Pai do 1º paciente com Covid que morreu à espera de UTI em SP também entra na fila por leito

DHEIGO MAIA
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GONÇALVES, MG (FOLHAPRESS) - Faz 11 dias que Valmírio Lopes Cardoso, 49, perdeu seu único filho, Renan Ribeiro Cardoso, 22, para a Covid-19. O jovem foi o primeiro paciente contaminado pelo coronavírus a morrer na fila de espera por um leito de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) na cidade de São Paulo. Sem ainda nem ter conseguido processar o luto, agora quem batalha pela vida na fila por uma unidade especializada de internação é Valmírio. Segundo a família, Valmírio deu entrada no Hospital Municipal Santa Marcelina- Cidade Tiradentes, por volta das 15h40 desta terça-feira (23). Ficou internado sobre uma cadeira de rodas até as 13h30 desta quarta (24). Ele foi levado ao hospital da zona leste da capital paulista ao sentir muita falta de ar, o que o impedia até de falar, por causa da Covid-19. O sobrinho do paciente, Paulo Henrique Marques Lobato, 27, diz que achou uma maca vazia na unidade hospitalar e a cobriu de papel para o tio usá-la numa sala de observação durante a espera pelo leito de UTI. Dias depois de perder o filho, Valmírio já apresentava sintomas da Covid-19. Ele fez um exame cujo resultado confirmou a suspeita. Miro, como é conhecido entre amigos e familiares, tinha muito contato com o filho Renan. Pai e filho mantinham uma pizzaria no bairro Recanto Verde do Sol, no extremo da zona leste da capital paulista. Nesta quarta, a família recebeu a informação do Hospital Santa Marcelina-Cidade Tiradentes que Valmírio precisava de uma UTI porque o quadro de saúde dele havia piorado. “Os pulmões dele já estão 50% comprometidos”, disse Lobato à reportagem. “A médica falou que aqui [Cidade Tiradentes] não tem leito disponível nem na enfermaria.” Valmírio, assim como o filho, teve o seu nome inserido na Cross (Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde), que faz a triagem de leitos disponíveis. Procurada, a Secretaria de Saúde da gestão de Bruno Covas (PSDB) disse que o paciente realizou os exames laboratoriais e a tomografia computadorizada de tórax. "Nesta tarde, foi transferido para o Hospital Geral de Guaianases, referência para o atendimento dos casos de Covid-19 na zona leste, para continuar o tratamento", disse, por nota, a secretaria. A pasta, no entanto, não informou se Walmírio foi hospitalizado numa UTI. A única boa notícia entre os Cardoso, até o momento, é sobre o estado de saúde da mãe de Renan, a dona de casa Maria de Jesus Ribeiro de Andrade, 56. “O teste dela para Covid-19 deu negativo”, informou Lobato. Nesta quarta, o estado de São Paulo atingiu a marca de 30.359 pessoas internadas com Covid-19, sendo 12.588 pacientes em leitos de UTI e 17.771 em enfermaria. A taxa de ocupação de UTI no estado bateu recorde, com 92,3%; e de 92,2%, na Grande São Paulo. 46 HORAS DE AGONIA POR UTI O jovem Renan perambulou por várias unidades de saúde antes de se internar no Pronto Atendimento São Matheus II, também na zona leste, por volta das 19h do dia 11 deste mês. Ele aguardou 46 horas na fila de espera por uma UTI, mas seu quadro de saúde piorou e ele morreu no dia 13, sendo o primeiro paciente com Covid-19 a falecer por falta de estrutura de atendimento na cidade mais rica do país. O documento que relata a internação de Renan mostra que a equipe médica inseriu o nome dele na Cross no dia 12 em busca de um leito disponível. “Devido à não melhora do quadro e prevendo uma possibilidade de complicação, inerente ao quadro de Covid-19, iniciamos a busca por um leito de internação”, escreveu Phelipe Camarinha, o coordenador médico do São Matheus II, no relatório da internação do paciente. Por volta das 16h do dia 13, sua saturação tinha atingido 77% mesmo com o uso de oxigênio. Camarinha relata que não havia, naquele momento, ventiladores disponíveis na unidade e que a central de regulação foi novamente acionada para remover Renan para um hospital que tivesse o equipamento. Em 15 minutos, a unidade conseguiu o ventilador mecânico, mas não a vaga de UTI. A piora do quadro clínico do jovem aumentou e, na sequência, o paciente apresentou uma iminente insuficiência respiratória. A equipe médica relata que conseguiu falar com o paciente e o pai dele e, naquele momento, foi indicada uma intubação orotraqueal (introdução de um tubo para levar oxigênio a partir da traqueia). Às 16h20, Renan foi levado para a sala de urgência, onde foi monitorado, sedado e intubado. O ventilador mecânico foi acionado, mas o jovem teve uma parada cardiorrespiratória. Em desespero, a equipe médica iniciou manobras de ressuscitação, mas já era tarde. Renan faleceu às 17h19, numa batalha inglória de 46 horas por um leito de UTI. Dezenove minutos após o óbito, o leito que Renan aguardava surgiu, mas o próprio médico que atendeu o jovem respondeu, com frustração: infelizmente sem tempo hábil para o nosso paciente.