Pacientes reclamam de espera para tratamento odontológico em São Paulo

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A atendente de loja de conveniência Poliana Dias Santos, 40, diz que seus dois filhos aguardam há mais de um ano a triagem para início de tratamento dentário na rede pública da cidade de São Paulo.

Alice, 9, tem os dentes entramelados, um tipo de desalinhamento. Uma profissional da rede privada avaliou o caso e indicou a necessidade de eliminação de cárie e uma limpeza. O irmão, Miguel, 11, sente dores.

O filho da babá Gabriele Rosendo de Oliveira, 34, com nove anos, está com um dente furado, dois quebrados e três com cáries. As dores são constantes e ele toma analgésicos. A mãe afirma que pleiteia vaga para o filho há cerca de dez meses.

Segundo os familiares, as três crianças são acompanhadas na UBS (Unidade Básica de Saúde) Jardim Aracati, na zona sul. "Vou com frequência na unidade e a resposta é sempre a mesma: está em fila de espera e precisa aguardar. Ele não passou nem pela triagem. Já expliquei a situação do meu filho, mas não adianta", diz Oliveira.

Procurada, a SMS (Secretaria Municipal da Saúde) afirmou que não há queixas registradas formalmente por parte dos familiares dos três pacientes.

Após ser procurada pela reportagem, o órgão da gestão Ricardo Nunes (MDB) agendou as consultas de avaliação odontológica de Alice e Miguel -a menina foi atendida nesta quinta (8). A do filho de Gabriele será nesta semana. As mães confirmaram a informação.

A pasta disse ainda que estão em fase de implantação quatro consultórios odontológicos na UBS Cidade Ipava, na região do Jardim Aracati. Cinco cirurgiões-dentistas serão contratados para atendimento das demandas locais.

A reportagem perguntou à secretaria, via LAI (Lei de Acesso à Informação), quantos pacientes esperavam por tratamento de cárie, canal, periodontite ou outros problemas bucais. A pasta respondeu que "a Atenção Básica não trabalha na lógica de fila de espera e que o tempo médio para a realização das triagens odontológicas nas UBSs é de 40 dias". Nega, portanto, haver fila.

Sem se identificar, a reportagem visitou e telefonou para algumas UBSs para verificar o acesso ao tratamento bucal. Funcionários admitiram que há fila de espera para a triagem e que não é possível prever o tempo para ocorrer o atendimento, mas que vai muito além de 40 dias.

Na UBS Joaquim Antonio Eirado, em Santana (zona norte), não há compressor odontológico nem previsão para instalá-lo. A secretaria havia afirmado, em nota, que a instalação estava programada para segunda (5), o que não tinha acontecido até a manhã desta quinta. Na unidade, uma funcionária disse que não há previsão para receber o equipamento e, apesar de a triagem estar sendo agendada, o atendimento só é possível com a máquina.

Nas UBSs Bom Retiro (zona norte), Jardim Keralux, em Ermelino Matarazzo, Dr. Carlos Olivaldo de Souza Lopes Muniz e Vila Nova Manchester (todas na zona leste), a triagem ocorre uma vez no mês.

Segundo funcionários, nas UBSs Jardim Penha e Engenheiro Goulart, ambas em Cangaíba (zona leste), não há triagem por falta de vagas. Esta última agenda para atendimento em outra unidade.

Na UBS Carlos Gentile de Melo, na zona leste, são atendidos somente casos de emergência.

A Secretaria da Saúde não comentou as observações apontadas nessas UBSs.

A UBS é a porta de entrada para o tratamento odontológico na rede pública. Das 470 unidades do município, 426 (90,6%) contam com equipes de saúde bucal, que são responsáveis pela assistência odontológica com procedimentos restaurações e profilaxia.

É a UBS que encaminha os pacientes para os CEOs (Centros de Especialidade Odontológica), quando necessário. Esses serviços realizam tratamento de canal e cirurgias, por exemplo.

Para o médico sanitarista Adriano Massuda, professor da Escola de Administração do Estado de São Paulo da Fundação Getulio Vargas, é preciso identificar se a alta demanda represada se deve à oferta insuficiente, desorganização do fluxo ou à pandemia de Covid-19, época em que muitas pessoas deixaram de ir ao dentista.

"Hoje, o gestor municipal está bastante sobrecarregado. Esse tipo de problema deveria ser tratado nacionalmente. Em 2020, a diminuição de produção em função da pandemia para procedimentos de rotina, que inclui saúde bucal, foi de 25%, em média. Os de Atenção Básica, que inclui odontologia, foram os mais atingidos, com 60% de redução de produção", afirma Massuda.

Ele recomenda a contratação de equipes emergenciais para diminuir a demanda represada, evitando que os problemas evoluam e custem mais caro para os cofres públicos. "Uma cárie não tratada pode demandar uma extração de dente, e tratar saúde bucal com extração de dente é de uma saúde pública pré-histórica, mas isso pode voltar a acontecer."

O cirurgião-dentista Sidnei Goldmann, que atua há mais de 30 anos na área de saúde bucal, alerta que o dente está ligado ao resto do organismo, e que uma periodontite --infecção bacteriana dos tecidos, ligamentos e ossos específicos que envolvem e sustentam os dentes-- é um fator de risco para doenças cardíacas e pulmonares.

O especialista ressalta que a visita ao dentista deve ser regular: a cada seis meses, se estiver com a saúde bucal controlada; caso contrário, a cada quatro meses. Ele lembra que 90% dos problemas bucais ocorrem pela má escovação.

"Precisamos de políticas públicas preventivas. É mais barato do que tratar o problema", diz.