Pai de Cristiano Araújo fala sobre músicas inéditas do cantor e que gostaria de ver Caio Castro interpretando o filho nos cinemas

No fim desta entrevista, o pai do cantor Cristiano Araújo, João Reis, faz um pedido especial e bastante específico. Ele ressalta que sempre fala do filho no tempo presente e que só quer se lembrar dele com vida, pedindo que esta reportagem não utilizasse o termo que comumente define o falecimento de alguém: “Nunca gostei da palavra, e agora muito menos”. Durante a conversa, ele se referia ao acidente de carro que vitimou o cantor e sua namorada, Allana Moraes, em junho de 2015, como “o acontecido”. Essas são algumas maneiras que João encontrou de lidar com o luto e amenizar a perda. Sete anos depois da partida de seu herdeiro deste plano, ele ainda não consegue ouvir as músicas de Cristiano e muda de estação quando toca uma canção dele no rádio. Abriu uma exceção apenas para escutar as dez gravações inéditas que o astro sertanejo deixou gravadas. A primeira delas é lançada nesta quarta nas plataformas digitais e se chama “Por que”.

— Foi muito difícil. Na primeira vez, fui ao estúdio e ouvi uma música só, aí já tive que ir embora. Mas voltei outras vezes. Ouvir a voz dele solo, sem nenhum instrumento, é muito cruel. Quando começamos a produzir, eu me acostumei. Nessa hora, não podemos pensar só em nós, o legado dele tem que permanecer para sempre. Por isso, criei coragem e fui lá — resume o patriarca, que sempre acompanhou Cristiano em sua carreira e hoje é sócio do escritório que cuida do cantor Felipe Araújo, seu outro filho famoso.

Sobre as outras nove músicas ainda inéditas, João conta que elas terão participações de artistas como Zezé Di Camargo, Jorge (da dupla com Mateus), o irmão Felipe e o próprio pai, acrescentadas após a perda do sertanejo. Cinco dessas canções estão previstas para saírem num EP em janeiro, mês do aniversário de Cristiano. As outras quatro músicas ainda não têm data.

— Gravei a voz com toda a dificuldade. Quando a gente faz em estúdio, é mais fácil, porque você pode parar e voltar. Tive que parar muito nessa. Nossa! — recorda o pai, de 62 anos.

Logo depois da partida do filho, João soube das músicas prontas, mas aguardava que contratos com outros empresários não estivessem mais vigentes para prosseguir com os lançamentos. O produtor Blener Maycom, que tinha as gravações em seu estúdio, também havia prometido que só as passaria para João, como um presente. Atualmente, é o pai de Cristiano quem detém os direitos das obras, junto com os filhos do artista, Bernardo e João Gabriel, de 9 e 13 anos. Algumas das novas faixas são canções conhecidas do público, mas que nunca foram ouvidas na voz do sertanejo. O material é resultado de momentos descontraídos do cantor, que gostava de cantar no estúdio para se divertir.

— Os fãs me cobram muito nas redes sociais. Eu era a primeira pessoa que queria lançar, até para matar as saudades do público. Cristiano sempre valorizou muito seus admiradores. Atendia 300, 400 pessoas depois dos shows. Não admitia ficar fila de gente no camarim sem ser atendida — lembra o pai.

João conta ainda que negocia com produtoras de cinema para fazer um filme sobre a vida do filho. Ele diz que chegou a receber um convite do Globoplay para produzir um documentário, mas que prefere uma obra de ficção, já imaginando Caio Castro para o papel de Cristiano, pois vê uma semelhança física entre eles e admira o trabalho do ator.

O empenho para manter o legado de Cristiano e construir a carreira de Felipe é o que faz João conseguir prosseguir. Na última semana, ele tomou coragem mais uma vez e compôs uma música para Cristiano, chamada “Te amo, filho” (veja trecho da letra abaixo). Ela é uma versão da canção “Make you feel my love”, de Adele, e está sendo gravada pelos cantores gospel Bigair Dy Jaime e Marcela Pina, amigos da família.

— Meu filho mais novo (João Vitor) me incentivou a escrever. Terminei de compor 1h da manhã e chorei o resto da noite — recorda o pai, emocionado, que também é pai de Ana Cristina, irmã gêmea de Cristiano.

Trecho da canção ‘Te amo, filho’ (João Reis)

Vivo num mar de arrependimento

Por não estar quando mais precisou

Talvez seria tudo diferente

Se estivesse junto com você

Ah, como eu queria um abraço seu

Ver seu sorriso antes de dormir

A alegria de te ver sair

Dizer: “Te amo, filho. Vá com Deus”