Pandemia avança devagar, mas OMS diz para África se preparar para o pior

FÁBIO ZANINI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Com o número comparativamente modesto de 798 casos confirmados de coronavírus até a noite desta quinta (19), ou irrisórios 0,33% do total mundial, a África tem passado a impressão de que foi milagrosamente poupada do pior da pandemia.

Nada mais falso, como alertou nesta quinta o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), o etíope Tedros Ghebreyesus.

"A África, meu continente, precisa acordar", disse ele, numa entrevista coletiva em Genebra. "É preciso evitar grandes concentrações e fazer todo o possível para cortar [a pandemia] pela raiz, esperando que o pior pode acontecer."

A previsão de médicos e autoridades locais é que o cenário deve piorar em breve. Por enquanto, a epidemia atingiu 35 dos 54 países, além de duas regiões administrativas da França na costa africana.

Apesar de a proporção de casos ser bem menor do que a fatia africana na população mundial, que é de cerca de 16%, o peso relativo dos números do continente vem crescendo lentamente. No início da semana, eram cerca de 0,2% os casos africanos no cômputo global.

"Estamos no início da curva, sob muita pressão pelo que virá em breve", declarou à Folha Adriano Duse, chefe do Departamento de Microbiologia e Doenças Infecciosas da Universidade Witwatersrand, uma das mais importantes da África do Sul.

"Estamos trabalhando 24 horas por dia, sem direito a descanso", disse ele, membro da força-tarefa médica montada pelo governo sul-africano para lidar com a doença.

A lenta marcha das estatísticas na África pode ter sido afetada por problemas de detecção do vírus pelos deficientes sistemas de saúde locais.

Mas é resultado sobretudo da posição periférica do continente nas cadeias globais, disse Elizabeth Sidiropoulos, diretora do Instituto Sul-Africano de Relações Internacionais, um dos principais think tanks do continente.

"A integração da África com o resto do mundo é assimétrica", afirma Sidiropoulos.

Ligações aéreas do continente com outras partes do mundo são menores, assim como o intercâmbio de pessoas e mercadorias.

Além disso, o movimento mais frequente é de africanos saindo do continente, como mostram as ondas de imigrantes para a costa mediterrânea, e não o inverso, de pessoas que poderiam chegar trazendo o vírus.

Mas menos ligações não significam que elas sejam inexistentes, alertou a própria OMS. Hoje há enorme volume de investimentos da China, epicentro da pandemia, na África.

"Sistemas de saúde frágeis e ligações entre a China e a África significam que a ameaça representada por esse novo vírus é considerável", afirmou a organização em comunicado, no início do mês.

Não por acaso, os países mais afetados são os que têm maiores conexões com o resto do mundo. O líder é o Egito, com 256 casos confirmados, seguido por África do Sul (150) e Argélia (87). Já são 20 mortes no continente todo.

"A África tem sistemas de saúde que só podem ser descritos como frágeis, com algumas exceções localizadas em países como África do Sul, Quênia e o norte do continente", diz Sidiropoulos.

Há incidência endêmica de doenças como tuberculose e Aids, que podem precipitar os óbitos caso pacientes peguem também coronavírus.

Por outro lado, é um continente com população relativamente jovem. Apenas 5% do 1,3 bilhão de africanos têm mais de 65 anos de idade, principal grupo de risco. Na Itália, um dos países que mais sofrem com a crise, são 23%.

Sidiropoulos aponta outro problema sério no continente: a falta de redes de proteção social e previdenciária para trabalhadores, muitos dos quais vivem na informalidade.

"É possível para um trabalhador formalizado atuar em esquema de home office, mas essa não é uma opção para um motorista de lotação ou vendedor de cigarros em Nairóbi [capital do Quênia]", diz ela.

Alguns dos principais países do continente têm seguido medidas de restrição à circulação de pessoas em linha com o resto do mundo.

No domingo (15), o governo sul-africano declarou "estado de desastre nacional", proibindo viagens para países com altos índices de infecção e reuniões de mais de cem pessoas, entre outras medidas.

"Nunca na história da nossa democracia nosso país foi confrontado com situação tão severa", disse em pronunciamento na TV o presidente Cyril Ramaphosa.

Nenhuma autoridade arrisca prever qual a velocidade com que a doença se espalhará pela África, mas o fato de que países muito populosos do continente ainda têm poucos casos indica que os números tendem a explodir em breve.

Na Nigéria, por exemplo, com 200 milhões de habitantes, houve até o momento só oito casos. Na Etiópia, com 115 milhões, somente seis.

Paradoxalmente, afirma Sidiropoulos, a África tem uma certa vantagem sobre os demais continentes pelo fato de grandes emergências de saúde serem parte da rotina.

Foi o continente mais afetado no auge da epidemia de Aids, no início deste século, e enfrentou duas crises recentes de ebola, no oeste africano (2014-16), e na República Democrática do Congo (2018-19).

"Há uma estrutura de saúde montada para essas crises que pode ser usada agora", diz ela.

Outro ponto positivo em meio a um cenário fúnebre é a lição aprendida com a resposta tardia dada pela África do Sul no início do surto de Aids, que custou milhares de vidas enquanto o governo atacava a eficácia de medicamentos antirretrovirais.

"A reação naquele momento foi terrível, e as pessoas se lembram das consequências até hoje. Agora a atitude é diferente", afirma.