Pais fogem da ‘masculinidade hegemônica’ para criar filhos livres do machismo

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Era para ser mais um dia comum na escola. Meninas para um lado, meninos para o outro, e pronto: hora de ver qual dos grupos sairia vitorioso no cabo de guerra. O time masculino, porém, estava em clara vantagem sobre o feminino. Seus integrantes eram mais fortes e numerosos. Incomodado com a divisão injusta, o pequeno Matias resolveu migrar para o time das garotas. Ele tinha 7 anos, e não se sabe qual dos lados venceu. Mas, naquele dia, houve uma pequena revolução ali.

A história é narrada com orgulho pelo pai do garoto, o empresário e educador Leandro Melquiades. Ele enxerga a atitude do filho, hoje com 10 anos, como uma prova de que a educação pensada por ele e a ex-mulher tem cumprido o seu objetivo. “Fui criado como um homem hétero e cis, e a mãe dele, que é preta retinta, me trouxe muitas questões para refletir. Quando ela engravidou, decidimos logo que queríamos que ele crescesse consciente da sua negritude e de tudo o que ela representa”, conta. Com isso, vieram também as questões de gênero e identidade. “Ele é convidado diariamente a observar as opressões cotidianas e como se comporta em relação aos outros e, sobretudo, às meninas.”

Leandro faz parte de uma geração de pais que tem se empenhado em desconstruir códigos e condutas de uma “masculinidade hegemônica” na educação dos filhos. Ainda que não tenham sido criados dessa maneira, esses homens compreendem como tudo o que praticam em seus núcleos familiares pode contribuir para o combate ao machismo e suas consequências. Por isso, frases como “homem não chora” ou advertências do tipo fale, ande ou lute “igual homem” foram abolidas de suas rotinas. Matias brinca desde cedo com bonecas negras e pode pintar as unhas quando quer, assim como usa saia para copiar o estilo do pai que tanto admira. “Ele ficou pedindo uma igual à minha. Então, minha mãe costurou uma, que ele usou até não servir mais”, conta Leandro. “Gosto de ver como o meu filho está crescendo com uma liberdade de ser. Outro dia, fomos comprar uma roupa, e ele escolheu um moletom rosa. Fiquei pensando que, quando tinha a idade dele, isso jamais teria passado pela minha cabeça.”

O professor Fabio Mariano da Silva, que leciona no curso Masculinidades Contemporâneas da PUC-SP e é doutor em Ciências Sociais, explica que a expressão “masculinidade hegemônica” foi definida pela pesquisadora australiana Raewyn Connell e ganha cada vez mais espaço nos debates identitários. Segundo ele, diz respeito ao que passou a ser compreendido como uma forma honrada de ser homem, baseada numa ideia de virilidade e força, as quais precisam ser demonstradas permanentemente. “Do mesmo jeito, eles não podem falhar. E isso os torna reféns de si, à medida que a sociedade avança e, juntamente com ela, a luta por direitos e equidade de gênero”, detalha o professor.

O ator Rainer Cadete faz parte do grupo de pais que está atento a esse tipo de discussão. Recentemente, passou a introduzi-los diretamente nas conversas com o filho, por meio da literatura. A partir de uma dica da amiga Amora Mautner, ele substituiu a mesada de Pietro, de 14 anos, por uma compensação dada a cada livro lido. A única regra é que ambos precisam conhecer a obra por completo para debater o conteúdo, depois da leitura.

A lista de publicações é eclética, mas teve espaço reservado a autoras feministas, como Djamila Ribeiro e Grada Kilomba, uma preocupação de Rainer. Os resultados dessa imersão, ele diz, são notórios. “É um conhecimento que o emancipa, e ele não cai nas armadilhas dos padrões impostos pela sociedade. Hoje, o vejo conversando com os amigos sobre como tratar uma mulher com respeito, por exemplo”, orgulha-se.

Pietro, por sua vez, confirma as observações de Rainer ao exibir um discurso afiado sobre temas políticos e sociais. “Vejo esses livros como um caminho para corrigir os erros do passado”, elabora. “Com esse conhecimento, entendo melhor as dores dos outros e passei a respeitá-las mais. Compreendo, por exemplo, como é a vida de uma transexual negra no nosso país. Cada pessoa tem um corpo e o direito de cuidar dele como quiser.”

Aos olhos da pesquisadora em masculinidades e doutora em Psicologia Social Helen Barbosa dos Santos, os pais que se preocupam em romper com modelos preconcebidos certamente proporcionam um futuro melhor aos filhos. “Estamos falando de uma vida que pode ser aprisionada a partir dos ditames de masculinidades hegemônicas, mas que também pode ser mais livre, ao se romper o circuito de solidão e silêncio que paira entre os homens”, compara.

Incorporar a equidade de gênero na educação de crianças e jovens, diz Helen, significa desenvolver relações de cuidado em que pais, filhos e filhas se comuniquem de uma maneira em que haja troca entre as partes. Quando isso acontece, rompe-se com a visão conservadora, em que o homem aparece sobre um pedestal, de onde exerce seus poderes sobre os outros integrantes da família. Ela observa que pessoas como Leandro e Rainer conseguem estabelecer uma conexão mais profunda com os filhos, num processo que vai muito além dos ditames do gênero. “Não é uma questão de aprenderem a ser homem, mas de serem felizes. Juntos.”

Essas preocupações também permeiam a maneira como o pedagogo Caio Cervasio estabelece diálogos com o filho Guilherme, de 5 anos. Os dois brincam de boneca juntos, fazem “comidinhas” e já assistiram a incontáveis sessões de “Frozen”, filme da Disney que mostra a saga de uma princesa em busca de liberdade e autonomia. “Ele gostava tanto, que até tinha a trança da Elsa para brincar”, diverte-se o pai.

Com essa criação livre de estereótipos, Caio arrisca que uma mudança geracional pode estar em curso, quando imagina o filho mais velho. “Acho que os meninos como ele vão se tornar adultos com uma visão bem menos preconceituosa, se comparados aos da minha geração e das anteriores”, vislumbra. Essa diferença, aliás, já se faz notar em pequenas atitudes. Quando era criança, o próprio Caio levou uma bronca dupla por brincar com a maquiagem de uma prima. Ele foi advertido tanto por mexer nas coisas dos outros sem autorização, quanto por brincar com algo “de menina”. Uma atitude bem diferente do que acontece hoje em dia, quando Guilherme aparece em casa com as unhas pintadas, brincadeira que ele adora compartilhar com a mãe. A primeira vez em que isso aconteceu rendeu apenas uma postagem nas redes de Caio. “Recebi meu filho assim hoje, com as unhas lindas”, escreveu na legenda da foto.

Dicas dos pais:

“Paternidade”: O filme disponível na Netflix é a recomendação de Leandro Melquiades para quem deseja refletir sobre o tema. “É uma produção muito sensível, que mostra o homem com um olhar novo, ao explorar inseguranças.”

“Billy Elliot”: Caio Cervasio recomenda um clássico para ser apreciado em família. Afinal, a saga de Billy para se tornar bailarino é motivadora em vários aspectos. “No início, os pais são contra ele fazer balé. Então, acho o filme inspirador”, comenta.

“Ideias para adiar o fim do mundo”: O livro de Ailton Krenak fez parte da bibliografia compartilhada entre Rainer Cadete e seu filho e, por isso, o ator recomenda a leitura. “É uma das melhores obras que já li. O autor critica a Humanidade como algo separado da natureza.”

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