Pacientes recebem 2021 em casa ao deixarem hospital no último dia do ano após tratamento para Covid-19

Ana Letícia Leão e Natália Boere
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Domingos Peixoto / Agência O Globo

RIO — Ano Novo, vida nova. A expressão não poderia ser mais significativa para o desembargador Marco Aurélio Fróes, de 79 anos, e o administrador de empresas Ricardo Sebe, de 55, que deixaram o hospital no último dia do ano após vencer a Covid-19. Diabético e hipertenso, o magistrado carioca ficou 45 dias internado, 37 deles, sedado e entubado. Após passar o primeiro Natal longe de casa, numa noite bem distante de ser feliz, Fróes teve alta médica ontem de um hospital privado, em Copacabana, para receber 2021 ao lado da mulher, dos filhos e dos netos.

— Foram dias horríveis, tive muito medo de não deixar o hospital. Depois de tudo o que passei, não tenho palavras para descrever a emoção de voltar para casa e para os braços da minha família, que é tudo o que eu tenho — disse o desembargador.

Em casa, na Barra da Tijuca, ele foi recebido com festa pela mulher, a professora Carlinda Luiza, pelos três filhos e os cinco netos. O casal passou oito meses isolado no sítio da família em São José do Vale do Rio Preto, na Região Serrana do Rio. Os dois voltaram à capital no início de novembro, para ir a um aniversário de um grande amigo, onde acreditam ter contraído o coronavírus. Carlinda não precisou de internação. Recuperada, batia ponto diariamente na porta da UTI do Hospital Copa Star, e sofria ao ver seu companheiro há 53 anos “meio fora do ar”. Mas foi a presença dela, diz ele, que lhe deu força para lutar contra a doença:

— O rosto dela se aproximando do quarto me fazia renascer.

Para ele, a chegada de um novo ano é um momento para agradecer por estar vivo e perto da família, e de desejar que possa ver os netos crescerem. Para ela, representa uma virada de página:

— Sou muito grata por ter recebido essa bênção de Deus, a oportunidade de o meu marido viver mais. A luta foi grande, mas vencemos. Que venha a vacina, e possamos ficar livres desse vírus. E que todos tenham consciência do que passamos e se esforcem para ser pessoas melhores.

O paulista Ricardo Sebe também pôde reencontrar ontem a mulher, Ana Paula, de 53 anos, e a filha Gabriela, de 21. Segundo ele, foram os 12 dias mais difíceis de sua vida. Mas ele também superou a doença e recebeu alta do Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

— É uma sensação péssima ficar trancado. Só ficávamos eu, os médicos, os enfermeiros, que são anjos, e Deus. Era tudo muito incerto, e eu não sabia a reação do vírus. Hoje (ontem) minha mulher me ligou, perguntando o que eu queria. Estou saindo 12 quilos mais magro, e falei que queria arroz, feijão, batata frita, bife, e ficar ao lado delas — contou Sebe.

Irmão também na UTI

Agora, diz o administrador, o pensamento e as energias positivas vão para o irmão dele, de 59 anos, que também foi internado com Covid-19, e está entubado na UTI.

— Apesar de termos ido para o mesmo hospital, não tivemos contato nesses dias. Vivo um momento de muita felicidade, mas agora estou torcendo muito por ele. Minha mãe tem 81 anos e, apesar de saudável, ficou muito abalada com os dois filhos internados.

São Paulo terminou o ano com 1.462.297 de casos de Covid-19 e 46.717 óbitos em decorrência da doença. No Estado do Rio, de acordo com a estatística de ontem, 25.530 pessoas perderam a vida para o coronavírus e 434.648 foram infectadas, desde o início da pandemia.