Pais alvinegros, tricolores e vascaínos contam estratégias para evitar vira-casaca em boa fase do Flamengo

Tatiana Furtado
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Tricolor, o gestor de negócios Fabio é pai de Miguel

Na casa do músico e professor de história Carlos Eduardo Valdez, 34 anos, não se canta “Parabéns pra você”. O hino do Vasco é que dá o tom das comemorações. É assim que ele espera passar o amor ao clube, que já perdura na família há gerações, para o filho Benício de 4 anos.

O momento do Flamengo e as “más influências” na escola e entre parentes próximos geram certo temor de perder o pequeno torcedor para o rival. Mas pais e mães têm suas estratégias para impedir que a atual avalanche rubro-negra interfira nesse vínculo.

 

Cadu utiliza algumas táticas. Ele faz a sua parte vestindo o menino dos pés à cabeça nas cores do clube de coração. Ou associando os gols vascaínos a momentos divertidos. “Sempre o jogo para o alto nessa hora”. Mas diz ter argumentos caso precise de uma leve chantagem emocional:

— Somos afrodescendentes e procuro utilizar a história do clube, a luta contra o preconceito, de ter preferido ser rebaixado do que tirar os negros do time.

Um dia, Miguel Paz, de 10 anos, deixou escapar que torce pelo rubro-negro, quando o Fluminense não joga e só tem partida do Flamengo na TV. O pai, Fábio, que faz de tudo para os três filhos (ainda tem Tiago, 12, e Bento, 2) não escaparem do destino tricolor, se assustou.

Diante da surpresa do pai, Miguel tentou amenizar, afirmando que é tricolor de coração e nada vai mudar.

 

— Miguel é o que mais gosta. Ele não tem tênis, só chuteira. No aniversário dele, consegui um vídeo do Pedro autografando as camisas dos meninos. Essa é idade que está se formando o torcedor. Tem que explicar que o torcedor de verdade se mostra quando o clube está em baixa — conta o gestor de novos negócios, que faz um escudo contra as investidas do irmão rubro-negro.

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Do casal de gêmeos Murilo e Manoella, de 4 anos, o pai botafoguense Rodrigo Araújo, 36 anos, só conseguiu que o menino seguisse o alvinegro. Mas não tem sido fácil. O analista de negócios é o único botafoguense da família rubro-negra. A menina, inclusive, foi cooptada para o lado vermelho e negro da Força.

Uma das suas táticas tem sido colocar reprises de vitórias do alvinegro, como a sobre o Goiás. E levá-lo ao Nilton Santos. O menino já reconhece a “casa do Botafogo” ao passar pela Linha Amarela.

 

— Ele fala: “O Botafogo sempre ganha do time verde, papai”. Acho que eu não o perco mais — brinca.

Os títulos do Flamengo também ecoam na hora do recreio nas escolas. Os torcedores dos rivais sabem que ouvirão piadas sobre a situação dos seus times no momento em que o sinal tocar. E isso, claro, pode fazer as crianças a duvidarem de suas escolhas.

— É natural que isso aconteça mais entre os 6 e 10 anos, quando a relação de ganhar e perder fica mais aguçada. E é o momento em que se alicerça o desejo pelo time. Daí, é possível colocar em dúvida os pais pelo time que eles escolheram — explica a psicopedagoga da rede Mopi, Adriana Ferreira.

Do ponto de vista da pedagogia, no entanto, o papel da família é mais determinante nas escolhas.

— O futebol é um lugar de espaço cultural que se inicia no seio familiar. Pesquisas mostram que os filhos seguem o time dos pais que torcem realmente. Faz parte da história da criança, não pelas vitórias ou derrotas — diz Adriana.

O bullying dificilmente acontece no âmbito do futebol. As escolas insistem em pregar respeito às diferenças. Na Escola Nau, da Urca, a professora tricolor Luzia Barbosa enviou mensagem parabenizando os alunos rubro-negros:

— Um aluno me agradeceu pelo respeito ao time dele.