Padre relata ser ameaçado de morte após alugar salão de paróquia para festejar aniversário de Lula

O padre Volnei Luiz Weber, da Paróquia São José Operário, da Diocese de Rondonópolis, no Mato Grosso, relata ter sofrido ameaças de morte e ataques nas redes sociais depois de alugar o salão de eventos da igreja para uma equipe local do Partido dos Trabalhadores (PT). O grupo afiliado locou o espaço para comemorar o aniversário do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na quinta-feira, embora o petista não fosse para lá.

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O pároco, que administra a igreja há quatro anos, registrou um boletim de ocorrência na quarta-feira. Ao GLOBO, ele contou que foi procurado por membros do partido na segunda-feira e que na ocasião negociou o aluguel do espaço por R$1.200. Na mesma noite, postagens em redes sociais começaram a aparecer, mostrando revolta.

"Triste realidade, disponibilizar o salão paroquial para esse tipo de evento", comentou uma internauta ao compartilhar o post.

Segundo o padre, a festa de comemoração fazia parte de uma celebração nacional a Lula e era organizado por partidos e movimentos sociais. Por conta dos ataques e ameaças, o evento foi cancelado e a locação retirada. Mesmo assim, Weber continuou sendo atacado.

— Começaram a ligar para a igreja e a me ameaçar. A maior parte da população aqui da cidade vota no (Jair) Bolsonaro (candidato à reeleição pelo PL). Acredito que se fosse uma festa para ele, não teria tido nenhuma reação. Eu fiquei com medo dos ataques. Alegaram que a igreja tomou partido. Eu nunca declarei meu voto abertamente. É claro que eu tenho minha preferência, mas faltou tolerância por parte das pessoas — afirma o padre que se mantem afastado dos eventos paroquiais.

O espaço de 40 metros quadrados é constantemente utilizado para eventos políticos, aniversários, casamentos e cerimônias. Segundo o padre, durante a campanha do primeiro turno, o prefeito de Rondonópolis, José Carlos Junqueira (Solidariedade), reservou o salão para uma festa de campanha da esposa, conhecida como Dona Neuma, que na época era candidata da deputada federal pelo PSB, mas que não foi eleita.

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Devido às ameaças, a paróquia decidiu cancelar o contrato de locação. O padre explicou que algumas pessoas ligaram e disseram que, se o evento fosse realizado na igreja, iriam até o local e fariam um ato de protesto.

— Disseram que eu tinha que ser metralhado. Um senhor que frequenta a paróquia me ligou e disse que não concordava com a locação desse espaço para evento do Lula porque ele era a favor do aborto e da ideologia de gênero. Disseram que eu tinha que ir embora, que não poderia ficar mais aqui — completou.

Uma carta de repúdio aos ataques foi publicada no perfil do Facebook da igreja pelo bispo Dom Mauricio da Silva Jardim, que administra as Dioceses da região. Um trecho do documento agradecia as mensagens de apoio e comunicava o rompimento do evento.

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"Diante da repercussão nas redes sociais sobre o contrato de aluguel firmado pela Paróquia São José Operário, da cidade de Rondonópolis, comunico que, após um diálogo fratemo e respeitoso com o Pe. Volnei Weber, decidimos romper o contrato para garantir a comunhão que nos identifica como cristãos católicos. Expresso minha gratidão pela alegria com que me acolheram", dizia o documento.

A Polícia Civil do Mato Grosso abriu um inquérito para apurar as ameaças, mas não deu detalhes do andamento. Em nota, disse que "como previsto na legislação, é necessário que a vítima se manifeste pela representação para que a investigação tenha sequência, uma vez que se trata de crime de âmbito privado".

A missa que será realizada no domingo, dia da eleição, não foi cancelada. No entanto, padre Weber informou que por medo de sofrer retaliações e ataques, dependendo do resultado, pediu que as celebrações sejam conduzidas pelo padre adjunto Marco Antônio.