Brigas, nunca mais: pacote anticrime reforça alinhamento entre Sergio Moro e Jair Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, participam do lançamento da campanha publicitária do Projeto Anticrime, do governo federal (Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil)


Não sei vocês, mas a mim não convencem, nem nunca convenceram, as notícias de bastidores sobre o estremecimento da relação entre Jair Bolsonaro e seu ministro da Justiça, Sergio Moro.

Minha suspeita não tem provas, mas algumas convicções. Uma delas é que um não estaria onde está sem o outro; e nenhum deles atravessará o rubicão até a 2022 sem a companhia do outro, seja por afinidade de ideias, seja por conveniência.

É uma simbiose com pé na lógica. Ninguém larga a magistratura por impulso em uma conversa-convite diante das câmeras. É uma decisão que demanda tempo de maturação e perspectiva de longo prazo, dessas que não costumam ser abortadas no caminho.

O salto não permite voltar atrás, e Moro sabe disso.

Bolsonaro, 29% de aprovação popular, segundo o Datafolha, também sabe que seu destino está atrelado ao do ex-juiz, que tem o trabalho no ministério aprovado por 54% da população. Quanto mais perto do subordinado, melhor para ele.

Em 30 anos de atuação parlamentar, Bolsonaro tomou o total de 0 medidas para combater a corrupção que tanto dizer combater; Moro mandou prender Lula e Eduardo Cunha, e isso é o suficiente para que, no imaginário popular, figure como herói em passeatas e bonecos infláveis. (Por mais que agradem à plateia bolsonarista-raiz, não dá para esperar o mesmo de Damares Alves ou Abraham Weitraub, o ministro da Educação que escreve "paralização" e "suspenção").

É possível que, em mais de nove meses de governo, alguns desencontros tenham resultado em esbarrões, mais ou menos como quando tentamos desviar de alguém e mudamos para o mesmo lado da rua ou do corredor.

Há, claro, sinais de desencontros - nenhum deles aparentemente capazes de transformar em ponto-e-vírgula as manifestações do presidente quando ele diz que quem manda é ele. Dali em diante, não há sinal, público ou velado, de insubordinação do ministro, nem mesmo quando o chefe decide bagunçar o tabuleiro que o ex-juiz montou, inclusive com indicações para conselho de segurança, chefia da polícia e órgão de controle.

Em todos os episódios, valeu a obediência: o que o chefe decidiu decidido está.

A fidelidade canina é, muitas vezes, compensada com biscoitos. No auge das revelações do site The Intercept Brasil, Bolsonaro levou seu ministro para ver jogo do Flamengo no Maracanã. O chefe ainda se referiu ao subordinado como patrimônio nacional e o citou como exemplo de patriotismo diante de sua maior plateia, a Assembleia Geral da ONU.

Leia mais no blog do Matheus Pichonelli

Poucos subordinados, em qualquer atividade profissional, teriam a mesma moral com o chefe.

O namoro voltou a ganhar afagos na quinta-feira, dia 3, durante a solenidade de lançamento do pacote anticrime, a menina dos olhos de Sergio Moro. O pacote foi turbinado com R$ 10 milhões para uma campanha publicitária com potencial de elevar a tensão entre a opinião pública e o Congresso, onde a proposta tende a emperrar, sobretudo em seus dois pontos principais: a prisão a partir da condenação em segunda instância e o alívio da pena para policiais que cometerem crimes sob "medo, surpresa e violenta emoção".

A campanha publicitária prevê a divulgação de peças, spots e cinco vídeos com depoimentos reais a serem veiculados no rádio, na TV, na internet e em outdoors.

O pacote dormitou na geladeira por alguns meses. A prioridade, afinal, era a reforma da Previdência. Na semana em que a reforma andou no Senado, o pacote foi finalmente apresentado ao público como a solução para todas as dores nacionais. A cerimônia serviu para reforçar os votos da união entre o bolsonarismo e o símbolo máximo da Lava Jato.

No evento, Bolsonaro não mediu palavras para dizer que, quanto mais autos de resistência tem um policial, maior o sinal de que ele trabalha.

Moro seguiu a linha: decretou que os tempos sem lei e sem justiça chegaram ao fim e que o Brasil não é mais um paraíso para criminosos.

Quem leu a notícia pelo jornal talvez tenha ficado em dúvida se chefe e subordinado falavam do mesmo país onde PMs são suspeitos de invadir um hospital para remover a bala que matou uma criança de oito anos que cometeu o crime de estar no colo de uma mãe em uma kombi no Rio.

De longe, a impressão é que o tal pacote anticrime já existe. Chama lei.