Padre Zezinho volta às redes e defende 'católico de verdade' após ataques bolsonaristas

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Padre Zezinho está de volta. Um dos grandes nomes da música católica, o sacerdote anunciou no dia 12 de outubro, feriado de Nossa Senhora Aparecida, que deixaria as redes sociais até o fim do segundo turno.

Explicou-se à época: "Cansei de abrir espaço para católicos superpolitizados, irados e insatisfeitos com nossa igreja".

Zezinho retornou às redes no dia seguinte à eleição. Em entrevista à Folha, ele fala sobre seu silêncio temporário, cala sobre preferências políticas e, mesmo sem dar nomes, faz críticas veladas a Jair Bolsonaro (PL), o político que escolheu como lema "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos".

"Eu não sou petista, mas também não sou direitista", diz. "Acho que uma urna eletrônica não pode separar quem é católico de verdade. A fila para votar não pode valer mais do que a fila de comungar. A César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. E alguns católicos puseram seus líderes políticos de outubro acima do líder Jesus de sempre. Não se troca Jesus por nenhum líder ou partido político!"

Ele conta que testemunhou apoiadores de Bolsonaro causarem balbúrdia na parte externa do Santuário Nacional de Aparecida, alguns deles com cerveja na mão. Bolsonaristas que lá foram para ver o presidente em campanha pela reeleição hostilizaram um homem de camisa vermelha.

Também houve hostilidade contra jornalistas, padres e o arcebispo de Aparecida -dom Orlando Brandes foi vaiado inclusive quando defendeu ser preciso "garantir que nenhuma criança passe fome".

Zezinho definiu os desordeiros como "agitadores disfarçados de católicos".

"Eu estive lá. Vi tudo acontecer", afirma. "Fiquei distante por conselho dos organizadores. Eles perceberam que um grupo provocou. Eram dois grupos. Um rezava o terço enquanto os sinos tocavam, e outro gritava se um dos padres pregava o rosário das 15h. Não me contaram. Eu vi!"

O pioneirismo no cancioneiro cristão, inspiração para os padres Marcelo Rossi e Fábio de Melo, lhe deu visibilidade pública nas últimas décadas. Zezinho diz acreditar que sua função é serenar ânimos, daí sua decisão de pausar sua rotina virtual.

"Devo apaziguar e não atiçar mais carvão na fornalha política daquela hora. Um grupo foi lá para confrontar. Não acho que foi o presidente, mas aquele grupo que não passou de 60 pessoas quis causar e causou. Eram agitadores disfarçados de católicos. Católico de verdade não faz o que eles fizeram."

No texto em que publicizou sua saída temporária do Facebook, Zezinho alvejou a polarização instalada na disputa entre Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

"Não querem catequese, nem o [Concílio] Vaticano 2º, nem os documentos da CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil], nem nenhuma orientação social e espiritual", escreveu. "Já escolheram ser catequizados por dois poderosos políticos brasileiros. Meus 81 anos, meus 56 anos de padre, meus 102 livros, minha cultura religiosa, minhas mais de 2.000 canções nada dizem para eles. Insistem que não lhes sirvo mais como padre e pregador para eles."

O padre que conheceu quatro papas explica à reportagem por que fechou seu perfil virtual até o fim do pleito que acabou consagrando Lula. A própria página havia virado uma zona de guerra entre seguidores com pensamentos políticos distintos.

"Tenho mais de 3 milhões de leitores. Entendi que o confronto e as agressões verbais em tempo de eleição só jogariam meus leitores um contra o outro. Um padre não deve se prestar a esse tipo de comportamento. Se eu silenciasse não haveria mais agressões. E foi o que aconteceu."

Sua missão, passado o período eleitoral, é pacificar a relação entre divergentes "na base do diálogo", diz o clérigo, que em 2023 lançará o livro "Espiritualidade Conciliadora". "Seu lado venceu: respeite o outro. Seu lado perdeu: respeite o outro."

Zezinho não revela em quem votou por crer que isso atrapalharia seu trabalho sacerdotal. "Levo a sério o segredo. Todos deveriam fazer o mesmo."

Pouco após retomar a atividade online, postou uma foto com o padre Júlio Lancellotti, que coordena a Pastoral do Povo de Rua em São Paulo. Para muitos bolsonaristas, um esquerdista de batina.

Assim Zezinho descreveu o retrato com Lancellotti que compartilhou dois dias após o segundo turno: "Quando aquela urna eletrônica vale mais do que aquela fila de comunhão". Disse então ser "triste ler que um sacerdote ou pregador da fé e da fraternidade foi rejeitado por tal piedoso fiel, porque tal piedoso fiel acha que seu sacerdote votou no 22 ou no 13!".

"A legenda veio de uma visita que fiz ao meu amigo de longa data, um padre que admiro por sua coragem", diz. "Fui lá apoiá-lo porque ele, como eu, fomos agredidos com calúnias e palavrões de gente que se proclama 'católica'. Se atacavam até o papa Francisco, eles são capazes de tudo para vencer."

O pontífice chegou a entrar na mira de bolsonaristas por postagem em que pedia a Deus bênção abundante "àqueles que dividem o pão com os famintos". Foi acusado de ser comunista.

Perto do segundo turno, Francisco divulgou mensagem ao Brasil com uma súplica à Nossa Senhora Aparecida: "Que proteja e cuide do povo brasileiro, que o livre do ódio, da intolerância e da violência". Novamente, partidários de Bolsonaro enxergaram ali um aceno à esquerda.