Palmeiras x Flamengo: rivalidade extrapola estados, envolve títulos e dinheiro

Igor Siqueira

Em meio à euforia pelos 4 a 1 sobre o Ceará no Maracanã e a entrega da taça do Brasileirão, a torcida do Flamengo lembrou-se de um concorrente para provocar. A adoção do grito de “Palmeiras não tem Mundial", famoso entre as torcidas de São Paulo, Corinthians e Santos, escancara uma a rivalidade que desabrocha nos últimos tempos.

Por mais que o confronto deste domingo, na Arena Palmeiras, às 16h, não vá mudar o destino de uma temporada que já é do Flamengo, o simbolismo está no receio das autoridades. O temor por brigas entre organizadas fez a polícia deixar de garantir a segurança para a partida e recomendar a torcida única.

A CBF acatou, criando um precedente difícil de ser ignorado para as partidas futuras, e o ntem, o Palmeiras soltou uma nota oficial aprovando a medida – embora tenha justificado que “segurança é um bem maior a ser preservado”, o posicionamento foi repudiado até por palmeirenses nas redes sociais, pelo justo temor de retaliação nas próximas partidas no Rio. O STJD rejeitou um recurso liminar do Flamengo contra a torcida única, criando o tipo de marco que pode consolidar a rivalidade ensaiada há algum tempo, mesmo com só uma final entre ambos (a Copa Mercosul de 1999) e dois Brasileirões polarizados (2018 e 2019).

Flamengo e Palmeiras travam nos últimos três anos uma disputa no âmbito financeiro que os mantém estáveis no topo da tabela. Em 2017, a liderança foi rubro-negra, com um faturamento de R$ 623 milhões, contra R$ 503 milhões palmeirenses.Em 2018, o Palmeiras virou o jogo, com R$ 654 milhões de receitas, contra dos R$ 516 milhões do Flamengo. Para 2019, os indicativos apontam para nova vitória rubro-negra nesse campo.

– Um já mira o outro. Isso ficou claro neste ano, mas também nos anteriores. Essa rivalidade começou nas finanças e seguiu para a performance. Não é por que estão em estados diferentes que eles têm rivalidade menor. Não é só a questão territorial. E isso tende a permanecer na parte financeira e, consequentemente, na técnica – avalia Pedro Daniel, diretor executivo da consultoria Ernst&Young.

Tática e política

No aspecto técnico desse Palmeiras x Flamengo, há um claro conflito de ideias entre Jorge Jesus e Mano Menezes. O técnico brasileiro, adepto a um jogo reativo, já disse que “não viu nada de novo" no trabalho do português, mesmo com apresentações indiscutíveis tais como a vitória rubro-negra por 3 a 0 sobre o Palmeiras, que resultou na demissão do antecessor de Mano, Luiz Felipe Scolari.

A ascensão do Flamengo de Jesus se confronta com a estagnação do time de Scolari, um elenco caro que simplesmente parou de ganhar depois da Copa América. Se parece insuficiente a campanha palmeirense – em terceiro lugar hoje, com aproveitamento de 64,8% – muito se deve aos 80% do Flamengo. Se for mantido, esse índice baterá em muito o recorde de 71,1% do Corinthians de 2015, considerando a fórmula dos pontos corridos com 20 clubes.

Já a memória dos rubro-negros volta a 2013, quando Mano pediu demissão do Fla e, nos anos seguintes, dirigiu o Cruzeiro numa série de vitórias sobre os cariocas, na final da Copa do Brasil em 2017 e nas oitavas da Libertadores de 2018.

Neste mesmo Brasileiro, até os dirigentes de Flamengo e Palmeiras mediram forças fora do campo. O presidente do Palmeiras, Mauricio Galliote, disse que havia favorecimento ao Fla. Marcos Braz, vice de futebol rubro-negro, rebateu comparando o dirigente paulista a um gato que mia (reclama) e bebe leite (tem decisões a favor) ao mesmo tempo.

Internamente, a diretoria do Flamengo não põe a rivalidade com o Palmeiras acima das locais, cultivadas por mais de um século com Fluminense, Vasco e Botafogo. Mas a nacionalização da rivalidade pode render frutos.

– Você consegue impactar maior público. Barcelona x Real Madrid é um clássico disso. São de regiões distintas, com culturas distintas, mas alimentam a rivalidade porque um cresce por meio do outro. Ao mesmo tempo, Palmeiras e Flamengo se comportam como a principal referência dentro do seu estado. Para o Flamengo, por exemplo, pode ser interessante mostrar que o rival não é mais Botafogo, Fluminense ou Vasco. Ele está em outra. Bem como o Palmeiras. Há rivalidades locais, como Liverpool x Everton, mas não necessariamente são os maiores rivais esportivos – diz Pedro Daniel.

Aquele “Palmeiras não tem Mundial" puxado na arquibancada foi uma das trilhas sonoras de Gabigol na festa dos títulos da Libertadores e do Brasileirão e um troco pelo que o Palmeiras e sua torcida fizeram em 2018. O campeonato alviverde foi comemorado com uma camisa em que se lia “não deu nem pro cheiro", em referência ao “cheirinho” de título, expressão rubro-negra adotada recentemente quando o time se sentia favorito.

– Ano passado, eles falaram do cheirinho. No aeroporto, passaram em frente à loja do Flamengo. Agora, é o nosso momento de comemorar – disse o atacante, que volta neste domingo de suspensão.

Nas redes sociais

O jogo de hoje é o reencontro de clubes que cultivam objetivo similares ano a ano. Neste 2019, o Flamengo levou a melhor no Brasileirão, faturou a Libertadores e ainda está a caminho do Mundial, tão cobiçado pelos alviverdes. Na Série A, o Palmeiras teve a liderança por oito rodadas e a partir da 16ª, quando a liderança passou para o Flamengo, foi o principal perseguidor. Mas os títulos nacionais em duas das três edições anteriores impõem respeito.

A preocupação entre os torcedores rivais pode ser verificada no comportamento nas redes sociais. O Ibope Repucom faz o monitoramento de perfis e verificou que 2019 trouxe preocupação mais intensa entre os torcedores de cada time.

— A ascensão do Flamengo neste ano criou uma rivalidade digital que não existia. O Flamengo nunca foi rival do Palmeiras. Era mais do Vasco, enquanto o rival do Palmeiras é o Corinthians. À medida em que os dois times viraram protagonistas, a atenção de um virou para o outro e vice-versa. Isso é uma coisa bastante digital. Pode continuar existindo ou não, porque não é natural e depende da performance dos times – diz José Colagrossi, diretor-executivo do Ibope Repucom, que publica o ranking mensal do desempenho dos clubes nas mídias digitais.

Neste domingo, o Flamengo não terá Pablo Marí, liberado para resolver documentação, e Everton Ribeiro, lesionado. Mano poupou jogadores contra o Fluminense fim de ter força máxima hoje. Já o Palmeiras não terá o goleiro Wéverton, suspenso, e o zagueiro Gómez, contundido.