Pais e sobreviventes do incêndio da Kiss vivem gatilhos e ansiedade antes do julgamento

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SANTA MARIA, RS (FOLHAPRESS) - O mundo de Camilly como ela o conhecia acabou na madrugada de 27 de janeiro de 2013, quando ela tinha 13 anos. Algumas horas antes, ela fotografava o look escolhido pela irmã mais velha, Thanise, 18, estudante de filosofia, para sair com amigos, em Santa Maria (RS).

No meio da madrugada, um amigo comentou com Camilly que a boate Kiss, no centro da cidade, havia pegado fogo. A confirmação de que Thanise estava lá veio da mãe, Carina Côrrea, 43, auxiliar de nutrição, que estava de plantão em um hospital, atendendo vítimas que começavam a chegar da tragédia.

Enquanto familiares percorriam ruas e hospitais, Camilly acompanhava todas as publicações nas redes sociais e tentava ligar para a irmã.

"Até que saiu o vídeo dela na garagem do Carrefour", lembra. As vítimas que eram retiradas da boate -a maioria já mortas- eram levadas para o estacionamento do supermercado, que fica do outro lado da rua.

"E eu vi a bolsa dela, era de alguém na grade, que subiu, e aparecia de lado o rosto dela. Em outro vídeo, uma profissional da saúde, eu acho, fez algumas contrações nela e mudou de pessoa. Ela só subiu em cima da minha irmã e trocou. Meu mundo caiu de novo. Eu disse: é a Thanise". De fato, aquele era o corpo da irmã.

Quase nove anos depois, Camilly enfrenta agora gatilhos que a fazem relembrar a tragédia.

O motivo é a aproximação do julgamento dos quatro réus que respondem pelo incêndio que deixou 242 mortos e 636 feridos, que vai começar na próxima quarta (1º), em Porto Alegre. O processo foi levado para a capital do estado a pedido de uma das defesas, alegando que o júri em Santa Maria não seria imparcial.

"O meu maior medo, um assunto que eu tento evitar, que não gosto de falar porque dói muito, que nunca sai da minha cabeça, eu vou enfrentar de frente agora. Parece um filme, vai passando tudo na cabeça de novo", lembra a jovem, que hoje tem 21 anos.

A proximidade da data tem mexido com a saúde mental e física de familiares e sobreviventes. Vários têm evitado inclusive dar entrevistas por recomendação médica.

"Desde a semana passada notamos um aumento de procura do segmento da população afetada, tanto aqueles que estavam em alta quanto alguns novos. Já prevendo esse movimento, criamos um terceiro turno para o período do julgamento e disponibilizamos atendimento online", diz o psicanalista Volnei Dassoler, coordenador do Acolhe, serviço do SUS, criado pela prefeitura de Santa Maria para atender a população afetada pelo incêndio.

Carina é uma das cerca de 40 pessoas que seguem acessando o serviço. Só na rua dela, quatro jovens morreram no incêndio. Depois de perder Thanise, ela se tornou mãe de um menino há três anos. "Eu tive o Theo, mas você convive com a dor, ela é tua companheira, você coloca debaixo do braço e carrega. Ela é intransferível".

Lívia Oliveira, 56, perdeu o único filho, Heitor, 24, estudante de economia, que tinha ido à boate resolver um assunto sobre um bloco de carnaval e sairia em seguida. Segundo amigos, ele morreu ao voltar para salvar outras pessoas.

"O primeiro ano é aquele ano que você reaprende a respirar, a conviver com uma ausência que jamais vai mudar. Eu fui achando caminhos, aquilo que me fazia bem, e fui trilhando. No segundo ano, eu e meu marido decidimos fazer uma viagem, porque eu não queria estar em Santa Maria", lembra ela.

Ela diz que hoje já não define como luto o que sente, mas uma saudade capaz de anestesiar a alma, especialmente nos dias 26 e 27 de todo mês.

"Quem sobreviveu ao Farrezão (Centro Desportivo Municipal), acredito que não tenha medo de mais nada", diz ela, contando sobre como viu o filho no ginásio municipal, onde os corpos foram colocados em fileiras no chão, dividindo meninos e meninas, para serem identificados.

