Pacote americano de socorro à economia equivale a quase 5% do PIB e acalmou mercados

João Sorima Neto

SÃO PAULO —As medidas de socorro à economia anuniadas pelo presidente Donald Trump, e que serão enviadas ao Congresso, mostram que o governo americano quer dar uma resposta fiscal e monetária forte diante de uma contração violenta que a atividade econômica deve enfrentar nos próximos meses, nos EUA e no mundo. Trata-se de um pacote que supera os US$ 787 bilhões gastos pelo governo de Barak Obama com a crise de 2008 e equivale a quase 5% do Produto Interno Bruto (PIB) americano.

— São medidas positivas no campo fiscal e monetário para lidar com a crise causada pelo coronavírus. A transferência de renda direta é dinheiro 'novo' e deve ser feita a trabalhadores que recebem salários por dia ou trabalham por conta própria. Ela é positiva e diferente do pacote brasileiro, que antecipou transferência de renda, adiantando recursos do FGTS ou do 13º salário a uma parcela da população - disse Alberto Ramos, economista para a América Latina, do banco Goldman Sachs.

O pacote de Trump também conseguiu acalmar momentaneamente o mercado, diz William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue Securities, em Miami. Hoje o S&P500 subiu 6%, o Dow Jones avançou 5,20% e o Nasdaq teve alta de 6,23%. Ele diz que a magnitude dos recursos é relevante e em conjunto com as demais medidas ajuda o mercado a 'ver uma luz no fim do túnel'.

— É quase 5% do PIB em medidas acontecendo nos próximos meses. Oferecer recursos diretamente às famílias é positivo. Desonerar folha, ou reduzir impostos pressupõe que o dinheiro ainda está fluindo na economia. Mas o que estamos prevendo é que não vai ter pagamento de imposto, já que empresas não vendem e não lucram - diz Alves.

Para Ramos, a transferência de renda direta é claramente positiva, mas terá que ser complementada por algum tipo de ajuda ao setor de serviços, especialmente os setores de aviação, turismo, hotelaria e transportes que estão sofrendo demais.

O professor de macroeconomia da Fipecafi, Silvio Paixão, avalia que as medidas têm potencial para injetar liquidez na maior economia do mundo, fazendo com que os efeitos negativos causados pelo coronavírus sejam amenizados. Para ele, o repasse direto de dinheiro às famílias é positivo, já que pelo menos 2/3 do PIB americano vem do consumo das famílias

— É um pacote que ajuda a retomar o fluxo de recursos na atividade econômica, que é o problema atual. É diferente da crise de 2008, quando havia perdas financeiras, por conta de papéis podres. E a postergação do pagamento de impostos mantém mais dinheiro em circulação. Se a Europa seguir a receita, acredito que em junho as coisas começam a se normalizar - diz Paixão.

Ele avalia que tanto o dinheiro 'novo' que o governo americano vai repassar às famílias, quanto a antecipação de recursos que o pacote anunciado pelo governo brasileiro vai fazer acabam tendo o mesmo efeito.

— O dinheiro vai para o bolso das pessoas. E elas vão consumir, comprar comida. É que a intensidade do pacote americano é maior - disse Paixão.

Para William Castro os recursos repassados às famílias ajudam a dar fluxo de caixa para evitar calotes. Mesmo que as pessoas sejam obrigadas a ficar em quarentena, o consumo básico de alimentos continua, diz ele. E há o comércio online.

Ele avalia que a recompra dos commercial papers pelo FED traz confiança de volta ao mercado de dívida, e segurança para que as empresas consigam emitir novas dívidas e com isso rolar débitos que estejam vencendo.

A diferença dos pacotes americano e brasileiro evidencia a diferença de tamanhos das duas economias, além da capacidade de reação, diz Castro.

— Enquanto o brasil apresentou R$ 147 bilhões, o pacote americano chega quase a US$ 1 trilhão, trinta e três vezes maior que o pacote brasileiro, que equivale a 2% do nosso PIB. Já o americano é de 4,7% do PIB deles. Além disso, é mais completo. Prevê o envio de recursos às pessoas diretamente; socorro a pequenas empresas e setores mais impactados; desoneração. O brasileiro foi essencialmente desoneração e liberação de recursos que já são dos trabalhadores (FGTS). Basicamente o estado mordendo menos - diz William.

Para Ernie Tedeschi, economista de políticas públicas da consultoria Evercore ISI, em Washington, a iniciativa do Fed de comprar notas promissórias de empresaa garante que elas obtenham o financiamento necessário para cumprir obrigações de curto prazo, como folha de pagamento.

— Muitas delas utilizam esse instrumento também como capital de giro - diz Tedeschi.

Para ele, essa decisão era necessária e já havia sido adotada na crise de 2008, o que ajudou a dar fôlego às companhias que enfrentaram queda de receitas.