‘Padre das cracolândias’, italiano de 80 anos atua no Brasil no resgate de usuários de drogas e na prevenção ao vício

Levado por um ex-usuário de crack que havia sido resgatado por ele, o padre Renato Chiera pisou numa cracolândia pela primeira vez há mais de dez anos. Era a de Manguinhos, na Zona Norte do Rio. A frase “Bem-vindo ao inferno” num muro alertava: fumaça, sujeira, gente usando drogas e sem esperanças. Sensibilizado, o sacerdote saiu dali com a certeza de que alguma coisa precisava ser feita por aquelas pessoas e iniciava então um trabalho pioneiro, que o fez ficar conhecido como o “padre das ruas” ou “padre das cracolândias”. O trabalho se ramificou em outros estados, sobretudo do Nordeste e, com o auxílio de 250 de comunidades terapêuticas para reabilitação espalhadas pelo Brasil, acolheu mais de 5 mil pessoas só nos últimos três anos.

Às vésperas de completar 80 anos, na próxima quinta-feira, dia 21, o religioso, nascido em Piemonte, Itália, acaba de comemorar 44 anos de missão no Brasil — aonde chegou em 16 de junho de 1978 para um trabalh o missionário em Nova Iguaçu — e festejou, no dia 29, 55 anos de sacerdócio. A ação com os usuários de crack, comprometida pela pandemia, está voltando aos poucos. E esse é só um dos muitos trabalhos sociais desenvolvidos pelo padre, que têm o reconhecimento do Papa Francisco, com quem Chiera se encontrou em meados de maio, depois de uma viagem a Guiné Bissau, na África, onde implantou uma Casa do Menor, nos moldes da que criou na Baixada, há 36 anos.

O trabalho com crianças, adolescentes e jovens é a menina dos olhos do religioso, que acredita ser uma ação preventiva, devolvendo a essas pessoas o direito de sonhar com um futuro longe das ruas, das drogas e do crime. Foi atendendo ao que classificou como grito de socorro que, em 1986, surgiu o embrião da Casa do Menor São Miguel Arcanjo, no bairro Miguel Couto, em Nova Iguaçu, que, além de acolhida e alimentação em dois abrigos, oferece profissionalização em 12 cursos de barbeiro, cabeleireiro, informática, administração, recursos humanos, mecânica de automóveis, elétrica predial e outros.

— Anos antes, um menino de 17 anos apelidado de Pirata, que não tinha pai nem mãe, foi assassinado na porta da minha casa, em Cruzeiro do Sul. Eu havia acolhido ele na noite anterior, porque a polícia queria matá-lo. Ele já estava trabalhando como ajudante de pedreiro. A morte dele representou uma espécie de grito de que eu deveria fazer alguma coisa. Outro fato ocorrido em Miguel Couto, que também foi um grito, foi a morte de 36 crianças e jovens num espaço de um mês, em 1984, por grupos de extermínios. Um dos rapazes tinha vindo me pedir socorro dizendo que estava na lista para morrer. À noite, não consegui dormir e via o rosto do garoto, que se misturava ao de Jesus — contou.

Foram os próprios jovens — que buscavam abrigo na casa do padre, dormindo às vezes na garagem ou na varanda, para fugir do risco de serem assassinados — que batizaram o projeto de Casa do Menor. Deu-se início então a um trabalho de acolhimento institucional para os que não tinham família ou lar e de alfabetização.

Abrigos para além do Rio

O projeto Casa do Menor foi crescendo e, em pouco tempo chegou a dez abrigos e extrapolou os limites do Rio, chegando a Fortaleza, Alagoas e Paraíba.

Isaías Ribeiro de Araújo, de 22 anos, viveu nas ruas da capital do Ceará até os 6 anos, quando foi acolhido na Casa do Menor local. Depois de quatro fugas, desistiu de brigar contra o destino. Hoje, trabalha na sede, em Nova Iguaçu, onde ajuda na captação de recursos para projetos do padre e sonha em ser também missionário:

— Meu sonho é me tornar sacerdote e continuar esse trabalho. Se não fosse pela Casa do Menor, eu não seria a pessoa que me tornei — diz o jovem, há três anos na unidade da Baixada.

Ali, Isaías já foi pai social e dá aulas de percussão. Depois de ter aprendido a cortar cabelo, aprendeu a fotografar. A sede atende cerca de 700 alunos por semestre, que são estimulados a abrir o próprio negócio ou encaminhados como jovem aprendiz a uma das 10 empresas parceiras. Jéssica da Mata, de 21 anos, faz o curso de barbeiro:

— Pretendo trabalhar por conta própria, montando um salão na minha casa.

‘Alternativa a massacre’

Segundo o padre Renato Chiera, na visita à cracolândia, há dez anos, ouviu um segundo grito de socorro. Atualmente seu trabalho nessa área se concentra em Del Castilho, na comunidade Bandeira 2, surgida sob um viaduto e junto à linha do trem; na Avenida Brasil, em Manguinhos, na Maré e na Central, além de Nova Iguaçu. Nesses lugares é respeitado pelos usuários de crack, que o chamam carinhosamente de “pai”.

Ele diz que primeiro faz uma abordagem amigável para conquistar a confiança. Os que buscam recuperação são encaminhados para as comunidades terapêuticas, uma delas fica em Tinguá e tem capacidade para 50 pessoas. Mas uma rede no Brasil, formada com ajuda de comunidades religiosas, abriga os que não encontram vaga ali.

— Nossa experiência com os excluídos nos ensina muita coisa. É a alternativa ao massacre dos jovens. Temos alternativa à adesão ao narcotráfico e à violência — diz o padre sobre o trabalho desenvolvido e que acaba de abrir mais um frente ao criar uma casa para abrigar mulheres venezuelanas que vieram para o Rio em busca de oportunidades e foram parar nas ruas.

Formado em filosofia com orientação psicológica na Universidade Católica de Milão, o padre se inspirou na frase que viu pichada no muro há mais de dez anos, em Manguinhos, para dar título a um de seus três livros publicados. Na publicação, lançada em 2015, “Presença no inferno: nas ‘cracolândias’, do Rio de Janeiro”, ele relata sua experiência com os usuários.

O trabalho dele é mantido basicamente por doações. O custo mensal é de R$ 700 mil, sendo a metade em salários. Quem quiser ajudar os projetos da Casa do Menor pode ligar para (21) 96408-1407 ou (21) 98719-3997 ou escrever para o e-mail doar@casadomenor.org.br.

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