"Eu fiz todo o processo, eu carreguei a alça do caixão do meu filho. Não tinha carro fúnebre para levar o corpo, ele foi levado num caminhão e eu olhando tudo aquilo", lembra. "Tem que haver justiça. Nós, como pais, precisamos disso. É uma forma de fechar um ciclo da nossa vida", diz ela, que não pretende ir a Porto Alegre.

Muitos familiares precisaram de tratamento e desenvolveram problemas de saúde depois da tragédia. "Mente e corpo não se dissociam. Quando a gente fala de impacto de um evento assim, a gente está falando tanto no físico, quanto no psicológico, porque uma coisa interfere na outra", explica o psiquiatra Vitor Crestani Calegaro, coordenador do ambulatório de psiquiatria do Ciava (Centro Integrado de Atendimento às Vítimas de Acidentes), criado na UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) para atender as vítimas da Kiss -30 pacientes seguem nele hoje.

"Tu não consegue esquecer, é algo que te corroi, que fica dentro de ti. [Quando escuto Kiss], é essa imagem que vem à minha cabeça, a quadra do Farrezão com aquele monte de jovens mortos", diz a técnica de enfermagem Eneida Santos, que trabalhou como voluntária no ginásio municipal, ajudando a limpar os corpos para que fossem identificados.

Luiza Mathias, 28, estava em frente ao palco onde tocava a banda Gurizada Fandangueira e viu o início do fogo na boate. A turma dela de medicina veterinária da UFSM era uma das que promovia a festa "Agromerados", para levantar dinheiro para a formatura, em parceria com a boate. Seis colegas morreram na tragédia.

Luiza conseguiu chegar à porta e foi puxada por um colega que já estava na rua. Assim que caiu no asfalto, vomitou algo com coloração preta. Depois de algumas semanas, precisou tratar uma pneumonia, consequência da fumaça tóxica inalada.

"Uns colegas meus também trataram pneumonia, outros queimaduras, com cirurgia e tudo mais. A gente fez tratamento psiquiátrico, eu fiz por mais de um ano. O médico me diagnosticou com depressão", conta.

"Com essas tragédias que aconteceram depois, sempre volta tudo. Na época da queda do avião da Chapecoense, eu fiquei muito mal, meu médico mudou a medicação, eu chorava horrores. Aquilo tudo volta".

Mesmo jovens que não estavam dentro da boate, também precisaram de apoio e ajuda pós-trauma. Caso de André Polga, 28, que perdeu duas amigas na tragédia e, no final de 2013, criou o movimento "Kiss: Que não se repita", que tem mais de 21 mil seguidores no Instagram.

"É um espaço de desabafo. Quem perdeu alguém, depois de dois ou três meses, não teve muito apoio, a sociedade se fechou. 'Vamos deixar a cidade se desenvolver, os mortos descansarem'", conta ele, citando frases que muitos familiares e sobreviventes ouviram inúmeras vezes nos últimos anos.

Camilly recebeu um comentário parecido ao compartilhar nas redes sociais uma iniciativa de apoio às famílias que querem ir a Porto Alegre acompanhar o julgamento, há duas semanas.

"Minha irmã tem um nome, tem uma família, tem uma história. Minha irmã não é só um número como colocaram naquele dia nela, ela não é um pedaço de carne. A minha família nunca vai voltar a ser o que era. A cada notícia boa que eu tenho, eu quero contar para ela e não dá", diz ela, que hoje é mãe de uma menina de dois anos.

"Eu consegui sentir um amor mais colorido de volta. Antes, eu vivia um dia após o outro, sempre na esperança de que um dia acabaria. Minha filha deu um sentido a mais".

A filha dela e Theo, seu irmão e filho de Carina, só conhecem Thanise por fotos.

"Tem sido uns dias estressantes, mas o Theo me abraça, ele é muito carinhoso. Eu penso que ele tem a vida inteira, toda a infância para curtir e penso, poxa, deixa eu dar meu melhor, para ele entender que eu tenho um sofrimento, que falta um pedaço, mas eu procuro...vamos curtir agora", diz Carina.

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