Paleoartista brasileiro que ilustrou capa da Nature espalha dinossauros em Uberaba

MARCELO TOLEDO
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RIBEIRÃO PRETO, SP (FOLHAPRESS) - Para Rodolfo Nogueira, era o pico de reconhecimento: “Todos os pesquisadores e paleontólogos do planeta vão conhecer um animal brasileiro pelos meus olhos. Fiquei louco, um misto de orgulho e descrença.” Assim o paleoartista brasileiro de 34 anos descreveu sua reação ao saber que uma ilustração sua, de um Ixalerpeton polesinensis, do grupo dos llagerpetídeos, estamparia a capa da revista científica Nature, a mais tradicional do mundo e uma das mais prestigiosas. A revista publicou artigo de uma equipe internacional de cientistas sobre o álbum de família dos pterossauros. Novas informações indicam um parentesco próximo entre eles e pequenos quadrúpedes que comiam insetos e viviam em árvores, inclusive no Brasil. Os fósseis dos lagerpetídeos começam a aparecer há 237 milhões de anos, e suas características sugerem que eles seriam o “grupo irmão” dos Marcelo Toledopterossauros. O trabalho inclui os cientistas Martín Ezcurra, do Museu Argentino de Ciências Naturais Bernardino Rivadavia, e os brasileiros Max Langer, da USP de Ribeirão Preto, e Sergio Cabreira, da Associação Sul Brasileira de Paleontologia. Foram eles que convidaram Nogueira para produzir as ilustrações do artigo. “Já tinha trabalhado muitas vezes com a equipe, inclusive um dos prêmios que recebi foi com eles. [Na Nature] falaram que a gente poderia propor uma opção de capa para eles e, quem sabe, a gente ganharia. Foi o que ocorreu”, disse. "É um troféu ter o nome estampado na capa da maior revista científica do mundo." O reconhecimento não é novo na carreira do paleoartista de Uberaba, cidade mineira onde começou a desenhar aos 11 anos. Tampouco o universo dos dinossauros, já que a região em que mora abrigou pterossauros e crocodilomorfos, entre outras espécies. No dia 21, por exemplo, entregou a segunda escultura de dinossauros (maniraptora) de sete previstas para serem espalhados em áreas públicas de Uberaba até julho. A obra foi instalada na praça Manoel Terra, no centro da cidade. Extintos há milhões de anos, esses animais fazem parte do dia a dia de Nogueira, que recria e dá forma a espécies descobertas no país. “Busco sempre fazer com que as pessoas entendam o que é esse trabalho, tento torná-lo mais palatável. Os dinossauros estão no imaginário de todos nós.” Formado em desenho industrial pela Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Bauru, começou a gostar de dinossauros aos 11 e começou a ilustrar usando lápis e papel. Depois aprendeu técnicas de tinta a óleo, nanquim, guache e aquarela, até chegar ao 3D. Passou a fazer esculturas dos dinossauros, que considera ilustrações tridimensionais. Vencedor do Jabuti de 2018 na categoria infanto e juvenil com o livro “O Brasil dos Dinossauros”, com Luiz Eduardo Anelli, já obteve 12 premiações fora do país. Para chegar ao grau de especialização atingido, estudou anatomia. Seu trabalho, conta, começa quando vê o fóssil encontrado e lê o artigo científico que descreve a espécie. Em seguida, calcula com base nos relatos científicos o tamanho do esqueleto do animal e produz uma versão 3D. As etapas seguintes incluem cálculos do tamanho e do formato da musculatura do animal, também em 3D, e a definição das cores, com base em animais dos dias de hoje. Com resina, parafina, isopor, massa de modelar e cimento surgem os dinossauros, que compõem o tripé do projeto de criação de um geoparque na cidade mineira para impulsionar o turismo local. Lançada em 2017, a proposta envolve, além da paleontologia, a religiosidade —ancorada no médium Chico Xavier (1910-2002)— e o gado zebu. Sede da ABCZ (Associação Brasileira dos Criadores de Zebu), Uberaba promove anualmente a Expozebu, principal evento pecuário do país. Já foram inaugurados quatro geossítios. Um deles é o de Peirópolis, distrito de Uberaba que abriga jazidas de fósseis de dinossauros e um museu. “Eu não poderia ter nascido em lugar melhor”, diz o paleoartista. Geólogo da UFTM (Universidade Federal do Triângulo Mineiro) e um dos coordenadores do projeto, Luiz Carlos Borges Ribeiro afirma que Nogueira se destaca por ser muito habilidoso e dedicado: “É o melhor paleoartista do Brasi. Tem um currículo muito grande mesmo sendo jovem. A Nature só veio coroar esse trabalho.” Nogueira, pesar do elogio, não acha que se trate de um dom. “Aprendi na internet, sozinho, usava no laboratório da Unesp. Não acredito em dom de jeito nenhum. O dom é a vontade”, diz. "Tem de ter um tema que a gente goste demais e escolher uma habilidade e a desenvolver, além de ter vontade de fazer pelo próximo. Minha vontade é de causar uma sensação maravilhosa nas pessoas." Após tantos prêmios e de ilustrar a capa da Nature, amigos brincam com Nogueira que só falta o Oscar, honraria máxima do cinema dos EUA. “Fico feliz com o reconhecimento, claro. Falam que tenho de estar em Hollywood, mas gosto de pensar no país, no que podemos fazer pelo nosso país", diz. "Quem vai puxar as palmas de uma nova era na ciência e nas artes brasileiras somos nós. Nós temos de construir isso.”