Pagode pra valer: biografia do grupo Fundo de Quintal será lançada nesta segunda

“Só o samba faz a tristeza se acabar / Só o samba é capaz desse povo alegrar...”. Composição de Arlindo Cruz e Sombrinha, “Seja sambista também” é a canção eleita por Marcos Salles, autor da biografia “Fundo de Quintal — O som que mudou a história do samba” (Editora Malê), como a música mais emblemática do repertório do longevo grupo que nasceu em 1980, na quadra do Cacique de Ramos. Naquele tempo, na Rua Uranos 1.326, havia um jogo de futebol nas noites de quarta-feira. Para os menos habilidosos com a bola, a opção era o carteado. Lá pelas tantas, os instrumentos musicais, como num passe de mágica, multiplicavam-se. Era o bastante para rolar, literalmente, um pagode da maior qualidade.

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Logo um time de craques se formou. Ou melhor. Uma verdadeira seleção. A primeira formação do Fundo de Quintal era composta por Bira Presidente, Ubirany (1940-2020), Sereno, Sombrinha, Almir Guineto (1946-2017), Jorge Aragão e Neoci (1937-1988). Bastou a gravação do álbum de estreia, naquele mesmo ano, para a história do samba ser dividida em a.F.Q.. (antes do Fundo de Quintal) e d.F.Q.. (depois do Fundo de Quintal). Com 444 páginas, o livro que registra toda a história desta verdadeira enciclopédia do gênero musical mais popular do Brasil será lançado nesta segunda-feira (23), às 18h, na Blooks Livraria, na Praia de Botafogo 316.

A obra do escritor e produtor musical, morador de Vila Isabel, é um registro das memórias do grupo que atravessa gerações sem jamais perder a majestade.

— O Fundo de Quintal nunca vai morrer. Faço esta afirmação com tranquilidade porque este é, sem dúvida alguma, o maior grupo de samba do país. Ao longo do tempo, eles têm um repertório forte, além de instrumentistas e cantores sensacionais. A primeira formação foi fora de série, mas as outras mantiveram o mesmo nível. Só para se ter uma ideia, quando o Jorge Aragão saiu, o Arlindo Cruz entrou no lugar. Este livro é um registro cultural — diz Salles.

Registro este marcado por uma luta contra o preconceito. Na década de 1980, as rádio FMs, que ditavam o que seria sucesso, não tocavam samba, assim como as emissoras de TV não cediam espaço em sua programação para este gênero musical.

— O Fundo de Quintal quebrou barreiras e abriu portas para os que vieram depois. Ainda assim, o grupo não tem o reconhecmento que merece. Entre músicos e fãs é muito festejado, mas ainda tem críticos que tratam o samba como sinônimo de carnaval ou algo folclórico. Se o Fundo de Quintal fizesse parte da história musical de um país que valorizasse a cultura, seria visto como um fenômeno. Infelizmente, aqui só se valoriza, se homenageia, quando se morre. Não é um lamento, um choro, é a realidade. O livro é importante justamente para reunir todas as histórias do grupo num só lugar — ressalta o escritor.

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O desejo de fazer este registro histórico veio à cabebça de Salles em 2017.

— Esta ideia veio do nada. Outros biógrafos já tinham tentado contar a trajetória do grupo, mas os integrantes não autorizaram. Felizmente, toparam comigo. A primeira entrevista, de um total de 161, foi com o Bira Presidente, que segue na ativa aos 85 anos. Terminei de escrever em 2020, mas o Ubirany morreu em dezembro daquele ano, e tive que colocar no passado tudo o que ele tinha me dito. As partes mais difíceis de escrever foram as mortes e as doenças. Durante todo o processo deste trabalho, eu acordava de madrugada com coisas que vinham na minha cabeça que não podiam ficar de fora do livro. Eu levantava, pegava um papel e escrevia. Sabia que não podia esquecer de nada, de ninguém. Reli o livro algumas vezes e, modéstia à parte, gostei do resultado. Está bem completo — garante o produtor musical, que disponibiliza o perfil @sallestur, no Instagram, para contato.

Antes de começar a pensar em fazer este trabalho, Salles nunca havia sonhado ser um escritor.

— Sou jornalista, fotógrafo, produtor musical, mas nunca tinha cogitado ser escritor. Talvez por ser fã do Fundo de Quintal desde 1980, por ter frequentado os pagodes de quarta-feira no Cacique de Ramos e por ter trabalhado na produção de discos deles, senti essa vontade. Com isso, acabei me tornando um escritor. Investi tempo e dinheiro neste projeto, que acredito ser uma contribuição necessária para a história do samba — observa.

“Fundo de Quintal — O som que mudou a história do samba” é a primeira biografia de outras que já estão em fase de produção.

— Estou fazendo entrevistas para os livros que vão contar a trajetória de grandes nomes da música e do samba, como Sombrinha, Arlindo Cruz, Almir Guineto (ex-Fundo de Quintal), Jovelina Pérola Negra, maestro Ivan Paulo e o produtor musical Milton Manhães. O próximo a sair do forno deve ser o do Arlindo, mas ainda não tem previsão de lançamento. Estou me dedicando muito para fazer esses outros registros históricos — frisa.

Até porque o show, seja ele qual for, tem que continuar.