Paes diz que GPSs mostram que BRT vem diminuindo a frota em janeiro: 'Não quero acreditar que haja operação tartaruga'

Arthur Leal
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Domingos Peixoto em 14-1-2021 / Agência O Globo

RIO — No mesmo dia em que o consórcio BRT Rio anunciou que vive a pior crise desde o início de sua operação na cidade, o prefeito Eduardo Paes também usou as redes sociais, neste sábado, para revelar que a prefeitura vem fazendo um levantamento baseado no monitoramento dos ônibus por GPS. De acordo com Paes, o acompanhamento feito durante o mês de janeiro mostra que há uma queda contínua no número de carros do BRT rodando em horários de pico, o que, segundo o chefe do executivo municipal, não é justificado mesmo com as dificuldades enfrentadas pela concessionária que administra o serviço.

"Colocamos para funcionar todos os GPS de ônibus e BRTs da cidade (medida que implantamos na licitação de 2010) e agora fazemos acompanhamento online do comportamento da frota que está operando", escreveu Paes.

"Esse acompanhamento nos dias úteis de janeiro aponta p (para) uma queda contínua da quantidade de ônibus operando. Os dias de maior reclamações dos usuários (13 e 25/01) correspondem aos dias em q a frota operante esteve no seu nível + baixo no pico da manhã nas últimas 2 semanas", acrescentou.

O prefeito concluiu, afirmando que não quer imaginar que haja uma espécie de "operação tartaruga" por parte do consórcio.

"Os dados sugerem q há viabilidade de oferecer melhores condições de serviços mesmo na condição atual de baixa qtde de frota disponível. Os dados foram apresentados p o BRT Rio q alega alta ocorrência de quebra de ônibus e incapacidade financeira de fazer manutenção da frota. Não quero imaginar que haja uma espécie de "operação tartaruga" com o objetivo de criar dificuldades p o atendimento a população e pressionar o poder público. Estamos atentos".

A Secretaria Municipal de Transportes (SMTR) e o BRT Rio vêm se reunindo pelo menos uma vez por semana desde o início da gestão de Paes. O último encontro aconteceu na última sexta-feira (29). Na reunião, a prefeitura cobrou melhorias na operação, levando em consideração a frota atual. Uma nova reunião está marcada para a esta semana, quando novamente serão discutidas soluções entre as partes.

Sem dinheiro para salários e até para combustível, diz consórcio

Procurado pela reportagem, o consórcio BRT Rio reforçou que "atravessa a sua mais grave crise econômico-financeira". A empresa, que fala em prejuízo de mais de R$ 200 milhões desde o início da pandemia, elenca uma série de problemas, que, segundo ela, são principais responsáveis pela situação atual do serviço:

"A Covid-19 veio agravar e acelerar uma realidade que já vinha sendo impactada pelo congelamento da tarifa há dois anos, pela expansão do transporte clandestino por vans e do transporte por meio de aplicativos, pela concessão de gratuidades sem fonte de custeio, entre outros fatores", disse em nota.

De acordo com o BRT Rio, o valor arrecadado com as passagens não tem sido suficiente para suportar os custos com a folha de pagamento, principais insumos e impostos.

"Diante disso e, mesmo com o grande esforço de seus colaboradores, o BRT Rio vem anunciar publicamente que não tem, infelizmente, recursos para honrar seus próximos compromissos prioritários, como o pagamento da segunda parte do salário de janeiro — em 5 de fevereiro — e a compra de insumos necessários à operação, como combustível, por exemplo".

Segundo dados divulgados pela concessionária, nos primeiros meses da pandemia do novo coronavírus, quando houve maior adesão ao lockdown, o BRT Rio trabalhou com queda de até 75% no número de passageiros. Hoje, quase um ano depois, a empresa diz que a queda de passageiros está em torno de 45% em relação à normalidade. Apesar disso, o cotidiano das principais estações de BRT mostra muita aglomeração dentro e fora dos modais e reclamações de usuários, tanto acerca da espera por ônibus, quanto em relação à lotação.

A concessionária, que afirma não ter recebido ajuda por parte do governo municipal, "apesar de diversas sinalizações sobre desequilíbrio econômico no sistema", afirmou ainda que, a partir de um acordo assinado com o Sindicato dos Rodoviários do rio, adotará, em fevereiro e março, um sistema de rodízio entre os funcionários, com dispensa de até dez dias e a equivalente redução salarial. A solução é parecida com a encontrada no ano passado, quando a empresa aderiu à MP 936, do governo federal, quando, segundo o BRT, "a medida deu um fôlego emergencial à empresa, mas não foi suficiente para conter o desequilíbrio financeiro".

'Bagunça entre prefeitura e consórcio', diz sindicato

Após a divulgação feita pelo BRT Carioca acerca da crise financeira, o Sindicato dos Rodoviários também se manifestou, já neste domingo, dizendo que a situação vem preocupando a categoria. Sebastião José, presidente do órgão, disse que as justificativas em nada dizem respeito aos trabalhadores, mas sim ao Poder Público. Já a possibilidade de atraso do pagamento de salário da categoria, ele considera "uma total discordância" com o acordo assinado no fim do ano passado; para Sebastião, o sindicato não tem elementos nem conhecimento técnico para avaliar a crise que o setor diz estar atravessando, o que seria uma competência somente da prefeitura e da Secretaria de Transportes com os técnicos do BRT:

— Nossa maior preocupação hoje é com os profissionais da categoria e com os usuários, que poderão sofrer diretamente as conseqüências de uma possível paralisação. Que fique claro que não podemos ser responsabilizados por essa bagunça entre a prefeitura e o consórcio, somente ela pode dar uma resposta para a sociedade e não a categoria. Se há esse colapso que a direção do BRT diz existir, não adianta nos chamar para apresentar dados sobre a situação; o que queremos e cobramos é que o pagamento dos profissionais seja feito em dia, pois sem salário ninguém pensa direito — explicou.

Para o presidente do sindicato, também não é justo tentar convencer os profissionais da crise, pedindo solidariedade para que abram mão do salário, ficando dez dias em casa sem remuneração, para contribuir com a sobrevivência do setor.

— A prefeitura precisa vir para esse debate com vontade de resolver o problema e não colocar os trabalhadores como bode expiatório. Queremos sim que os empresários divulguem esses dados, e que a prefeitura assuma o papel dela e resolva essa situação para não prejudicar a categoria e principalmente os milhares de usuário do modal — concluiu Sebastião José.