idosa havia sido levada por ele mesmo à UPA no dia anterior, depois de peregrinar por outras duas unidades de saúde. Infelizmente, o motorista não voltou a ver a mãe, cujo estado de saúde havia piorado enquanto ela aguardava uma vaga de UTI. Duas horas antes da última mensagem enviada pelo filho, a idosa desabafou: “Não vou aguentar esperar não”. Na manhã de segunda-feira (29), Eduardo recebeu, ao lado da irmã Adriana, a notícia da morte da mãe, mais uma vítima da Covid-19 no Brasil que não suportou a espera na fila por um leito.

Eunice passou pela UPA de Irajá, na Zona Norte do Rio, e pela do Lote XV, também em Duque de Caixas. De acordo com os filhos, nos dois locais ela foi aconselhada a ir para a Beira-Mar, onde teria melhor estrutura. Mas lá, segundo a filha, Adriana Teles, outros pacientes diziam não haver os medicamentos necessários para os procedimentos relativos ao tratamento da Covid, como a intubação.

Durante a noite que passou na UPA, dona Eunice reclamou da falta de conforto com o filho. Ela pediu que levassem para ela um travesseiro e um cobertor, mas não deu tempo. “Vem correndo”, pediu a idosa. “O mais rápido que puder”.

— Ela estava com frio. Minha mãezinha era uma pessoa tão linda. Não sei como eu vou viver sem ela. É preciso denunciar isso. Digam para as pessoas não trazerem seus familiares aqui. Quem vem aqui é para morrer. Eles não têm remédios, não têm equipamento. Estão assassinando as pessoas, e minha mãezinha foi mais uma – lamenta a filha.

Resposta

Em nota, a Secretaria municipal de Saúde e Defesa e Civil de Duque de Caxias, através da direção da UPA da Beira-Mar, afirmou que não procede a informação de que a paciente Eunice Teles de Souza deixou de ser intubada por falta de remédios ou equipamentos na unidade de saúde. A pasta ressaltou ainda que, apesar da grande demanda de pacientes com suspeita ou confirmação de Covid-19, não há falta de materiais na unidade.

A direção da UPA informou também que a paciente chegou à unidade com estado de saúde grave, sendo imediatamente regulada junto ao SER (Sistema Estadual de Regulação), e estava no aguardo de uma vaga. Enquanto esperava a liberação do leito e a transferência, a paciente recebeu, ainda de acordo com a secretaria, “todos os cuidados e esforços por parte da equipe médica da UPA Beira-Mar para preservar a sua vida”.