Paco Roca lança no Brasil HQ inspirada em história familiar e na Espanha do pós-guerra

A partir de uma fotografia tirada numa praia, há 76 anos, e guardada com carinho pela mãe, o quadrinista Paco Roca conta em “Regresso ao Éden” (Devir) parte da história de sua família e também da Espanha no pós-guerra. Roca narra em um formato pouco usual, horizontal — assim como seu álbum anterior, “A casa” — a infância de sua mãe, Antonia, e as dificuldades que ela, seus cinco irmãos e os pais enfrentaram na cidade de Valência em plena ditadura franquista. A família, como o próprio desenhista de 53 anos diz numa cena do quadrinho, “se tornou um vínculo imprescindível para a sobrevivência”.

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O quadrinista criou “Regresso ao Éden” como uma forma de conhecer mais os pais e, consequentemente, se conhecer melhor também. Tal qual no livro “A casa” (Devir), que produziu logo depois da morte do pai, quando ele e os irmãos tiveram que decidir o que fazer com a velha residência em que a família passava as férias e feriados, no litoral.

— Meu pai não viu “A casa” nem a longa jornada que este quadrinho alcançou — diz Roca ao GLOBO. — Por isso eu queria fazer uma história sobre minha mãe com ela viva, para que a pudesse ler. Coincidiu com a pandemia e com minha mãe estar com a saúde delicada, aos 90 anos. Então tive medo de não conseguir terminar a tempo. Acho que nunca tive tanta pressa em terminar um quadrinho.

A ansiedade é compreensível. Com a morte do pai, Roca descobriu que sabia muito pouco sobre seu passado. Daí decidiu gravar uma série de conversas com a mãe para conhecer mais sua história de vida. E, a partir dessas entrevistas, criou o roteiro de “Regresso ao Éden” mesclando memórias familiares à ficção histórica, como um quadrinho neorrealista que emociona a todos que se identificam com a trajetória daquela mãe.

— Finalmente terminei e consegui trazer uma cópia para ela — conta ele, que diz ter produzido este novo álbum recluso, devido à pandemia, ao lado de sua família na residência construída pelo pai, e tema de “A casa”. — Como conto no quadrinho, minha mãe é analfabeta e mal sabe ler, mas olhou os quadros, e chorou em alguns momentos. Quando terminou, ela o fechou e o abraçou.

A mãe do quadrinista, então, pediu ingenuamente a ele que cuidasse do livro e o compartilhasse com seus irmãos quando ela partisse:

— Foi quando entendi que ela pensou que o livro fosse um exemplar único, feito só para ela. Então disse que não se preocupasse, que havia dezenas de milhares de cópias. Daí ela ficou impressionada e perguntou: “Quantas pessoas vão ler minha história?”

Embora menos pessoal que “Regresso ao Éden” e “A casa”, “Rugas” (Devir) surgiu a partir de questões relacionadas à senilidade dos pais de Roca e ainda é o maior sucesso do autor. No livro, que foi publicado em uma dúzia de países e virou até longa-metragem de animação premiadíssimo, acompanhamos o dia a dia de um idoso recém-chegado a um asilo.

— Percebi que eram pouquíssimas as histórias que tinham a velhice como tema — explica Roca. — Eu queria contar como os idosos viam a vida, mas me pareceu mais interessante, em vez de focar na vida de meus pais, pôr a história em um asilo e ver outros casos.

O protagonista da HQ é um senhor que começa a manifestar sintomas do Alzheimer e, em certos momentos, acredita que ainda trabalha como gerente numa agência bancária. Em busca de ajuda especializada, sua família resolve, então, interná-lo num lar para idosos.

— Eu nunca tinha ido a um lugar como aquele e comecei a visitar diferentes asilos — lembra ele. — Aquilo teve um grande impacto em mim e praticamente tudo que conto no quadrinho vem dessas visitas. Nunca pensei que uma história como essa, que trata da velhice, da solidão, do Alzheimer, funcionaria do jeito que funcionou.

Novo livro a caminho

Mal lançou “Regresso ao Éden”, a editora Devir já anunciou um quarto título do autor para o mês que vem: “Acasos do destino”. Desta vez, Roca debruça-se sobre a guerra, ao contar a história de republicanos espanhóis que, ao perderem a luta contra Franco, migram para a França. Lá, passam a enfrentar o Eixo, na Segunda Guerra, na companhia militar que ficou conhecida como La Nueve, quase totalmente formada por espanhóis.

— Um amigo, diretor do Instituto Cervantes de Paris, me colocou em contato com três dos ex-combatentes ainda vivos — conta Roca. — Esses homens continuaram lutando contra o fascismo ao deixar seu país. Eles se alistaram no exército francês e, por causa de sua experiência de combate, acabariam sendo os primeiros a entrar na Paris ocupada pelos alemães.

O quadrinista diz que contar a história da 9ª Companhia do Régiment de Marche du Tchad, a La Nueve, foi uma oportunidade de recriar a vida no exílio de muitos espanhóis e a longa jornada que muitos deles seguiram.

Depois de ler uma história em quadrinhos na qual o autor aborda um fato histórico pouco conhecido; tratar de uma doença que apaga nosso passado em outra; e refletir sobre suas raízes familiares em mais duas HQs, chega-se à conclusão que um tema é caro ao espanhol Paco Roca e percorre praticamente toda sua obra.

— O que me interessa na memória é que ela é o meio para refletirmos sobre nossa identidade e nos conhecermos melhor — esclarece o autor. — Todos nós acabamos tendo experiências sobre a perda. Não importa se essas histórias acontecem em Valência ou no Rio, nós entendemos perfeitamente essas emoções e as tornamos nossas.

'Regressso ao Éden' Autor: Paco Roca. Tradução: Jana Bianchi. Editora: Devir. Páginas: 176. Preço: R$ 105.