Pan de 2007: O ouro que fez o Brasil enxergar o futebol feminino

Giulia Costa e Raphaela Ramos
Jogadoras da seleção comemoram gol no Pan-Americano de 2007

O futebol feminino do Brasil já tinha sido prata nas Olimpíadas de Atenas-2004. Mas o reconhecimento, que até hoje está longe de ser o ideal, subiu um degrau há 13 anos, quando a seleção faturou o ouro nos Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio de Janeiro. Na final, num Maracanã lotado, o Brasil não tomou conhecimento dos Estados Unidos e atropelou por 5 a 0. Hoje, às 16h, a TV Globo, que à época transmitiu o jogo ao vivo, reprisa o show de Marta, Cristiane e companhia.

Naquele Pan, a seleção fez uma campanha perfeita, com 33 gols marcados e nenhum sofrido. Antes de enfrentar as americanas bicampeãs mundiais e olímpicas, o Brasil derrotou Uruguai, Jamaica, Equador, Canadá e México. Marta foi a artilheira do torneio, com 12 gols.

Vice-artilheira com oito gols, Cristiane relembrou o apoio da torcida:

— Por ser transmitido em canal aberto, esse jogo teve possibilidade de alcançar outras pessoas, crianças que nem imaginavam que tinha futebol feminino e que a gente conseguiria encher um estádio.

Para além das goleadas e lances plásticos, aquele jogo representou a primeira vez que a torcida brasileira se reconheceu no futebol feminino. O time masculino já havia caído na primeira fase, e o público de 67 mil pessoas viu naquelas mulheres a esperança de uma grande vitória.

— A gente não tinha noção do quanto esse jogo entraria na história e o que a gente estava escrevendo aquele dia. É um marco para um esporte que era proibido para as mulheres e foi desacreditado pela torcida. O Brasil foi do futebol feminino por aquele momento — diz Aline Pellegrino, capitã da seleção que conquistou o ouro no Maracanã.

Dois meses depois, o Brasil ainda foi vice-campeão da Copa do Mundo da China. Muitos ainda se perguntam como aquele time conseguiu tais conquistas quase sem nenhum investimento — o país sequer tinha uma liga nacional.

A visibilidade do Pan ajudou a alavancar o desenvolvimento da modalidade, que vinha caminhando a passos curtos. Em outubro daquele ano, foi criada a Copa do Brasil feminina de futebol, que depois se tornou o Brasileirão. De lá para cá, os campeonatos nacional e estaduais foram reestruturados. No ano passado, a CBF criou duas novas competições, a sub-18 e sub-16, além de reformular a sub-14.

Até 2018, eram disputados 217 jogos de futebol feminino por ano no Brasil. Desde o ano passado, esse número quase dobrou.Em 2020, todas as competições terão algum tipo de transmissão.

— Estamos numa crescente. Se olharmos para trás, vamos achar que poderia ser mais rápido, mas tem sido sólido, o que é mais importante — analisa Aline Pellegrino, que hoje é diretora do Departamento Feminino da Federação Paulista de Futebol.