Palestinos ameaçam deixar de cooperar com Israel em matéria de segurança

Por Joe DYKE
1 / 2
Mahmud Abbas em 19 de maio de 2020 em uma reunião com a liderança palestina em Ramallah, Cisjordânia ocupada.

O presidente palestino Mahmud Abbas ameaçou encerrar a cooperação de segurança com Israel, que planeja anexar os territórios na Cisjordânia ocupada, uma estratégia que parece confusa, segundo analistas.

Abbas já havia anunciado o colapso de "todas as relações" com Israel e os Estados Unidos após o anúncio em janeiro do plano de Washington para o Oriente Médio, que propõe a anexação do vale do Jordão e das colônias judaicas da Cisjordânia, território ocupado desde 1967 por Israel.

Para o presidente palestino, esse projeto mostra que Israel não se sente obrigado a respeitar os acordos de paz de Oslo de 1993. E, portanto, os palestinos também não, disse ele na noite de terça-feira.

"A partir de hoje (quarta-feira)" o governo não se sente mais vinculado a "todos os seus acordos e compromissos com os governos dos EUA e de Israel, e todas as suas obrigações relacionadas a esses compromissos e acordos, incluindo as relacionadas à segurança", afirmou ele.

"Já ouvimos isso várias vezes antes. Mas Abbas deve transformar palavras em ações", disse Hugh Lovatt, analista do Conselho Europeu de Relações Internacionais.

Abbas não deu detalhes do anúncio, mas o vice-presidente do partido, Mahmud al-Alul, garantiu à AFP que serão apresentados em breve.

"Desde a noite passada (terça-feira), todos os contatos com os israelenses, principalmente com relação à segurança, cessaram", acrescentou.

Segundo analistas, o fim da cooperação em segurança pode comprometer a relativa tranquilidade na Cisjordânia, onde vivem 2,7 milhões de palestinos, além de 450 mil israelenses que residem em colônias consideradas ilegais pelo direito internacional.

O emissário da ONU para o conflito no Oriente Médio, Nickolay Mladenov, disse que Israel deve "abandonar suas ameaças de anexação" e os líderes palestinos devem "retomar as negociações" com os países envolvidos no processo de paz na região.

Mladenov instou os outros membros do quarteto (UE, Rússia e EUA) a "trabalharem com a ONU e alcançar rapidamente uma proposta que lhe permita desempenhar seu papel de mediador e trabalhar em conjunto com os países da região para promover a paz".

O chefe da diplomacia dos EUA, Mike Pompeo, lamentou a ameaça do presidente palestino. "Esperamos que os acordos de segurança sejam mantidos, que os trabalhos na região para garantir a segurança do povo de Israel e dos palestinos continuem", disse Pompeo em coletiva de imprensa em Washington.

Em Paris, o ministro das Relações Exteriores Jean-Yves Le Drian revelou ao parlamento que França, Alemanha, Espanha e Itália estão trabalhando para que "todos voltem à mesa de negociações" e avisaram que sanções não estão descartadas em caso de anexação.

- Dificuldades -

Tareq Baconi, do International Crisis Group (ICG), acredita que a cooperação "não pode ser desfeita da noite para o dia".

Israel controla todos os pontos de entrada da Cisjordânia e a coordenação com o Estado hebreu é necessária inclusive quando Abbas se desloca entre Ramallah e qualquer outra cidade palestina.

"Haverá um impacto não apenas na liberdade de movimento (dos palestinos), mas em tudo, até no abastecimento de alimentos", diz Baconi, que alega que Abbas pretende aumentar a pressão sobre Israel para que modere em seu projeto.

As declarações de Abbas ocorrem logo após a posse de um novo governo de união em Israel entre o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e seu ex-rival eleitoral Benny Gantz.

O governo de Israel deve decidir em 1º de julho a estratégia para executar o plano do presidente dos EUA, Donald Trump.

Joe Biden, candidato democrata à eleição presidencial de novembro, manifestou sua oposição ao projeto de anexação, considerando que mina as esperanças de paz, enquanto a União Europeia (UE) lembrou ao Estado hebreu a necessidade de respeitar o direito internacional.

O rei Abdullah II da Jordânia, o único país árabe juntamente com o Egito que assinou acordos de paz com o Estado hebreu, alertou que haverá um "grande conflito" com seu reino em caso de anexação.

Segundo Oded Eran, ex-embaixador de Israel na Jordânia, o Estado hebreu teme que suas relações com o Reino Hachemita sejam comprometidas.

E enquanto o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu acredita que "é hora" de avançar para a anexação, seu novo parceiro e ministro da Defesa Benny Gantz é mais reticente e pode atrasar o projeto, segundo Eran.

Para Yosi Beilin, um dos arquitetos israelenses dos acordos de Oslo assinados com os palestinos, as críticas crescentes do projeto de anexação terão "um impacto no governo israelense".

"Pelo menos vai acentuar os debates internos" entre partidários de Netanyahu e Gantz, diz ele.