Pacientes sofrem em mais um dia de crise na saúde

Gustavo Goulart
Na Clínica da Família da Rocinha, funcionários, com salários atrasados, pedem doação de comida

RIO - Pacientes tiveram mais um dia de longa espera no atendimento e falta de remédio. Deitado num banco de pedra no espaço para acompanhantes, do lado de fora da Coordenação de Emergência Regional (CER) do Centro, ao lado do Hospital Municipal Souza Aguiar, Lucas Augusto Alves, de 20 anos, agonizava na manhã desta segunda-feira. Com fortes dores abdominais, ele chegou ao CER por volta das 7h e até pelo menos 13h não havia sido atendido. Já na Clínica da Família, Maria do Socorro Silva e Souza, Elaine da Cruz, de 40 anos, Vítima de um infarto seguido de um AVC há cerca de dois anos, não conseguiu pegar sua medicação.

Morador de Santa Cruz, Lucas Augusto Alves já tinha tentado atendimento numa unidade de saúde em Rio das Pedras, sem sucesso. Ele conseguiu uma carona e esperava ser atendido no Hospital Municipal Souza Aguiar. Mas foi orientado a passar por uma triagem no CER Centro, onde várias outras pessoas também tentavam a sorte nesta segunda-feira. Lucas conseguiu acesso à sala de espera do CER, com climatização, mas, com dores intensas precisava se deitar.

— Eu estava lá dentro, mas não consegui atendimento. Ninguém me atendeu. Não conseguia nem ficar sentado. Precisava me deitar por causa das dores na barriga. Não sei o que tenho. Pode ser pedra no rim ou coisa pior. Preciso de socorro – implorou.

— Você tem que ficar lá dentro. Seu nome já deve ter sido chamado umas duas vezes e você está aqui – reclamou o segurança, preocupado com a presença de repórteres.

Outra pessoa que aguardava atendimento fazia há duas horas era Renata Maria Vital da Costa, de 41 anos. Doméstica, moradora do bairro Pilar, em Duque de Caxias, ela já havia sido internada este ano no Hospital Estadual Adão Pereira Nunes, em Saracuruna, onde ficou por 17 dias.

— Investigaram a possibilidade de ser problema na vesícula, mas ela não foi operada por falta de condições no hospital. Receitaram Buscopan e lhe deram alta. O remédio acabou, o efeito também e a crise voltou. O problema dela pode ser meu um dia – lamentou a cunhada, a costureira aposentada Cláudia de Jesus Vital, de 47 anos, que a acompanhava.

Já na Clínica da Família Maria do Socorro Silva e Souza, Elaine da Cruz, de 40 anos, não conseguiu pegar sua medicação para cuidar da saúde. Vítima de um infarto seguido de um AVC há cerca de dois anos, ela precisa tomar vários remédios. Alguns sua mãe, Severina Joaquim Cruz, de 68 anos, compra com o salário mínimo que recebe. Outros, como o tranquilizante Clonazepan de 25mg, ela costuma pegar na clínica. Este é o segundo mês consecutivo que vai até lá e volta sem nada.

— A saúde no Rio está em situação precária. Fui desprezada. Não tem ninguém nem na farmácia - reclamou ela, que ficou com algumas sequelas, entre elas a perda dos movimentos da mão direita.

Cláudia Mesquita Gomes, de 49 anos, fazia exercícios num espaço público próximo à clínica quando teve a atenção despertada para o cartaz com o pedido de ajuda de mantimentos feito por funcionários.

— Essas autoridades não sabem nem um pouco da situação desses trabalhadores. Amanhã trarei um quilo de feijão. É uma forma de ajudá-los – comentou.

Atrás da Clínica da Família Maria do Socorro Silva e Souza funciona o Centro de Atendimento Psico Social (Caps) homônimo. A unidade funciona 24 horas, mas os funcionários fizeram uma paralisação no fim de semana, quando muitos assistidos ficaram sem atendimento psiquiátrico. Nadir da Silva Gonçalves, de 52 anos, tem transtorno psiquiátrico e toma remédios diariamente no Caps. Este fim de semana ficou sem. Ela foi em busca de olazopina, um antipsicótico, carregando uma boneca.

Administrada pela OS Viva Rio, a unidade sente falta de vários produtos, como, por exemplo, o antidepressivo amitriptilina, clonozepan (rivotril), diazepan, flufenan e até sabonete, papel para impressora e copo descartável. E isso, segundo funcionários, acontece nos ultimos três anos. Sete de cerca de 40 profissionais se revezam para manter a clínica aberta. Com nove leitos de internação, a unidade está em greve e somente pessoas como Nadir vão até lá atualmente.

Na Clínica da Família Maria do Socorro Silva e Souza, na Rocinha, uma caixa de papelão aberta do lado direito da porta de acesso continha açúcar, macarrão, arroz, feijão e outros mantimentos. Acima dela a explicação: ‘Profissionais da saúde do Município do Rio de Janeiro sem salário há dois meses e sem previsão de pagamento!! Quer ajudar? Deixe aqui sua doação”.