Palestinos prestam homenagem à jornalista morta na Cisjordânia

O caixão da jornalista palestina Shireen Abu Akleh durante homenagem em Ramallah (AFP/ABBAS MOMANI) (ABBAS MOMANI)

Milhares de palestinos prestaram homenagem nesta quinta-feira (12) à jornalista Shireen Abu Akleh, que morreu ao ser atingida por um tiro na cabeça durante uma operação militar israelense na Cisjordânia, em meio a críticas internacionais e o pedido do governo dos Estados Unidos de uma investigação "transparente".

Vários líderes palestinos, diplomatas estrangeiros e uma multidão participaram na cerimônia oficial em Ramallah, onde fica a sede da Autoridade Palestina na Cisjordânia e para onde foi levado o caixão coberto com uma bandeira palestina.

A Autoridade Palestina, liderada por Mahmud Abas, rejeitou os pedidos de Israel para uma investigação conjunta sobre a morte da jornalista do canal Al Jazeera, que aconteceu na localidade de Jenin, na Cisjordânia, um território palestino ocupado por Israel desde 1967.

A emissora Al Jazeera, a Autoridade Palestina e os países árabes na ONU acusaram o exército israelense pela morte.

A jornalista morreu no campo de refugiados de Jenin, reduto dos grupos armados palestinos no norte da Cisjordânia, de onde procedem os autores dos recentes atentados em Israel.

O exército de Israel anunciou uma operação para deter palestinos suspeitos na quarta-feira.

Em um primeiro momento, Israel sugeriu que a jornalista morreu "provavelmente" vítima dos tiros de combatentes palestinos, mas horas depois as autoridades israelenses afirmaram que não poderiam descartar a possibilidade de que o tiro tenha partido de seus soldados.

"Consideramos as autoridades israelenses de ocupação totalmente responsáveis por sua morte", declarou Abbas durante a cerimônia, antes de completar que recusa uma investigação conjunta porque "as autoridades israelenses cometeram o crime" e afirmou que não confia nestas.

A jornalista, uma palestina cristã de 51 anos, que também tinha cidadania americana, usava o colete à prova de balas com a palavra "Imprensa" e um capacete de repórter quando cobria a operação.

- "Irmã de todos os palestinos" -

A notícia da morte provocou grande comoção nos Territórios Palestinos e no mundo árabe - donde suas reportagens eram muito acompanhadas há mais de duas décadas -, na Europa e nos Estados Unidos.

Muitas pessoas depositaram flores no local da morte e manifestações foram registradas em diversos pontos dos Territórios Palestinos.

Shireen "era a irmã de todos os palestinos", afirmou seu irmão Antun Abu Akleh à AFP na quarta-feira.

"O que aconteceu não pode ser silenciado. Graças a Deus o povo palestino a apoiou e a nós, ela não será esquecida", acrescentou.

O funeral acontecerá na sexta-feira em uma igreja em Jerusalém, cidade onde ela cresceu.

A Al Jazeera acusou as forças israelenses de matar "deliberadamente" e a "sangue frio" sua repórter mais famosa.

- "Todos os indícios" -

O ministro da Defesa de Israel, Benny Gantz, afirmou que são necessárias as "provas forenses" dos palestinos, incluindo a bala que matou a repórter, para uma investigação "completa".

A Cogat, unidade do ministério da Defesa de Israel que supervisiona as atividades civis nos territórios palestinos, pediu aos palestinos "a bala encontrada no corpo de Shireen Abu Akleh para que a divisão de investigação criminal da polícia militar possa fazer uma investigação forense e rastrear a origem dos tiros", disse uma fonte das forças de segurança à AFP.

De acordo com o legista palestino Rayyan Ali, que examinou o corpo, a jornalista foi assassinada por um tiro que a atingiu "a grande velocidade" na cabeça.

O secretário de Assuntos Civis da Autoridade Palestina, Husein al Sheikh, destacou que "todos os indícios, as evidências e os depoimentos confirmam o assassinato pelas unidades das forças especiais israelenses".

"Israel pediu uma investigação conjunta e que entreguemos a bala que matou a jornalista, mas recusamos. A investigação deve ser completamente independente", disse Al Sheikh.

Israel também ofereceu às autoridades palestinas e americanas que estejam presentes durante a análise da bala, e identificar se possível a arma da qual procede.

O governo dos Estados Unidos pediu uma investigação "transparente", de preferência conjunta entre israelenses e palestinos, enquanto a ONU e a União Europeia pediram uma investigação "independente".

Durante uma visita a Teerã nesta quinta-feira, o emir do Catar, Tamim bin Hamas Al-Thani, acusou Israel de matar a jornalista. "Os autores deste crime hediondo devem ser responsabilizados", declarou.

Por outro lado, Israel aprovou hoje um plano para construir 4.427 casas em assentamentos judeus na Cisjordânia ocupada, informou a ONG israelense Peace Now. A lei internacional considera a colonização israelense ilegal.

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