Paes reconhece erros e faz concessões a direita e esquerda em propostas no Rio

ANA LUIZA ALBUQUERQUE E ITALO NOGUEIRA
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*ARQUIVO* RIO DE JANEIRO, RJ, 19.08.2016 - Eduardo Paes. (Foto: Ricardo Borges/Folhapress)
*ARQUIVO* RIO DE JANEIRO, RJ, 19.08.2016 - Eduardo Paes. (Foto: Ricardo Borges/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O ex-prefeito Eduardo Paes (DEM) mudou de posição sobre pontos da gestão da Prefeitura do Rio de Janeiro em suas propostas nesta eleição, comparado às práticas que adotou em seus dois mandatos anteriores.

Paes reconheceu erro na opção por construir moradias populares longe do centro, defendeu armar um setor da Guarda Municipal após rejeitar a proposta por oito anos, e prevê reduzir o espaço de organizações sociais na saúde.

Ele também se comprometeu a aumentar a presença de negros em seu primeiro escalão, em comparação à sua primeira passagem na prefeitura.

As mudanças atendem tanto a um eleitorado de direita como de esquerda. Uma das estratégias da campanha do candidato do DEM é apresentar-se como um nome sem vinculação imediata a nenhum dos campos políticos.

Paes nega se tratar de uma concessão para atender aos eleitores de diferentes orientações ideológicas.

"Não há qualquer concessão, muito menos à direita ou à esquerda. São pontos de vista sobre a cidade", afirmou ele.

O ex-prefeito diz que pretende armar o que chama de "um grupo de elite muito bem treinado" para usar armas letais. O objetivo, segundo ele, é que elas sejam usadas em situações ou áreas específicas -sem detalhar o critério para uso.

"Entendi que o protagonismo da Guarda Municipal na segurança deve ser maior. Mas quando falo de armamento, refiro-me a um grupo bem preparado e treinado para tal", disse ele.

Ao longo de seus dois mandatos, o ex-prefeito foi pressionado em diferentes momentos de crise na segurança pública na cidade a armar a Guarda. Ele sempre se posicionou de forma contrária.

"Sempre fui contra armar a Guarda Municipal e continuo sendo. Não precisa botar mais gente com arma na rua, precisa de gente com mais inteligência. Não precisamos de mais uma polícia", disse ele à agência Efe em 2015.

A nova posição se assemelha à do adversário no segundo turno, o prefeito Marcelo Crivella (Republicanos), e o deputado bolsonarista Luiz Lima (PSL), derrotado no primeiro turno. As deputadas Martha Rocha (PDT) e Benedita (PT) não defendiam armar os agentes municipais.

As principais mudanças que já apresentou, porém, atendem à esquerda do eleitorado. Numa sabatina com entidades da sociedade civil promovido pela Casa Fluminense, Paes chegou a chamar o encontro de "DR [discussão de relacionamento] para assumir erros".

Paes reconheceu como um deles o fato de ter construído a maior parte das unidades de Minha Casa, Minha Vida na zona oeste, áreas distantes do centro e com pouca infraestrutura.

Ao longo de seu mandato, urbanistas sempre fizeram críticas à iniciativa. Paes afirmava que era o local com áreas disponíveis para construção. Agora, afirma ser necessário "forçar a mão para as moradias no centro".

"Ficou claro que a expansão dessas unidades para as áreas menos infraestruturadas da cidade aumenta o custo da cidade e os custos de mobilidade. Havia uma demanda grande por habitação à época", disse o candidato do DEM.

Do ponto de vista identitário, Paes reconheceu ter dado pouco espaço a pessoas negras em seu secretariado.

"Na questão de gênero a gente já avançou muito mais do que na questão racial. Passei marginalmente nessa questão. Vamos ter política afirmativa já no primeiro escalão. Não quero dizer um número x, y. Mas vou buscar nos secretários, no primeiro escalão, olhar nessa questão", afirmou ele, na Casa Fluminense em outubro.

O ex-prefeito também disse, em outras ocasiões, que pretende reduzir o espaço das organizações sociais na saúde, uma espécie de terceirização criticada por sindicatos do setor.

"Desde o segundo governo já vinha percebendo que as organizações sociais poderiam criar problemas. Expandimos muito a rede. Por isso, criei já em meu segundo mandato a [fundação] Rio Saúde. Essa opinião já tenho desde o meu segundo mandato", disse Paes.

A rejeição ao presidente Jair Bolsonaro e ao seu candidato no Rio de Janeiro, Crivella, fez com que Paes obtivesse o "apoio crítico" de lideranças de esquerda na cidade. O ex-prefeito, contudo, não pretende se transformar num candidato desse campo, a fim de evitar a rejeição de eleitores conservadores.

A demarcação ideológica será uma estratégia do atual prefeito, que pretende obter apoio mais expressivo do eleitorado evangélico, o que ainda não tem. Simulação do segundo turno divulgada pelo Datafolha no sábado (14) mostra que os dois dividem a preferência desse grupo.